A importância do Patriarcado Greco-Ortodoxo no Médio Oriente
Outubro 2005
Filipe Stilwell d’Avillez
Licenciado em Relações Internacionais
 

O conflito que opõe Israel a quase todos os seus vizinhos árabes, no médio oriente, é hoje um dos mais complexos e de difícil resolução na cena internacional.
Sendo um conflito militar, político, étnico e social, é impossível ignorar a sua dimensão religiosa, tantas vezes subestimada por observadores que não se encontram preparados para lidar com este factor nas relações internacionais.

A religião não só é importante para explicar o conflito como está precisamente na sua génese. A história do povo Judeu é uma história teocentrica e, longe de ser uma coincidência, a sua localização actual está estreitamente ligada a referências Bíblicas.
Desde o assassinato de Rabin; a ideia de uma Eretz Israel que respeite as fronteiras como determinadas nas escrituras que alimenta os colonos; o apoio incansável de uma boa parte da comunidade protestante dos EUA a Israel e, por outro lado, a união dos povos muçulmanos à volta da Palestina – tudo tem raízes religiosas.
Isto sem entrar sequer em detalhes sobre a fragmentação interna quer do judaísmo quer do islão que complicam ainda mais a convivência entre as comunidades.

Há, no entanto um outro factor, poucas vezes referido mas muito importante para poder compreender a situação no terreno. O cristianismo. De ambos os lados das fronteiras, significativas populações cristãs têm um papel importante a desempenhar no dia a dia da Terra Santa.

História do Cristianismo no Médio Oriente

A presença de Cristãos no Médio Oriente data da própria fundação do Cristianismo. Nomeadamente entre a população árabe, antecede o aparecimento do Islão por mais de seis séculos. Apesar disto, hoje os árabes cristãos são uma minoria em quase todos os seus países e frequentemente são tratados como cidadãos de segunda por regimes de influência islamista.
Do lado israelita, para além de algumas conversões, existe um grande número de emigrantes de etnia judaica que são, no entanto, Cristãos, nomeadamente oriundos da Rússia.
Historicamente, o Patriarcado de Jerusalém é o quarto da Igreja Universal, depois de Roma, Antioquia e Alexandria. Mais tarde Constantinopla, pela sua importância política, tornar-se-ia o quinto centro cristão. As invasões muçulmanas do século VII cortaram o contacto com o resto da Cristandade mas o Patriarcado de Jerusalém sobreviveu, embora por vezes com dificuldade, liderado sempre por Cristãos locais.
No século XVI, já depois do cisma de 1054 que separou o Oriente, sob a direcção espiritual de Constantinopla, do Ocidente, fiel a Roma, Jerusalém é ocupada pelo Império Otomano. Como estes já ocupavam Constantinopla, onde um status quo periclitante permitia a continuidade dos cristãos, foi decidido que se colocaria Jerusalém sob a direcção do Patriarca bizantino.
Ao longo dos tempos outras igrejas foram-se estabelecendo em Jerusalém e outras localidades importantes como, por exemplo, Belém, chegando ao ponto de hoje estarem representadas praticamente todas as confissões cristãs. No entanto, o domínio Otomano garantia a primazia da Igreja Grega.

Os Cristãos Palestinianos – Vítimas de uma causa usurpada

Ao longo das últimas décadas a palavra que melhor pode descrever a comunidade cristã da palestina, à semelhança de quase todas as outras que vivem em países árabes, é o êxodo. Os cristãos palestinianos, outrora uma importante elite financeira e intelectual, viram os seus números reduzido de cerca de 17 para apenas 2% da população.
Uma das razões para esta sangria, fruto sobretudo de emigração, é a usurpação da causa da libertação palestiniana por parte dos fundamentalistas islâmicos, chegando-se ao ponto de ambas as causas serem vistas como coincidentes.
Certamente não será assim, tendencialmente os cristãos árabes sentem a mesma raiva e rancor que os seus irmãos muçulmanos pela ocupação dos seus territórios e o sofrimento do seu povo, mas ainda assim, espantará muita gente o facto de alguns dos primeiros líderes nacionalistas da palestina, incluindo influentes fundadores de grupos armados de libertação, serem Cristãos.
Dois casos conhecidos são os de George Habash e de Nayif Hawatmeh, ambos greco-ortodoxos, sendo que o segundo nasceu na Jordânia, no seio de uma das raras tribos beduínas cristãs. Fundadores da Frente Popular para a Libertação da Palestina e da Frente Democrática para a Libertação da Palestina, respectivamente, estes homens defendiam o nacionalismo árabe e recorriam aos sequestros de aviões comerciais de companhias ocidentais ou israelitas que marcaram o início da revolta palestiniana.
A queda dos países comunistas que ambos viam como modelos de democracia a seguir pelas nações árabes criou um vazio ideológico que rapidamente foi preenchido, como se sabe, pelo fundamentalismo islâmico. É a partir dessa altura que a situação começa a piorar para os cristãos da Terra Santa. Presos entre um país ocupador pouco preocupado em defender os seus direitos (o que de qualquer forma facilmente lhes poderia valer uma sumária execução por colaboracionismo), e forças fundamentalistas islâmicas que, mais e mais, os viam como uma quinta coluna por professarem uma fé erradamente vista como ocidental, os cristãos juntam-se a outras comunidades minoritárias e perseguidas como os Curdos e os Druzos.
Mesmo em Jerusalém, onde há pouco tempo 50% da população era Cristã, hoje apenas 10% o são.

