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O pós 11 de Setembro
como já se é sabido produziu uma importante inflexão
na ordem internacional, principalmente nos planos político e dos
valores.
A Nova Doutrina de
Segurança do Presidente W.Bush reflete de maneira sintomática
as principais mudanças no cenário globalizado internacional.
A palavra-chave deste
documento é “antecipação”: os Estados
Unidos se julgam capazes de atacar com antecedência qualquer inimigo,
que possa vir a representar uma ameaça a integridade territorial,
a soberania ou a liberdade, não só, em especial, do povo
americano, como de todo mundo ocidental.
A importância
de tal teoria passou a ser vista por muitos analistas como “a síntese
de uma era”.
O que se seguiu, no
entanto, foi uma onda de erros e de medidas sem contra peso tomadas pelo
Departamento de Segurança Americano, que passaram a fazer uma leitura
maquiavélica da realidade internacional.
De um lado os amigos,
os bons. Do outro, os inimigos, os maus – o “Eixo do Mal”.
A tão prolatada
trilogia infactível do desenvolvimento das sociedades – democracia,
liberdade e livre-comércio, passou a ser o “carro chefe”dos
discursos do presidente americano ao redor mundo.
Tais condições
eram vistas, e ainda hoje as são, como baluartes de sobrevivência
das nações. Ou estas as têm ou as terão por
nosso (USA) intermédio, através da utilização
de todos os meios necessários ( lê-se: intervenção
armada, guerras escusas)
A simplolosia desta visão enviesada da ordem internacional por
parte dos Estados Unidos parece, ao menos, em tese, estar em curso de
reorientações. Mas isto não significa que o governo
americano foi abalroado por um “modelo de altruísmo, disposto
a espalhar a mensagem democrática em nome da confraternização
universal” ( Veja 30/03/2005).
Os interesses econômicos
dos Estados Unidos no Oriente Médio, maior região produtora
de petróleo do mundo são predominantes e vem a priori de
qualquer outro sentimentalismo benevolente.
No entanto, frente
a atual sede de liberdade e de mudanças no Oriente Médio,
especialmente no Líbano, país que está na vanguarda
desta que poderá ser mais um passo a frente na história
da relações internacionais, os Estados Unidos tem se posicionado
de maneira mais pragmática. Preferir a racionalidade a truculência
militar parece ter sido a escolha correta (ainda que tardiamente, visto
os acontecimentos ocorridos).
O Líbano é
um pais formado por inúmeras etnias: cristãos (maronitas,
ortodoxos gregos, protestantes, católicos, armêios) e muçulmanos
(xiitas, sunitas, e drusos).
Desde de 1975 o Líbano
tem sido alvo e reflexo de acontecimentos que se remetem a um velho projeto
geopolítico – a constituição da “Grande
Síria” : que sinteticamente pode ser explanado como a expansão
da Síria sobre o Líbano, por considerar este país,
como um Estado artificial criado pelo colonialismo francês.
O resultado deste
projeto fracassado foi a instalação de mais de 15 mil soldados
sírios em território libanês, fruto da Guerra Civil
Libanesa , que se estendeu de 1975-1990, onde tropas sírias atuaram
no combate.
Com o intuito de desestabilizar
a região libanesa a Síria passou a atuar de forma pendular,
apoiando ora os cristãos, ora os muçulmanos.
Alguma mudança
já estava em curso e podia ser notada quando o primeiro-ministro
libanês Rafik Hariri, sucede Omar Karami, que aceitava a ingerência
da Síria na política e nos problemas do Líbano. Hariri
tomou as rédeas da caótica situação sócio-econômica
e política em que se encontrava o Líbano.
Hariri reconstruiu
literalmente o país que estava em ruínas depois de 15 anos
de guerra civil e de infindáveis confrontos étnicos. Conseguiu
a reconciliação nacional, fez renascer a vitalidade e a
auto-estima do povo libanês e rompeu com a Síria, da qual
era aliado por mais de 10 anos.
Mas ainda durante
a ocupação Síria , o Líbano mantinha elementos
em sua sociedade inexistentes nos vizinhos: economia de mercado, sociedade
civil modestamente atuante, imprensa livre, contatos internacionais, dentre
outros.
No entanto, mais uma
vez, a história se repete de forma trágica. Assim como foi
com Iszah Rabin, o primeiro-ministro libanês foi alvo de um brutal
atentado no centro de Beirute. A culpa logo foi imputada ao regime sírio
e a seus soldados que ainda estavam no local.
Ainda não se
sabe bem ao certo por que, mas o povo libanês se esqueceu de suas
rivalidades étnicas e se uniram em um sentimento único e
uníssono: o ódio a Síria.
As manifestações
populares, os protestos nas ruas, a pressão internacional e o isolamento
da Síria (inclusive de aliados como a Arábia Saudita), aceleraram
o movimento por independência e soberania do povo sírio,
intitulado de Revolução dos Cedros , Intifada da Independência,
dentre outros.
O vácuo de
poder político deixado pela falta de governabilidade e representatividade
poderá ser a mais nova ameaça a ser enfrentada pelo povo
libanês, para evitar que grupos terroristas atuantes na região,
especialmente o Hezbollah, financiado pela Síria e com forte atuação
no Líbano, ganhem maior notoriedade e conturbem ainda mais a situação,
já de grande instabilidade. Papel este a ser desempenhado conjuntamente
com os Estados Unidos e com o Conselho de Segurança da ONU.
A atual situação
no Líbano é um exemplo de como se deve comportar a política
externa norte-americana na tentativa de entender e solucionar os intermináveis
conflitos na colcha de retalhos do mundo árabe.
A pressão exercida
por tropas americanas estacionadas na fronteira da Síria com o
Iraque foi fundamental para que a manifestação popular lograsse
êxito e o de sempre não ocorresse, isto é, qualquer
tentativa de protesto por parte do povo libanês seria indubitavelmente
rechaçada, reprimida.
A ajuda americana
na construção de um mundo mais equânime, justo, pacifico
e democrático, deve ter como pressuposto de sua “revolução
permanente” (definição do governo Bush para levar
a democracia ao mundo muçulmano), o respeito as desigualdades e
o interesse da população local de querer esta tal “revolução”,
que diga-se de passagem, vem de baixo e nunca de cima.
Continuar acreditando
que os problemas do mundo possam ser solucionados com a imposição
dos chamados “valores americanos”, é não entender
o desenrolar do processo histórico das sociedades mundiais e não
aprender que a violência não cria poder. “Ela destrói
o poder como capacidade de agir em conjunto, dado chave da ação
diplomática. São elementos dessa capacidade destrutiva da
violência o paradoxo de que, quanto mais desenvolvido é um
país, mais vulnerável ele se torna” ( Hannah Arent.
Lafer, Celso - in Política Externa – vol 11 – n. 2
– 2002 ).
Que o processo histórico
que se desenrola no Líbano sirva de exemplo para próximas
aventuras norte-americanas, que com certeza virão.
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