A intervenção musculada do presidente russo, Vladmir Putin no encontro internacional sobre a Segurança, fez lembrar “J’accuse”, o polémico artigo do escritor francês e homem de esquerda, Émile Zola. Porém, a grande questão é saber quem é hoje o Dreyfus que Putin se propôs a defender.
Na sua alocução de dia 10 de Fevereiro em Munique, o presidente russo acusou os Estados Unidos de serem um dos principais factores de instabilidade no mundo, por causa da sua política belicista. Putin disse, aos participantes e ao mundo em geral, que as leis internacionais já não dão segurança, pois todo o mundo anda desconfiado de todo o mundo, o que de certa forma, “legitima” a corrida aos armamentos. À imagem de Jacques Chirac que há dias num erro escandaloso, dizia que o mundo tem que estar preparado para lidar com um Irão nuclear, Putin vem implicitamente também dizer que todo o mundo está autorizado à corrido a nuclearização para se defender dos Estados Unidos.
Numa altura em que a maré-alta da insegurança e instabilidade mundial se abeira a afogar-nos, é normal que todos se preocupem em ser não só excelentes nadadores, como também bons marinheiros. Putin, com o seu ataque cerrado contra os EUA, está a tentar criar uma nova onda de solidariedade e coligação em matérias da nuclearização. Numa clara tentativa de responsabilizar os Estados Unidos pela instabilidade que a corrida à nuclearização está a provocar no nosso planeta, Putin peca ao incorrer no erro da auto- referência. Se é verdade que ao longo do discurso nunca se referiu à Rússia como um Estado pacífico, não é menos verdade que ao acusar os EUA de praticar uma política belicista, está implicitamente a colocar o seu país no núcleo restrito daqueles que não usam a força como fazem os Estados Unidos.
A reacção de Putin reflecte sobretudo o incómodo e a impotência russa em relação à instalação dos mísseis americanos em alguns dos países que foram o seu bastião na época em que a URSS regia o leste europeu com as leis de ferro. Putin tinha portanto que dizer qualquer coisa enfurecedora para mostrar ao mundo, que apesar da derrota tecnológica que os Estados Unidos estão a impor à Rússia, mesmo assim, ela ainda tem a força psicológica suficiente para contribuir com o envenenamento do sentimento anti-americano no mundo e nada mais. Perder a primazia da parceria na área da tecnologia militar com a República Checa e a Polónia em favor dos Estados Unidos, não podia deixar de ser uma grande humilhação para a Rússia do século XXI.
Assim, a Rússia, tendo perdido praticamente uma boa parte de Europa de Leste, é normal que se envolva mais no Médio Oriente, onde aliás, os americanos parecem estar a perder o protagonismo devido o lamaçal iraquiano. A intervenção de Putin em Munique não é ingénua, uma vez que utilizou um discurso, talvez o melhor que alguns líderes e os extremistas do Médio Oriente poderiam esperar dele. O presidente russo pode por isso gabar-se de ter conseguido uma pequena vitória aos olhos da rua árabe sobre os Estados Unidos, basta olharmos pela recepção que teve na Arábia Saudita.
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