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Ciclicamente regressa ao espaço noticioso o comentário
bombástico que Portugal não teve, não tem, sinólogos.
Gente que domine perfeitamente a língua chinesa para aceder às
fontes primárias chinesas, históricas ou documentais, quiçá
as relativas à presença portuguesa em Macau e no Oriente.
Traduzindo-se numa desvantagem sistemática dos nossos investigadores
comparativamente aos outros ingleses, franceses ou alemães em que
é fluente o domínio do mandarim escrito e falado. O facto
de antigas nações coloniais como a França, a Grã-Bretanha
ou a Holanda disporem de centros de investigação bem dotados
e extremamente activos é elencada como uma vantagem decisiva desses
países.
Por aí corre a alegação que a administração
do único território sínico sobre que Portugal teve
responsabilidades históricas, durante quatrocentos e quarenta e
dois anos, foi assegurada por imprevidentes e incultos, gente impreparada
para o exercício de responsabilidades de administração
e que isso é sinal do abandono, por Portugal, das suas obrigações
históricas e políticas quanto a Macau.
Parte significativa dessas observações assenta em premissas,
parcialmente verdadeiras e não há com que contraditá-lo.
Mas noutra parte desvalorizam, subestimam e, nalguns casos, truncam condicionalismos
de natureza política, jurídica e institucional que estiveram
ligadas ao trato, ao estatuto de base pelo qual Portugal exerceu quanto
ao pequeno enclave, responsabilidades de soberania primeiro, de administração
depois. Condicionalismos que tipificam uma realidade que autores e investigadores
vários que são hoje, convenientemente, deixados na poeira
das estantes, tiveram o ensejo de analisar. Posso resumir essa caracterização
ao brocado “soberania dividida ou partilhada”. Que permite
tipificar a situação de administração dividida,
entre as autoridades do Terreiro do Paço e de Pequim, sobre os
habitantes portugueses, estrangeiros e “chin” de Macau. Divisão
que foi nítida até Dezembro de 1887 quando pelo Tratado
de Amizade e Comércio as autoridades imperiais chinesas vieram
a reconhecer “a ocupação de Macau por Portugal e o
governo perpétuo (de Portugal) sobre o território”.
Data a partir da qual a titularidade da soberania e o exercício
da administração passaram a coincidir até que em
1976 o legislador constitucional português (e não outro)
clarificou o estatuto de Macau como “território chinês
sob administração portuguesa”.
Em escritos que deixaram para a posteridade, esses autores tiveram a oportunidade
de estudar as razões da postura, das insuficiências, das
contradições da acção de Portugal no Oriente
a partir do poder metropolitano ou por intermédio dos seus representantes
aqui. Manda a decência e o respeito à memória histórica
que aqui lembre (sem hierarquizar) os nomes de Charles Boxer, Lourenço
Maria Conceição, Anthony Dickens, Almerindo Lessa, Calvet
de Magalhães, Videira Pires, Gomes Canotilho, Francisco Gonçalves
Pereira, Rui Afonso, António Vasconcelos de Saldanha, Jorge Costa
Oliveira, Paulo Cardinal, Eduardo Cabrita entre os muitos que procuraram
fazer luz sob um período áureo da história portuguesa,
que não envergonha, mas muito nos congratula.
Hoje está na moda carpir-se do que está mal, dizer mal pelo
mal, usar o “wishful thinking” de alguns, os palpites de outros,
e a ignorância de muitos, como se a história se pudesse fazer
(e refazer) a partir de uma “tábua rasa”, obliterando,
convenientemente, tudo o que ficou para trás e confundindo o relato
factual e os seus protagonistas. Isto configura o que poderia designar
como a “jornalificação” da análise histórica
e política, a menorização do trabalho académico
sério, sistemático e gradual que num tempo de Ritas Ferros
e Margaridas Rebelo Pinto, faz escola na literatura, como na análise
histórica, enquanto expressão da nossa mediocridade e alarvice.
Portugal nunca teve uma escola de sinologia no sentido estrito que lhe
atribuia um recente Fórum em Lisboa – os leitores e falantes
de chinês - porque nunca precisou dela. As relações
institucionais com os representantes formais e informais do Império
chinês (e do mandarinato de Cantão) foram asseguradas pelos
jesuítas e, num tempo mais avançado, por intérpretes-tradutores
que eram formados nas escolas de Macau. As relações com
a comunidade de negócios, com os chineses ultramarinos que logravam
refúgio aqui fugidos das perseguições políticas
na China eram concretizadas pelos luso-descendentes - os macaenses - que
a conhecida predilecção dos nossos compatriotas por mulheres
bonitas com traços exóticos, propiciava e multiplicava.
É impossível compreender a presença portuguesa em
terras do Oriente (como em terras de África) sem perceber o fenómeno
da mestiçagem sanguínea e cultural, minimizada hoje pelos
seguidores de Edward Said. Para que seriam precisos linguistas, destros
na língua maternal chinesa, se os macaenses intermediavam entre
os “bárbaros” e os senhores de Pequim e Cantão,
transmitindo-lhes o que queriam e trazendo de volta a respectiva resposta?
Mesmo que aproveitassem o exercício para se tornarem imprescindíveis
e lucrarem, pessoalmente, com a mediação. Numa lógica
de custo de oportunidade esta era a solução que estava à
mão e pagava o esforço e o encantamento.
