Os Estados Unidos e a sua aproximação à Europa
A Europa na Política Externa Americana
Maio 2005
Marta Teixeira Castelo Branco
Licenciada em Ciência Política e em Relações Internacionais

No primeiro trimestre deste ano, a Europa fez parte da agenda de George W. Bush na esperança de ultrapassar as divisões provocadas pela guerra do Iraque e começar uma nova fase do relacionamento transatlântico. Foi recebido de braços abertos pelos líderes europeus, sobretudo pelos que mais o criticaram.

A visita do presidente Norte-americano à Europa foi sem dúvida muito bem preparada de modo a impressionar e cativar todos os que se opuseram à guerra do Iraque. Como referiram alguns meios de comunicação, numa clara tentativa de sedução, George W. Bush jantou a sós com Chirac e deslocou-se à Alemanha para se encontrar com Gerhard Schroeder, outros tiveram que se deslocar a Bruxelas para efectuarem breves encontros com o mesmo.

Os objectivos foram alcançados visto que, a operação de charme resultou na medida em que, quer a Alemanha quer a França mostram-se agora muito mais disponíveis para cooperar. Apesar de continuarem a recusar o envio de tropas para o Iraque.
Em Bruxelas, George W. Bush pediu uma “nova era” de relacionamento transatlântico. Independentemente das diferenças do passado defendeu que americanos e europeus partilham dos mesmos valores e têm os mesmos objectivos que são espalhar a democracia e a liberdade pelo mundo. Reforçando a convicção de que a segurança de ambos depende do sucesso desta colaboração. Mas mais uma vez somos invadidos por um sentimento de desconfiança, não pelos objectivos, mas sim pelos meios a utilizar.

Verifico que são diferentes as formas de ver e interpretar as situações. Os europeus são mais diplomatas enquanto os americanos têm bem definidos os seus objectivos, jogando assim a favor dos seus próprios interesses.

Apesar de todos as formalidades habituais, interrogo-me se a Europa e a América conseguirão trabalhar em conjunto e defender os mesmos interesses? Surgindo a dúvida se esta é uma “nova era de entendimento ou um exercício de hipocrisia ditado pelo pragmatismo”.

Ao abordar esta temática da política externa norte americana e o papel da Europa na mesma tenho que, inevitavelmente, referir uma obra que interroga e simultaneamente esclarece: “Precisará a Europa de uma Política Externa” de Henry Kissinger, onde o mesmo refere que na entrada do novo milénio deparamo-nos com os EUA a possuírem uma superioridade inigualável. Desde o armamento à actividade empresarial, da Ciência à tecnologia. Assumiram um papel de mediadores mesmo que por muitos questionado, alcançaram-no. Por muitos considerado como indispensável à estabilidade internacional.

Sempre como principal objectivo a manutenção da paz e propagação de sistemas Democráticos. Perante algumas actuações questionamo-nos se são os valores ou o interesse, o idealismo ou o realismo a conduzir a política externa Norte Americana, quando o ideal seria fundi-los.

Kissinger refere que a transformação da relação atlântica é provocada por quatro mudanças fundamentais: a desintegração da União Soviética; a unificação da Alemanha; a tendência crescente de tratar a política externa como um instrumento da política interna e o florescimento da identidade europeia. Perante uma nova ordem europeia onde uma Europa tenta afirmar e demarcar-se cada vez mais de políticas unilateralistas.

No seguimento deste pensamento desta tentativa de perceber a aproximação dos EUA à Europa queria referir a última visita de Madeleine Albright pela coerência que transmitiu aquando da sua participação na Sexta edição das Conferências DN/Diário Digital, onde abordou os perigos e desafios que pairam sobre as democracias contemporâneas, quando em causa está o relacionamento transatlântico, referindo que podem existir líderes que olhem mais do que outros para além do ciclo eleitoral.

Perante a complexa conjuntura internacional propícia a situações ambíguas para as democracias, “Uma Europa forte e unida e uns EUA fortes são indispensáveis um para o outro”. Albright insiste na importância do multilateralismo, na necessidade de se definir no plano internacional “objectivos comuns”.

Em suma, admitindo que os Estados Unidos são actualmente a única superpotência mundial e que pouco pode ser feito contra ela ou sem ela, temos consciência da sua vulnerabilidade como de qualquer outro estado, seja ele pequeno ou grande. Mas é inevitável questionarmo-nos quando e como é feita esta aproximação de uma superpotência como os EUA ao Velho Continente.