Reflexões sobre a actual crise no Médio-Oriente
 
Marta Mucznik
Licenciada em Relações Internacionais
 

Ouço muitas vezes o argumento da desproporção do uso da força por parte de Israel na sua resposta de retaliação a ataques levados a cabo pelo Hezbollah, através dos diversos meios de comunicação e entre os círculos fechados dos corredores que atravessam as salas quer do Conselho da União Europeia quer da Comissão Europeia.

Neste contexto gostaria de reiterar o seguinte: A guerra, de uma forma geral, que hoje se trava já não pode ser combatida de uma forma convencional: as ameaças com que se confronta hoje o mundo ocidental e democrático são cada vez mais difusas, difíceis de identificar e imprevisíveis. Hoje já não se confrontam exércitos bem definidos, dispondo de aparelhos militares equivalentes e que se combatem de acordo com a teoria da “guerra justa.” (apesar de duvidar bastante da possibilidade desta teoria se aplicar na prática em alguma circunstância acho que sempre são principios que servem de referência a uma conduta de guerra). A mera questão do que constitui uma ameaça é em si mesmo objecto de debate e de discórdia não só entre diversos Estados e líderes políticos mas também entre a sociedade civil e a opinião pública.

O actual conflito entre Israel e o Hezbollah e a percepção que certos segmentos da comunidade internacional e da opinião pública têm deste demonstra de forma flagrante esta realidade. Pelo que acho importante relembrar o seguinte: o inimigo de Israel não é um Estado, cujo exército o ataca abertamente, mas sim um eixo de Estados que o rodeiam e que mantêm uma máquina de propaganda anti-israelita e uma retórica agressiva que incita ao ódio e que apela sem qualquer escrúpulo à sua destruição (um facto que é bastante ignorado e raramente debatido pelos média e pela opinião pública). O inimigo não usa os métodos convencionais para combater e fazer avançar a sua agenda política. Pelo contrário, organiza-se através de milícias e grupos de guerrilhas dispersos que utilizam a população civil como escudos humanos, que se aproveitam do elemento surpresa de atentados suicidas, e que agem de uma forma cobarde e desonesta. No entanto parecem dar a imagem de meros grupos de resistentes irresponsáveis que escapam ao controle do governo (apesar de estarem cada vez mais representados na esfera política e de ganharem cada vez mais adesão popular nos Estados em que operam). Logo, qualquer resposta a um ataque desencadeado neste caso pelo Hezbollah, surge aos olhos do mundo como uma resposta desproporcionada sobretudo para quem opta por ignorar, na narrativa do conflito, que esta ofensiva israelita é a consequência e não a causa da actual crise.

Admito que Israel até possa ter cometido erros de estratégia militar (apesar disto fazer parte da imprevisibilidade que caracteriza qualquer guerra) nos alvos que pretendia atingir causando demasiadas vitimas civis. Mas a questão é que a proporcionalidade da resposta tem que ser equacionada mediante a ameaça que este ataque do Hezbollah representa. E esta ameaça vai muito para além dos soldados capturados e assassinados em solo soberano de Israel, vai muito para além de mísseis e rockets que atingem Haifa e o norte de Israel. É um ataque que vem na sequência de muitos outros, que é desencadeado com armas e dispositivos militares do Irão e com o apoio da Síria, que se enquadra numa lógica bélica regional anti-Israel e numa retórica anti-semita que tem as suas origens imediatas na criação do Estado de Israel. É muito fácil fazer julgamentos, publicar grandes comunicados, deixar a resolução do conflito nas mãos de uma comunidade internacional que pouco ou nada pode fazer por falta de capacidade militar e influência política, sobretudo quando não é a sua própria sobrevivência que está em causa.

Políticos e tecnocratas da União Europeia parecem concordar com a gravidade que a ameaça do Hezbollah representa para Israel e apelam à cessação de hostilidades e ao cessar-fogo. Mas quando se lhes coloca a questão “então o que sugerem para que Israel se veja livre do Hezbollah?” são incapazes de apresentar uma resposta coerente que enfrente o problema de frente. Por outro lado, a União Europeia recusa-se a incluir o Hezbollah nas lista negra de organizações terroristas (contrariamente ao que fez em relação ao Hamas) apesar deste movimento – tal como os que já estão incluídos na referida lista - satisfazer todos os critérios de um movimento “terrorista” de acordo com a definição europeia. Pergunto-me então, qual é o propósito desta lista se no fundo a legitimidade destes grupos militantes é avaliada em função do poder e da influência que têm e não em função do mal que causam (se um grupo neo-nazi ascende ao poder em qualquer país Europeu, então tornar-se-á legítimo e digno do “diálogo”?). A União Europeia tem que impor as suas condições, manter-se fiel aos seus princípios e valores fundamentais e não ceder a grupos que aterrorizam populações inteiras e que são responsáveis por centenas de atentados terroristas, só porque estes têm eco no mundo árabe pelos motivos errados.

Todos queremos a Paz e não quero com isto dizer que a solução, a longo prazo, para o conflito actual entre Israel e o Hezbollah tenha que ser única e exclusivamente militar. A questão é qual é a melhor forma de alcançar essa paz e sobretudo de enfrentar uma ameaça crescente que não pode ser ignorada e que definitivamente não se esgota nas fronteiras do Estado de Israel como a história recente infelizmente já o comprovou.

 

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