Constituição da comunidade Cristã

O mundo árabe-cristão é composto por uma mescla de diferentes confissões ao mesmo tempo rica e complicada de compreender. Dividida entre católicos e ortodoxos, com subdivisões importantes dentre de cada uma destas classes, a verdade é que frequentemente as divisões são mais reais no papel que na vida dos fiéis. É muito comum haver misturas entre as comunidades, que, especialmente ao nível do laicado, encontram pouco sentido para divisões teológicas obscuras na face de ameaças tão importantes e urgentes.
Maronitas frequentam igrejas greco-católicas no Líbano com o mesmo à vontade com que os Melkitas (católicos) usam as igrejas dos Assírios (Ortodoxos) na Síria. Quanto aos cristãos palestinianos encontram-se divididos principalmente entre greco-católicos e greco-ortodoxos, inicialmente com predominância para estes, uma tendência que se tem vindo a inverter ao longo dos últimos anos por razões que adiante se tornarão claras.

O Factor Grego

No mundo Cristão o prefixo “greco” é usado para descrever Igrejas que sigam o rito bizantino, oriundo, como o nome indica, da antiga Bizâncio, mais tarde Constantinopla, antes de ser finalmente baptizada Istambul, já muito depois de ter deixado de ser a capital do império romano do oriente, caindo às mãos dos Otomanos no século XV.
Ainda hoje, o Patriarca Ecuménico de Constantinopla é considerado o líder espiritual de toda a comunidade Ortodoxa Bizantina (por oposição aos comparativamente pouco numerosos ortodoxos cujo centro de influência é em Alexandria ou Antioquia) que inclui a gigantesca Igreja Ortodoxa Russa, praticamente toda a restante Europa de Leste e ainda importantes comunidades no Médio Oriente.
Também na Igreja Católica, as muitas igrejas Greco-Católicas são aquelas que seguem os ritos bizantinos mas que se encontram em comunhão com o Bispo de Roma, reconhecendo a primazia do ministério Petrino.
Em Jerusalém, porém, centro do cristianismo do Médio Oriente, a palavra Greco, quando seguida de Ortodoxo, ganha um sentido muito mais actual. Desde que os Otomanos invadiram a Palestina, trazendo consigo clérigos cristãos zelosamente anti-católicos que colocaram no lugar da mais moderada hierarquia local, que o patriarcado ortodoxo é encabeçado por um Grego.
Trata-se de uma situação muito peculiar e um tanto bizarra, em que centenas de millhares de fiéis etnicamente árabes se viram subitamente sob a influência de uma hierarquia totalmente estranha, que fala uma língua que não é a deles, e movida por interesses que frequentemente se vieram a provar não ser os da comunidade cristã local.
Apesar disso, mesmo nas últimas décadas tem havido uma recusa determinada em alterar essa realidade. A Fraternidade do Santo Sepulcro, que elege o Patriarca, é composta exclusivamente por gregos, negando categoricamente a entrada a qualquer árabe.
Esta é uma das principais razões pelas quais muitos dos palestinianos Greco-Ortodoxos procuraram uma nova casa na igreja Greco-Católica chefiada por árabes e por isso vista como uma instituição local e não estrangeira.

A forma zelosa como a Irmandade do Santo Sepulcro mantém um controlo sobre a Igreja Ortodoxa de Jerusalém tem explicações espirituais e materiais. Do ponto de vista espiritual, são herdeiros de uma longa tradição de salvaguarda dos locais sagrados da Terra Santa que estão em mãos ortodoxas. Tradicionalmente os membros da ordem viam com grande desconfiança os cristãos locais, julgando-os incapazes de manter fielmente estes santuários tão sagrados e importantes para a cristandade.
Do ponto de vista material, a enorme riqueza do patriarcado de Jerusalém não é nenhum segredo, embora continue a surpreender muita gente.
As correntes intermináveis de peregrinos que todos os anos acorrem a Jerusalém, especialmente por altura da Páscoa Ortodoxa, vindos maioritariamente da Grécia, do Chipre e da Rússia, traduz-se em largas quantias de dinheiro. Este raramente é reinvestido na comunidade, servindo quase exclusivamente a instituição do Patriarcado e da Irmandade.
O Patriarcado Ortodoxo de Jerusalém é, inclusive, o maior detentor de terreno em toda Jerusalém. Uma grande quantidade de edifícios públicos, entre os quais o Knesset (parlamento) Israelita encontra-se em terrenos pertencentes à Igreja.
Estes factos, e o de, historicamente, comandar a fidelidade de uma parcela importante da população, fazem do Patriarcado de Jerusalém uma peça fundamental na vida social e política da zona.
Os Otomanos, compreendendo isso e aproveitando-se da tradição bizantina de césaro-papismo, que sempre garantiu uma ligação muito estreita entre o poder secular e o religioso, estabeleceu que um patriarca apenas poderia ser eleito com o consentimento das autoridades políticas, garantindo assim a estabilidade que os turcos tanto desejavam e a segurança e continuidade sempre frágil, procurada pelos Cristãos.