Por isso, a segunda localização – a da língua
– foi marcada por este fenómeno particular que não
se verificará noutras situações de emancipação
política de “territórios dependentes”. Se no
quadro das negociações no Grupo de Ligação
Conjunto Luso-Chinês, se tomou, desde cedo, evidente a identificação
do mandarim como a “língua” chinesa, para efeitos da
política do bilinguismo, foi claro, também, que no âmbito
da outra localização – a dos quadros – a comunidade
luso-descendente se encontrava, à partida, em absoluta desvantagem
por não dominar o mandarim escrito e falado e ter apenas um reduzido
conhecimento vocabular do cantonense. Por esta dificuldade nunca permitiu
Portugal que fosse apresentado e negociado, em sede do GLC, uma lista
de dirigentes e quadros que passariam a ficar a dirigir os destinos da
administração de Macau depois de 1999. Fazê-lo, seria
consentir a Pequim uma debilidade negocial evidente.
Esta realidade é por vezes obliterada por uma teia de duplicidades
e meias-verdades que imputam a Portugal as pechas de uma localização
tardia escamoteando os condicionalismos políticos que a determinaram.
Porque para o comum dos mortais a memória é curta e o afastamento
dos factos logra encontrar distraídos alguns do seus protagonistas.
Dez anos depois da aprovação da política das duas
línguas oficiais permanecem dúvidas quanto à latitude
e profundidade da utilização do mandarim, como língua
oficial. Até porque o mandarim ensinado no ensino primário,
secundário e universitário, em Macau, é o mandarim
clássico (guanhua), a língua dos mandarins e não
o Standard Mandarim (putonghua/guoyu) que é a língua oficial
da República Popular da China, mas também de Taiwan e de
Singapura. Passa despercebido aos menos atentos que o mandarim representa,
efectivamente, uma família de dialectos múltiplos, alguns
dos quais são mutuamente ininteligíveis e que o mandarim
pequinense funciona como seu elemento unificador. Isto significa que também
por aí decorre uma segunda desvantagem para os naturais de Macau
perante as exigências da aplicação ao todo nacional
dos vários instrumentos do poder soberano. Ainda numa deslocação
recente a Pequim, para objectivos de formação, apercebi-me
que os bilingues que integravam a delegação revelavam dificuldades
notórias em compreender o chinês escrito nos anúncios
comerciais dos shoppings ou nas placas de sinalização alegando
em resposta a pergunta minha que o chinês que aprendem em Macau
não é o putonghua mas o guanhua.
Estranho. Não consegui reprimir o pensamento que o sistema educativo
da Região Administrativa Especial está a criar analfabetos
funcionais pretextando torná-los fluentes em mandarim.
Por isso estou crescentemente convicto que a sacrossanta questão
da sinologia, entendida como impreparação dos investigadores
portugueses para consultar as fontes chinesas é pura mistificação.
Nos estudos históricos isso nunca terá sido impedimento
para coisa alguma e não é por acaso que alguns dos melhores
investigadores de história diplomática se socorrem dos serviços
de peritos como Jin Guo Ping para análise das fontes chinesas primárias.
Por outro lado, do ponto de vista do estudo das relações
internacionais e da análise geopolítica o conhecimento do
chinês é absolutamente despiciendo.
Na verdade, as fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros
da RPC encontram-se, já em língua inglesa e disponíveis
na Internet, por exemplo através do site do jornal China Daily.
Ainda quanto à análise histórica deverá ter-se
em consideração que os textos de historiadores e investigadores
chineses não são ideologicamente neutros, e reportam a uma
lógica utilitária que tem objectivos políticos concretos.
Basta ler, por exemplo, os textos publicados por investigadores chineses
nalgumas revistas técnicas da RAEM para perceber que as opiniões
expendidas valorizam mais uma dada posição oficial, nada
se preocupando em analisar, controverter ou mesmo questionar as origens
e razões de determinada asserção, comando jurídico
ou afirmação ideológica.
Isso será, provavelmente, expressão do ensino acrítico,
mecânico e conformista que tem vigorado na China Popular. Não
há tradição de dissenso na China, porque isso foi
entendido – durante décadas - sinónimo de traição
ao Estado, fiel guardador da verdade absoluta. Trata-se, contudo, de uma
realidade em franca mutação, até porque os responsáveis
políticos da China perceberam que se têm de ajustar aos padrões
educativos internacionais, para terem no mercado de trabalho licenciados
competentes e competitivos. Durante muito tempo essa “abertura”
foi conseguida com o envio dos melhores alunos para as grandes universidades
dos Estados Unidos, do Canadá, da Austrália ou do Reino
Unido. Mas com a constatação que os bons raramente regressam
à China assiste-se agora a um fenómeno de sentido inverso:
o esforço de elevar as melhores universidades chinesas aos padrões
de excelência internacionais. Ainda, recentemente, soube de um amigo
professor de uma conhecida universidade de Hong Kong que foi recrutado,
pela Universidade de Pequim, para aí leccionar ciências sociais
durante três anos, em condições remuneratórias
próximas das oferecidas pelas universidades europeias. Esse meu
amigo é francês e não fala mandarim.
Por isso a aludida ausência de sinólogos surge à evidência
mais como uma desculpa, um fait-divers, do que uma deficiência clara
do nosso corpo de investigadores e da academia. O que importa perceber
é se a componente dos estudos orientais faz sentido nos curricula
universitários portugueses, se o mercado de trabalho assimila os
jovens que saem com esta especialização. No passado recente
a situação era negra, dado o desinteresse das empresas portuguesas
pelo mercado chinês, japonês ou do Sudeste Asiático.
Há novas promessas de mudanças e tem sido acentuado a subida
das trocas comerciais com a China como podendo reflectir uma inflexão
na queda das relações comerciais bilaterais. Estamos, contudo,
no princípio, no domínio das intenções e das
declarações proclamatórias.
E os fracassos e desilusões do passado aconselham a que vamos devagar
e com cautela.
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