Olimpíadas 2008: “Um mundo, um sonho”
De Pequim
 
Fernanda Ramone
Bacharel em Relações Internacionais, actualmente cumprindo funções na China
Pesquisadora da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China
Fernanda_ramone@yahoo.com.br
 

Foi com esta proposta, que Beijing apresentou na cerimônia realizada na noite do último domingo (26/06) o slogan das Olimpíadas 2008.
O slogan carrega a responsabilidade chinesa em unir num só mundo os países participantes dos jogos olímpicos, as 56 minorias étnicas e territórios como Taiwan e Hong Kong, que almejam obter a independência política, desvinculando-se na teoria do que já é uma prática.

Este mundo, ainda em construção, em ritmo alucinante que assusta pelo dinamismo e pragmatismo chinês, concentra tantas premissas tal qual as providências a serem implementadas nestes 3 anos.
É preciso estar atento as sutilezas chinesas para embarcar no conceito e na filosofia embutida no slogan sem considerá-lo piegas.

A luta deste “império do meio”( tradução literal para Zhong Guo ??, nome do país em chinês) caracterizada no decorrer dos séculos por diversas invasões, algumas concessões ( como Macau que esteve sob administração portuguesa e Hong Kong concessão inglesa) e uma série de movimentos que influenciaram a dinâmica regional ( por exemplo em Qingdao com a presença dos alemães e Tianjin, com a presença japonesa) e mais recentemente o processo de abertura e a adaptação ao mundo ocidental.
Há também a luta diária travada pelos chineses no cotidiano deste que é o país mais populoso,
sem no entanto deixar abalar o nacionalismo arraigado, estas são apenas algumas das considerações a serem feitas.

Há ainda as de teor cultural, relacionadas ao modo lúdico típico do funcionamento do idioma chinês, sem elucidar as inúmeras sutilezas capazes de serem captadas somente com a experiência de se viver no país.

Este é o mundo que se prepara para o sonho de realizar as olimpíadas.
E realizar vai além dos preparativos como a construção da Vila Olímpica (cerimônia também realizada ontem) e obras de infra estrutura para comportar um evento deste porte, envolve no caso da China mudanças comportamentais, a mais óbvia delas relacionada ao aprendizado da língua inglesa.

A cerimônia de ontem, chamou a atenção pela comoção que as Olimpíadas despertam nos chineses, um misto de nacionalismo, profundo contentamento e orgulho, além de uma forte cobrança em relação aos resultados não apenas dos atletas, mas deles próprios em tornar deste sonho realidade.

Para os críticos, este espetáculo não emplaca, a começar pelo slogan, considerado insosso, que remete a propaganda de alguma agência de turismo ou empresa aérea. Consideram que os jogos olímpicos serão na verdade um show de ilusionismo, apresentando ao mundo panorama idêntico ao de alguns produtos made in china, falsos.

O embate entre críticos e entusiastas tem este intervalo até 2008 para se desenvolver, e posteriormente com o evento consumado poderão então dispor de argumentos concretos para defender cada qual sua posição.

Todavia acima desta esfera dos embates concentra-se um fator que movimenta e impulsiona o advento olímpico, trata-se do fascínio das massas, deste sentimento visceral e irracional que exerce o poder de unir todos pela mesma causa. Permitindo que esta colcha de retalhos, de tantas cores e sabores, anseios e devaneios transforme-se numa bandeira monocromática vermelha a ser agitada, tornando-se o instrumento a dar vazão na concretização de “um mundo um sonho.”