Lessons from Bolivia
Setembro 2005
Emanuel Francisco Gonçalves
Licenciado em Relações Internacionais
 

Diz-se nas Relações Internacionais que o modelo estatocêntrico está ultrapassado, que há, no mundo de hoje, uma multiplicidade de figuras que ao assumirem determinado tipo de importância, tornam-se, também eles, actores do sistema.

Ao chegarem ao sistema alguns destes actores, no caso concreto as Multinacionais do Petróleo (ou da Energia), para atingirem os seus fins necessitam de aprender com a História dos Estados a agir com Diplomacia.

A Diplomacia no modelo tradicional estava reservada às entidades desse sistema, como tão bem explica Calvet de Magalhães (1) .No caso destas Multinacionais há em nossa opinião duas dimensões de intervenção diplomática: uma primeira junto das Elites e uma segunda junto das populações.

A primeira forma de relacionamento, e a que tem sido praticada por estas empresas há décadas, é a similar com a tradicional, ainda que exista em duas vertentes distintas, uma de cooperação, e uma segunda concorrencial. Na vertente de cooperação, os Actores concorrentes agem de modo a atrair quer os governantes, que as Elites, a continuarem com o modelo de concessão de exploração. Isto é, nos últimos 50 anos, temos assistido a uma progressiva diminuição da capacidade de influência das grandes empresas multinacionais de petróleo (2), em favorecimento das empresas petrolíferas estatais; para contrariar esta tendência as empresas deverão adoptar uma acção mais concreta de influência de modo a que o modelo de extracção por empresas multinacionais continue a ser conveniente. A dimensão concorrencial, anteriormente referida, assemelha-se em muito à acção tradicional dos Estados no sistema anárquico: as empresas aglomeram-se junto dos actores que controlam os recursos – os Estados – e fazem esforços, com mais ou menos músculo financeiro, para obter, junto deles, as concessões de exploração.

No entanto, este modelo de diplomacia económica parece cada vez mais insuficiente para fazer cumprir os interesses das empresas. O exemplo último desta situação aconteceu nas últimas semanas na Bolívia. Manifestações de rua na Bolívia exigiam a nacionalização da exploração das reservas de hidrocarbonetos do país – independentemente de conhecerem a real capacidade do Estado boliviano para investir cabalmente – de forma a explorar as suas reservas. Assim, cabe às Multinacionais combater a má reputação que têm (e que em muitos casos é merecida), e combater a arma de negociação directa de muitos Estados: as empresas petrolíferas estatais . O tipo de intervenção neste caso é muito mais complexo e terá forçosamente, com vista a diminuir custos, de envolver actores terceiros: através da Diplomacia Pública. Esta moderna forma de acção diplomática desenvolve-se não através dos canais tradicionais mas através da gestão da imagem, muito ligada à capacidade de atracção, logo, no caso dos Estados, ao Soft Power. A manipulação desta capacidade das Multinacionais tem de ser feita de forma mais inteligente do que aquela que tem acontecido. É preciso envolver actores terceiros: as Organizações Não Governamentais. É sabido que na maior parte dos casos as fontes de energia e os maiores consumidores não são os mesmos, e que as fontes são, muitas vezes, países onde a estabilidade é apenas uma miragem. Como tal, as petrolíferas têm de deixar de ser parte do problema e fazerem-se notar como parte da solução – fazendo uso, para tal, dos actores terceiros.

Nos países a que nos referimos o Estado não tem, ou não faz por ter, a capacidade de apagar todos os fogos sociais, havendo por isso muitas vezes uma rede de ONG´s que são capazes de atingir nichos fundamentais do problema; sendo, dessa maneira, capazes de oferecer estabilidade e desenvolvimento.

Assim, o estabelecimento de parcerias entre estas multinacionais e os agentes da solidariedade internacional directa parece ser uma quase inevitabilidade de modo a preservar o modelo de exploração em vigor, pois estas multinacionais têm de fazer um difícil jogo de equilíbrio entre agradar a Elites, muitas vezes cleptocratas e desinteressadas do bem- -estar social e a uma população que se vê com o enorme poder dos que não têm poder e, não raras vezes, nada a perder.


(1)Magalhães, José Calvet de, “A Diplomacia Pura”, Bertrand, 2ª Ed., 1995

(2) No início eram estas empresas que controlavam o preço do petróleo no mundo, as Sete Irmãs: BP, Shell, Chevron, Texaco, Gulf, Exxon e Mobil. Com a progressiva diminuiçãoda sua inffluência temos assistido ao moviomento de fusões (Cevron/Texaco/Gulf e Exxon/Mobil) e também a uma redução das quantidades de hidrocarbonetos por elas extraídas. Paralelamente, as empresas dos Estados assumem um crescente papel no mercado internacional, casos da Arábia Saudita, Irão, China, Nigéria (ainda que aqui em parceria com estrangeiros), Brasil (com a Petrobrás na vanguarda da exploração em Off-Shore), Índia e Rússia (onde o Estado continua a deter capacidade no mercado petroífero interno).
Nos países que adoptam este modelo, a exploração de petróleo é um vector crucial da sua Estratégia nacional, num modelo centralizado, não como os EUA, G.B. ou França fazem.