Porquê Cavaco Silva? II
Dezembro 2005
João Sobral
Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais
 

Expliquei em artigo anterior por que entendo que o Prof. Cavaco Silva tem o perfil mais adequado ao cargo de Presidente da República tendo em conta os poderes presidenciais. Em suma disse que os poderes do Presidente poderão ser engrandecidos por alguém com a sua capacidade de projecção de influência, pois é seu o mérito de conseguir transformar as intervenções públicas que tem feito apenas como cidadão, em consequências efectivas relevantes.

Procurarei explicar agora por que é que o perfil de Cavaco Silva é também o mais adequado em virtude da conjuntura actual do país, das transformações que estão a decorrer no mundo e da necessidade de transmitir boas referências às gerações mais novas.

A situação em que o país se encontra é um factor a ponderar na escolha do Presidente da República. Quando Cavaco Silva terminou os seus mandatos na chefia do governo deixou um capital de confiança na sociedade, e um capital efectivo de meios, incomparavelmente promissores se comparados com o clima de desânimo e dificuldade de hoje. A má tendência revelada pela economia portuguesa, e a descrença das pessoas, resultam sobretudo de uma péssima experiência de governação que se seguiu a esse período e ainda a algumas alterações relevantes no contexto internacional.

A correcção a nível interno tem vindo a ser parcialmente feita através da implementação de reformas, ainda que devessem ser mais ambiciosas. Todavia, o tempo presente é marcado por uma invulgar dose de incerteza que exige uma apurada compreensão do sentido da mudança e uma actuação precisa e adequada nas áreas onde é necessário intervir. Os instrumentos de análise económica e política que Cavaco Silva domina, assim como a sua larga experiência lectiva e de governação, permitem-lhe ter uma visão exacta da situação comparativa de Portugal no mundo, e em particular no contexto da União Europeia e desse modo cultivar uma cooperação institucional com os restantes órgãos de soberania no sentido da correcta resolução dos principais problemas do país. Essa percepção está alicerçada no seu trabalho de análise técnica como economista e professor, e nos seus conhecimentos da realidade política adquiridos primeiro como ministro das Finanças de Sá Carneiro e depois como primeiro-ministro. A sua experiência constitui um activo valioso para Portugal.

O sistema internacional sofreu nos últimos anos alterações políticas muito relevantes que se tornaram mais evidentes com os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 e alterações económicas graduais, também muito relevantes e profundas, que não tiveram nenhum momento preciso de revelação, e que, talvez por isso, têm sido não raras vezes confundidas com causas que não estão na sua origem. O contexto internacional tornou-se muito complexo e requer hoje conhecimentos rigorosos, e não apenas intuição, para a interpretação do sentido de mudança rápida e ininterrupta que estamos a conhecer. À excepção de Cavaco Silva, nenhum dos restantes candidatos está munido de uma grelha sólida de análise que lhe permita interpretar essas alterações; o que se tem demonstrado nas intervenções imprecisas que amiúde têm produzido sobre estas matérias.

O entendimento do contexto internacional, o contacto directo com personalidades prestigiadas em cargos relevantes e o amadurecido prestígio que alcançou internacionalmente colocam Cavaco Silva numa posição onde concilia uma proximidade relativamente aos problemas dos cidadãos com uma proximidade aos centros de decisão. Acresce ainda que algumas mudanças nas opções de gestão dos assuntos públicos no espaço europeu – que é claramente um domínio de política interna – exigem grandemente firmeza nas negociações internacionais. As posições tecnicamente consistentes de Cavaco Silva poderão exercer junto do governo uma influência positiva nessas negociações.

Existe hoje uma cultura de imediatismo e de facilitismo que, nas suas mais variadas manifestações, tende a ser atractiva mas que aponta um caminho pouco construtivo e pouco responsável. Cavaco Silva é uma pessoa a quem são reconhecidas, por pessoas posicionadas em diferentes áreas do arco político em Portugal e no exterior, qualidades de credibilidade e boa conduta, de competência e de prestígio. É uma pessoa dedicada à causa pública, e que fez um percurso profissional na política quando lhe foi confiada a nobre responsabilidade de gerir os assuntos públicos mas que se procurou manter afastado do que a política tem de sub-mundo de raposice organizada. Essas qualidades, adquiridas por mérito, aliadas a um experimentado sentido de liderança, conferem-lhe autoridade para emitir sinais e exercer influência junto dos jovens.

Por ser merecedor da confiança dos agentes económicos em Portugal e no exterior, por dar um exemplo de dedicação à causa pública, e por estar à altura de contribuir para a reconstrução de uma estratégia nacional, estou convicto de que como Presidente da República Cavaco Silva ajudará a afirmar na sociedade uma cultura de responsabilidade e um trajecto de viabilidade para Portugal.