Os ares da democracia no mundo árabe: Posição Americana x Revolução Libanesa
Abril 2005
Lucas Canello Franceschini
 

O pós 11 de Setembro como já se é sabido produziu uma importante inflexão na ordem internacional, principalmente nos planos político e dos valores.

A Nova Doutrina de Segurança do Presidente W.Bush reflete de maneira sintomática as principais mudanças no cenário globalizado internacional.

A palavra-chave deste documento é “antecipação”: os Estados Unidos se julgam capazes de atacar com antecedência qualquer inimigo, que possa vir a representar uma ameaça a integridade territorial, a soberania ou a liberdade, não só, em especial, do povo americano, como de todo mundo ocidental.

A importância de tal teoria passou a ser vista por muitos analistas como “a síntese de uma era”.

O que se seguiu, no entanto, foi uma onda de erros e de medidas sem contra peso tomadas pelo Departamento de Segurança Americano, que passaram a fazer uma leitura maquiavélica da realidade internacional.

De um lado os amigos, os bons. Do outro, os inimigos, os maus – o “Eixo do Mal”.

A tão prolatada trilogia infactível do desenvolvimento das sociedades – democracia, liberdade e livre-comércio, passou a ser o “carro chefe”dos discursos do presidente americano ao redor mundo.

Tais condições eram vistas, e ainda hoje as são, como baluartes de sobrevivência das nações. Ou estas as têm ou as terão por nosso (USA) intermédio, através da utilização de todos os meios necessários ( lê-se: intervenção armada, guerras escusas)
A simplolosia desta visão enviesada da ordem internacional por parte dos Estados Unidos parece, ao menos, em tese, estar em curso de reorientações. Mas isto não significa que o governo americano foi abalroado por um “modelo de altruísmo, disposto a espalhar a mensagem democrática em nome da confraternização universal” ( Veja 30/03/2005).

Os interesses econômicos dos Estados Unidos no Oriente Médio, maior região produtora de petróleo do mundo são predominantes e vem a priori de qualquer outro sentimentalismo benevolente.

No entanto, frente a atual sede de liberdade e de mudanças no Oriente Médio, especialmente no Líbano, país que está na vanguarda desta que poderá ser mais um passo a frente na história da relações internacionais, os Estados Unidos tem se posicionado de maneira mais pragmática. Preferir a racionalidade a truculência militar parece ter sido a escolha correta (ainda que tardiamente, visto os acontecimentos ocorridos).

O Líbano é um pais formado por inúmeras etnias: cristãos (maronitas, ortodoxos gregos, protestantes, católicos, armêios) e muçulmanos (xiitas, sunitas, e drusos).

Desde de 1975 o Líbano tem sido alvo e reflexo de acontecimentos que se remetem a um velho projeto geopolítico – a constituição da “Grande Síria” : que sinteticamente pode ser explanado como a expansão da Síria sobre o Líbano, por considerar este país, como um Estado artificial criado pelo colonialismo francês.

O resultado deste projeto fracassado foi a instalação de mais de 15 mil soldados sírios em território libanês, fruto da Guerra Civil Libanesa , que se estendeu de 1975-1990, onde tropas sírias atuaram no combate.

Com o intuito de desestabilizar a região libanesa a Síria passou a atuar de forma pendular, apoiando ora os cristãos, ora os muçulmanos.

Alguma mudança já estava em curso e podia ser notada quando o primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, sucede Omar Karami, que aceitava a ingerência da Síria na política e nos problemas do Líbano. Hariri tomou as rédeas da caótica situação sócio-econômica e política em que se encontrava o Líbano.

Hariri reconstruiu literalmente o país que estava em ruínas depois de 15 anos de guerra civil e de infindáveis confrontos étnicos. Conseguiu a reconciliação nacional, fez renascer a vitalidade e a auto-estima do povo libanês e rompeu com a Síria, da qual era aliado por mais de 10 anos.

Mas ainda durante a ocupação Síria , o Líbano mantinha elementos em sua sociedade inexistentes nos vizinhos: economia de mercado, sociedade civil modestamente atuante, imprensa livre, contatos internacionais, dentre outros.

No entanto, mais uma vez, a história se repete de forma trágica. Assim como foi com Iszah Rabin, o primeiro-ministro libanês foi alvo de um brutal atentado no centro de Beirute. A culpa logo foi imputada ao regime sírio e a seus soldados que ainda estavam no local.

Ainda não se sabe bem ao certo por que, mas o povo libanês se esqueceu de suas rivalidades étnicas e se uniram em um sentimento único e uníssono: o ódio a Síria.

As manifestações populares, os protestos nas ruas, a pressão internacional e o isolamento da Síria (inclusive de aliados como a Arábia Saudita), aceleraram o movimento por independência e soberania do povo sírio, intitulado de Revolução dos Cedros , Intifada da Independência, dentre outros.

O vácuo de poder político deixado pela falta de governabilidade e representatividade poderá ser a mais nova ameaça a ser enfrentada pelo povo libanês, para evitar que grupos terroristas atuantes na região, especialmente o Hezbollah, financiado pela Síria e com forte atuação no Líbano, ganhem maior notoriedade e conturbem ainda mais a situação, já de grande instabilidade. Papel este a ser desempenhado conjuntamente com os Estados Unidos e com o Conselho de Segurança da ONU.

A atual situação no Líbano é um exemplo de como se deve comportar a política externa norte-americana na tentativa de entender e solucionar os intermináveis conflitos na colcha de retalhos do mundo árabe.

A pressão exercida por tropas americanas estacionadas na fronteira da Síria com o Iraque foi fundamental para que a manifestação popular lograsse êxito e o de sempre não ocorresse, isto é, qualquer tentativa de protesto por parte do povo libanês seria indubitavelmente rechaçada, reprimida.

A ajuda americana na construção de um mundo mais equânime, justo, pacifico e democrático, deve ter como pressuposto de sua “revolução permanente” (definição do governo Bush para levar a democracia ao mundo muçulmano), o respeito as desigualdades e o interesse da população local de querer esta tal “revolução”, que diga-se de passagem, vem de baixo e nunca de cima.

Continuar acreditando que os problemas do mundo possam ser solucionados com a imposição dos chamados “valores americanos”, é não entender o desenrolar do processo histórico das sociedades mundiais e não aprender que a violência não cria poder. “Ela destrói o poder como capacidade de agir em conjunto, dado chave da ação diplomática. São elementos dessa capacidade destrutiva da violência o paradoxo de que, quanto mais desenvolvido é um país, mais vulnerável ele se torna” ( Hannah Arent. Lafer, Celso - in Política Externa – vol 11 – n. 2 – 2002 ).

Que o processo histórico que se desenrola no Líbano sirva de exemplo para próximas aventuras norte-americanas, que com certeza virão.

 

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