|
Expliquei
em artigo anterior por que entendo que o Prof. Cavaco Silva tem o perfil
mais adequado ao cargo de Presidente da República tendo em conta
os poderes presidenciais. Em suma disse que os poderes do Presidente poderão
ser engrandecidos por alguém com a sua capacidade de projecção
de influência, pois é seu o mérito de conseguir transformar
as intervenções públicas que tem feito apenas como
cidadão, em consequências efectivas relevantes.
Procurarei explicar
agora por que é que o perfil de Cavaco Silva é também
o mais adequado em virtude da conjuntura actual do país,
das transformações que estão a decorrer no
mundo e da necessidade de transmitir boas referências às
gerações mais novas.
A situação
em que o país se encontra é um factor a ponderar na escolha
do Presidente da República. Quando Cavaco Silva terminou os seus
mandatos na chefia do governo deixou um capital de confiança na
sociedade, e um capital efectivo de meios, incomparavelmente promissores
se comparados com o clima de desânimo e dificuldade de hoje. A má
tendência revelada pela economia portuguesa, e a descrença
das pessoas, resultam sobretudo de uma péssima experiência
de governação que se seguiu a esse período e ainda
a algumas alterações relevantes no contexto internacional.
A correcção
a nível interno tem vindo a ser parcialmente feita através
da implementação de reformas, ainda que devessem ser mais
ambiciosas. Todavia, o tempo presente é marcado por uma invulgar
dose de incerteza que exige uma apurada compreensão do sentido
da mudança e uma actuação precisa e adequada nas
áreas onde é necessário intervir. Os instrumentos
de análise económica e política que Cavaco Silva
domina, assim como a sua larga experiência lectiva e de governação,
permitem-lhe ter uma visão exacta da situação comparativa
de Portugal no mundo, e em particular no contexto da União Europeia
e desse modo cultivar uma cooperação institucional com os
restantes órgãos de soberania no sentido da correcta resolução
dos principais problemas do país. Essa percepção
está alicerçada no seu trabalho de análise técnica
como economista e professor, e nos seus conhecimentos da realidade política
adquiridos primeiro como ministro das Finanças de Sá Carneiro
e depois como primeiro-ministro. A sua experiência constitui um
activo valioso para Portugal.
O sistema internacional
sofreu nos últimos anos alterações políticas
muito relevantes que se tornaram mais evidentes com os acontecimentos
de 11 de Setembro de 2001 e alterações económicas
graduais, também muito relevantes e profundas, que não tiveram
nenhum momento preciso de revelação, e que, talvez por isso,
têm sido não raras vezes confundidas com causas que não
estão na sua origem. O contexto internacional tornou-se muito complexo
e requer hoje conhecimentos rigorosos, e não apenas intuição,
para a interpretação do sentido de mudança rápida
e ininterrupta que estamos a conhecer. À excepção
de Cavaco Silva, nenhum dos restantes candidatos está munido de
uma grelha sólida de análise que lhe permita interpretar
essas alterações; o que se tem demonstrado nas intervenções
imprecisas que amiúde têm produzido sobre estas matérias.
O entendimento do
contexto internacional, o contacto directo com personalidades prestigiadas
em cargos relevantes e o amadurecido prestígio que alcançou
internacionalmente colocam Cavaco Silva numa posição onde
concilia uma proximidade relativamente aos problemas dos cidadãos
com uma proximidade aos centros de decisão. Acresce ainda que algumas
mudanças nas opções de gestão dos assuntos
públicos no espaço europeu – que é claramente
um domínio de política interna – exigem grandemente
firmeza nas negociações internacionais. As posições
tecnicamente consistentes de Cavaco Silva poderão exercer junto
do governo uma influência positiva nessas negociações.
Existe hoje uma cultura
de imediatismo e de facilitismo que, nas suas mais variadas manifestações,
tende a ser atractiva mas que aponta um caminho pouco construtivo e pouco
responsável. Cavaco Silva é uma pessoa a quem são
reconhecidas, por pessoas posicionadas em diferentes áreas do arco
político em Portugal e no exterior, qualidades de credibilidade
e boa conduta, de competência e de prestígio. É uma
pessoa dedicada à causa pública, e que fez um percurso profissional
na política quando lhe foi confiada a nobre responsabilidade de
gerir os assuntos públicos mas que se procurou manter afastado
do que a política tem de sub-mundo de raposice organizada. Essas
qualidades, adquiridas por mérito, aliadas a um experimentado sentido
de liderança, conferem-lhe autoridade para emitir sinais e exercer
influência junto dos jovens.
Por ser merecedor
da confiança dos agentes económicos em Portugal e no exterior,
por dar um exemplo de dedicação à causa pública,
e por estar à altura de contribuir para a reconstrução
de uma estratégia nacional, estou convicto de que como Presidente
da República Cavaco Silva ajudará a afirmar na sociedade
uma cultura de responsabilidade e um trajecto de viabilidade para Portugal.
|