Ralf Dahrendorf, o sociólogo alemão naturalizado inglês, definiu o primeiro mundo, como uma combinação feliz de três características positivas. Um conjunto de economias que asseguram uma vida boa para um largo número de pessoas; um leque de sociedades que encorajam o individualismo e a competição sem destruir as pequenas comunidades de pessoas; sociedades que têm políticas que conectam o primado da lei com os princípios da democracia.
Os habitantes da Europa Ocidental e da América do Norte usufruíram em grande parte do século XX - em contraste com o segundo mundo socialista e as nações subdesenvolvidas do terceiro mundo - da igualdade de oportunidades bem como de um sistema social onde a sociedade civil se exprimia e desenvolvia relações de cooperação. A todas as pessoas, sem excepção, eram garantidas importantes liberdades políticas, as quais haviam sido o resultado de lutas políticas de décadas e de duas guerras mundiais. É bom sempre recordar que uma das causas principais das duas guerras mundiais foi a revolta perante uma desigualdade sistemática entre indivíduos e sociedades.
Contudo este modelo, que possibilitou a própria ideia de uma Europa unida continha as suas imperfeições. Excluía largas populações do resto do mundo das possibilidades e oportunidades que oferecia às suas populações. Os países que se localizavam para além do círculo de sociedades industriais e que se mostravam incapazes de participar no sistema internacional de trocas ficaram condenados a ficar para trás. A situação começou a modificar-se apenas quando a globalização dos mercados de capitais e a expansão da revolução da informação começaram a diluir fronteiras e minar vantagens económicas de partida.
Há várias explicações possíveis para esta aceleração e mundialização da economia internacional. De certa forma, o fim da guerra fria veio mostrar a inviabilidade da alternativa socialista ao modelo capitalista da economia de mercado; por outro lado, a expansão da actividade das multinacionais favoreceu a ligação das economias locais à gestão empresarial globalizada; por outro lado, a relativização do papel quase exclusivo dos Estados-Nação na vida internacional abriu campo para a acção das organizações internacionais, em árias da reserva dos primeiros; finalmente, a emergência das economias asiáticas veio possibilitar um maior reequilíbrio das dinâmicas de crescimento regional.
Estas explicações revelam como a economia internacional desaguou num oceano de desenvolvimento que não tem qualquer paralelo na história da humanidade, malgrado algumas comparações mais apressadas e ignorantes. As fronteiras perderam não só a sua importância tradicional perante o livre movimento dos capitais, mas também perante a livre circulação das mercadorias e dos serviços. Toda esta dinâmica que o mundo tem usufruído, no seu conjunto, com alguns países e regiões aproveitando melhor que outros, coloca uma interrogação decisiva: estamos numa encruzilhada histórica do liberalismo contemporâneo como modelo universal de desenvolvimento ou existem riscos e circunstâncias que o podem fazer perigar?
Para as sociedades menos desenvolvidas que sistematicamente ficavam para trás a globalização oferecia, pelo menos teoricamente, uma oportunidade para que os privilégios do mundo desenvolvido se lhes fossem estendidos. Era lógico esperar que as zonas mais desfavorecidas do planeta agarrassem a oportunidade e buscassem caminhos para inverter o seu subdesenvolvimento. Mas a internacionalização das economias complementada por outros fenómenos como o envelhecimento das populações na metade desenvolvida do planeta, a explosão demográfica na metade mais pobre, o crime organizado e transfronteiriço, vários tipos de fundamentalismo religioso, as mudanças climáticas, vieram desnudar uma particularidade concreta do modelo do primeiro mundo. Tinha-se tornado vulnerável e incapaz de se esconder das consequências da globalização.
O modelo que havia conseguido combinar prosperidade, estabilidade social e liberdades políticas amplas tinha-se tornado uma promessa menos confiável para o futuro. Os governos mostravam-se menos capazes de manter as promessas que faziam quando eleitos; as populações afectadas pelas consequências da globalização ou receosas de poderem via a ser atingidas deixaram-se tomar por um sentimento de estarem sob ameaça permanente.
