"Nem sempre a voz do povo é a voz de Deus" *
Setembro 2004
Esther Mucznik
Vice-Presidente da comunidade israelita de Lisboa
 

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill foi aconselhado por um colega de partido a estar “com o ouvido no chão”, ou seja mais à escuta do povo. Churchill ter-lhe-á respondido que “a nação britânica teria alguma dificuldade em olhar de frente líderes apanhados nessa posição”....
Esta pequena história é relatada por Fareed Zakaria no seu livro “O Futuro da Liberdade”, editado em Portugal pela Gradiva. Nele o autor desenvolve uma interessante e documentada reflexão sobre a relação entre democracia e liberdade, nomeadamente através da tese de que nem sempre mais democracia corresponde a uma maior liberdade ou dito de outra maneira, que nem sempre “a voz do povo é a voz de Deus”. Zakaria defende que a democratização excessiva do sistema leva os políticos a procurar agradar aos eleitores a qualquer preço e a transformá-los numa simples caixa de ressonância dos seus apoiantes, vivendo no pânico obsessivo dos falsos passos que possam precipitar a sua queda. Zakaria não questiona a democracia como sistema mas a sua excessiva permeabilidade às pressões da opinião pública quer através das constantes sondagens, inquéritos e estudos de opinião, quer através da formação, pressão e influência de poderosos lobbys e grupos de interesses que condicionam cada vez mais a “classe” política.
Na realidade, não é possível hoje ignorar a crise das instituições democráticas, nomeadamente os partidos ou os parlamentos. Apesar de 62% dos países do mundo viverem sob governos constituídos através de eleições, o que significa que para grande parte do mundo a única fonte de legitimidade política é o sistema democrático, a realidade é que as suas instituições e os seus representantes perderam grande parte do seu prestígio. Os partidos políticos tornaram-se frequentemente “recipientes à espera de serem cheios com as preferências de momento do público”, os dirigentes partidários são normalmente vistos ou como oportunistas que procuram na política uma carreira bem sucedida ou na melhor das hipóteses homens de boa-vontade mas sem meios nem coragem para ir contra a corrente. A verdade é que no mundo ocidental onde a democracia atingiu o seu grau de desenvolvimento maior, é cada vez menor o número de homens e as mulheres de qualidade tentados pela política partidária. Porquê?
Tempos difíceis trazem grandes líderes, afirma Zakaria, e historicamente é verdade. Churchill ou De Gaulle não teriam sido o que foram sem a Segunda Grande Guerra. Certamente que a pacificação e o bem-estar relativo no mundo ocidental, não favorece a emergência de líderes audaciosos e de carácter. Mas não só. A realidade é que hoje a opinião pública sente que as instituições político partidárias e os homens políticos foram despojados (ou despojaram-se) do seu poder real e em consequência do seu prestígio. A democratização crescente grandemente facilitada pela difusão das tecnologias, nomeadamente a Internet, e pelo imenso alargamento do consumo, material e cultural, tem sido acompanhada pela demissão das elites e do seu papel de referência social, ético e político. Em vez disso, ajoelham-se perante “as massas” o que apenas as torna mais desprezíveis aos seus olhos.
O desencanto em relação ao sistema político expresso nas baixas percentagens de participação eleitoral e na vida partidária abre uma brecha perigosa a demagogos que tentam capitalizar a seu favor a desilusão das pessoas com a democracia. A emergência nas últimas décadas de um populismo anti-sistema nalguns países europeus, como na Áustria com Jörg Haider ou em França com Jean Marie Le Pen é revelador desse desencanto. Mas o perigo é muito maior em países onde a maioria da população vive abaixo do limiar de pobreza e onde as instituições democráticas são demasiado frágeis. A Venezuela é, neste aspecto, um exemplo gritante. Apesar de detentora de imensas reservas de petróleo, a maioria da população vive em condições miseráveis devido à má e injusta gestão económica, à corrupção e à incompetência dos políticos e instituições. Tudo isso permitiu o acesso ao poder de um homem como Hugo Chavez, militar autoritário, agora novamente e claramente confirmado em referendo, devido em parte a uma retórica populista, mas sobretudo graças à distribuição de parte dos lucros do petróleo entre as camadas mais desfavorecidas, sob a forma de programas sociais. Mas, tal como o peronismo não foi sinónimo de uma verdadeira justiça social, esta política de subsídios governamentais sem investimentos paralelos, dificilmente poderá trazer a longo prazo bem-estar e prosperidade: segundo dados da imprensa internacional, o desemprego atinge já 15% da população activa, o PIB recuou de 7% e o preço do petróleo quadriplicou. Apesar de dar voz a um genuíno movimento popular ávido de justiça, Hugo Chavez representa a tentação recorrente na América Latina da mudança não através da independência económica, do pluralismo político e da criação de instituições sólidas e democráticas, mas pela acção de um “caudilho-salvador” paternal e messiânico, capaz de fazer milagres. Normalmente essas experiências apenas servem para adiar a difícil construção de uma sociedade livre, próspera e independente. Um homem cujo lema é “um chefe, um exército, um povo” que elimina todas as formas de representação democrática, inclusivamente na própria esquerda e que assume o poder absoluto, dificilmente poderá contribuir para a emancipação daqueles a quem diz representar e defender.
Para Zakaria, a Venezuela é um exemplo típico de um país em que a democracia – entendida no sentido restrito de um poder eleito pelo povo – não é necessariamente sinónimo de mais liberdade, nem de estado de direito, mas onde mecanismos democráticos podem permitir o acesso ao poder de ditadores ou demagogos que acabam por restringir essas mesmas liberdades.
Quer isto dizer que o sistema democrático é um mau sistema? Longe disso, o livro de Fareed Zakaria é uma defesa da democracia. Mas mais do que isso, é um apelo à restauração do equilíbrio entre a democracia e a liberdade, ou seja ao reforço das “leis constitucionais e direitos, de um poder judicial independente, de partidos políticos fortes e representativos, igrejas, empresas, associações privadas e elites profissionais.” Ao reforço do mecanismo de delegação e controlo que para o autor é a forma moderna e mais legítima de exercício do poder.
Esta crónica não pretende expor exaustivamente o pensamento do autor. Destina-se apenas a propor a leitura do seu livro como forma de reflexão sobre um tema essencial nos dias que correm. Embora reconheça que a época estival não é a mais propícia a este tipo de exercício..
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* Texto publicado no jornal Público e aqui reproduzido com consentimento da autora.

 

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