Esta situação tornou-se uma surpresa para todos: cidadãos, governos, elites, meios de comunicação social, cientistas sociais. Sob o chapéu do Estado-Providência vários modelos de segurança social na velhice e doença, marcados pelas experiências históricas, pela natureza das sociedades e pela forma como estas encaravam o papel do mercado fizeram o seu caminho e fundaram a convicção que era possível conservar a prosperidade para sempre.
Ninguém estava preparado para a vulnerabilidade do primeiro mundo e ainda menos as populações da Europa Ocidental que subitamente foram postas perante a situação de aceitar consideráveis restrições à sua segurança, prosperidade e liberdades políticas. As consequências previsíveis destes ajustamentos ao modelo - redução das coberturas sociais, acréscimo de diferenças sociais e eventualmente a limitação das liberdades políticas - tornou sombrio o seu futuro.
Reside neste medo larvar a explicação para o voto de censura dos europeus, em eleições parlamentares na Europa, e para os protestos inorgânicos que também um pouco por todo o lado se fazem sentir contra as mudanças económicas e sociais introduzidas pelos governos.
O medo que "as coisas fiquem pior" tornou-se o novo quadro de referência do conceito <crise> nas sociedades ocidentais. Trata-se de um conceito que nada tem de novo. Se olharmos para a história do século XX, a crise de Outubro de 1929 na Bolsa de Nova Iorque provocou uma situação social catastrófica que mostrou às gerações que a viveram quão importante era a criação de um sistema de segurança social fiável.
Nas eleições alemãs e polacas de Outubro de 2005, os partidos do centro-esquerda e do centro-direita que haviam sido responsáveis pela construção da economia de mercado no pós-guerra, foram fortemente penalizados porque não haviam sido capazes de controlar o agravamento do desemprego [9,3% na Alemanha]. Tanto num como noutro país os eleitores decidiram não fazer um corte drástico com o estado de coisas, mas optaram por uma certa forma de estado paternalista e protector. Não se trata tanto de um <nanny-state> inspirado na experiência rooseveltiana norte-americana, mas de um estado protector que tem raízes profundas na história recente da Europa e que explica o sucesso de regimes autoritários e dirigistas no período imediamente subsquente ao fim da Primeira Guerra Mundial.
O estado paternalista não corrige as incongruências do mercado, mas cria situações que condicionam o seu funcionamento. É exemplo deste estatismo redescoberto o governo conservador da Eslovénia que vem aplicando um programa de intervencionismo na economia, mesmo em sectores fora do controlo público, o que pode indicar um fenómeno de carácter mais alargado. As eleições presidenciais na França e na Turquia de Maio deste ano irão dar-nos já alguns sinais se esta tendência irá perdurar.
Outro facto preocupante é o crescente desinteresse das populações pela política e a descrença de através do poder do voto conseguirem influir no curso das políticas. As margens de abstenção verificadas em eleições para o Parlamento Europeu em 2004 têm sido repetidas em eleições parlamentares nacionais revelando que a apatia se transformou num fenómeno mais amplo dos estados modernos.
Num livro publicado há algum tempo - "The Politics of Cultural Despair" - um autor alemão, Fritz Stern, faz uma análise curiosa do pensamento dos autores alemães na mudança para o século XX e procura demonstrar que existia uma resistência vincada na sociedade alemã às mudanças que ocorriam no mundo de então, inclusive em direcção à economia de mercado e à democracia política. Comentando este livro, Ralf Dahrendorf afirmava, recentemente, que apesar da derrota das políticas do <desespero político> a seguir à Segunda Guerra Mundial e do triunfo da economia de mercado, é possível, ainda, vencer os medos na Alemanha quanto à continuada abertura das suas fronteiras à economia global. Esperança que atribui à necessidade de redução do papel do Estado na economia, ainda significativo na Alemanha.
É decisivo resistir à simplificação populista de que a aposta europeia em aumentar a eficiência competitiva global e lutar pelos valores da democracia liberal abrirá as portas a medidas de carácter autoritário e quebrará o consenso sobre os valores do liberalismo moderno. Como declarava a deputada polaca Mojca Murko no Parlamento Europeu, a soberania das massas não pode destruir a soberania dos indivíduos. Seria terrível se isso viesse a acontecer.
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