A reorganização geo-política do médio oriente ameaçou seriamente o status quo, que apenas ficou resolvido quando se chegou a um acordo segundo o qual Israel, a Autoridade Palestiniana e a Jordânia, considerados os herdeiros dos Otomanos, assumiram esse poder de veto o que se traduz no caso único de um Patriarca precisar da aprovação de três estados diferentes para poder assumir o seu cargo, obrigando a um grande esforço diplomático cada vez que ocorre uma eleição, mas também abrindo uma porta a insinuações e por vezes actos concretos de corrupção para adiantar a causa de um ou de outro pretendente ao trono patriarcal.

Irenios o controverso

Com todas estas condicionantes, parecia uma questão de tempo até que a tinta estalasse abalando a frágil mas poderosa instituição. Essa realidade começou a ganhar forma há quatro anos quando Irenios I foi eleito em Setembro de 2001.
Os boatos começaram de imediato, embora apenas mais recentemente tenham chamado a atenção do grande público. Segundo alguns, Apostolos Vavilis, um alegado traficante de droga com ligações influentes na Igreja Ortodoxa da Grécia, teria sido enviado para Jerusalém para se certificar de que a eleição de Irenios decorresse da melhor forma, chegando a fazer circular fotografias falsificadas de outros candidatos em situações incriminatórias, de natureza sexual.
Depois assistiu-se a um pequeno golpe de teatro com Israel a boicotar inicialmente a eleição, alegando que Irenios era demasiado pró-palestiniano, o que não veio a impedir a entronização.
Ao longo dos anos que se seguiram a personalidade tempestuosa, e as posições fanaticamente anti-ecuménicas do novo hierarca causaram sérios problemas numa região que depende de acordos frágeis entre diversas confissões cristãs. A Igreja do Santo Sepulcro, por exemplo, encontra-se dividida a regra e esquadro, com diferentes sectores reservados a cristãos de diferentes origens que discutem com frequência e chegam por vezes ao conflito físico. Foi neste tenso ambiente que surgiu Irenios, com uma falta de tacto inigualável que culminou com um ataque físico a um grupo de Franciscanos, que representam a Igreja Católica num dos santuários mais sagrados para os cristãos. O motivo: a recusa por parte destes de fechar uma porta aquando da passagem de uma procissão ortodoxa.
Enquanto Irenios se preocupava em desmontar aquilo que anos de convivência e diálogo ecuménico tinham alcançado, o seu próprio rebanho continuava a mostrar sinais de descontentamento e de cansaço perante a continuada atitude de desprezo que sentiam da parte das autoridades de nacionalidade grega.

O ponto de clivagem chegou através das páginas do diário israelita Maariv. Uma notícia explosiva que colocou em polvorosa árabes e israelitas, cristãos e muçulmanos.
Durante décadas, grupos sionistas têm feito os possíveis por comprar terrenos e edifícios nos territórios ocupados de Jerusalém, hoje maioritariamente árabes, de forma a fortalecer a posição judia quando finalmente se tiver que discutir a divisão da cidade entre os dois estados. Quando o Maariv noticiou, com o título incendiário “Praça Omar é Nossa”, que o Patriarcado tinha cedido território seu a grupos Judeus na zona Oriental da cidade, incluindo o importante Imperial Hotel, utilizada frequentemente como sede não oficial da OLP, a confusão demorou pouco tempo a instalar-se.
Fiéis em fúria exigiram explicações; o Patriarca, que nunca negou o negócio afirmou que este tinha sido feito à sua revelia por Nicolaos Papadimas um homem de confiança do próprio Irenios a quem teria sido dado poder de procuração.
Papadimas, que rapidamente desapareceu de cena e é procurado pela Interpol, negou, dizendo que tudo tinha sido feito de acordo com ordens expressas do seu empregador.

Seguiu-se o caos. Numa reunião de emergência (e, segundo alguns peritos em direito canónico, ilegal), o sínodo de Jerusalém despediu Irenios. Este recusou a autoridade do sínodo e manteve-se barricado na sede do Patriarcado. Autoridades eclesiásticas de outras comunhões ortodoxas hesitaram em meter-se ao barulho, desejando respeitar a autonomia da igreja autocéfala, mas eventualmente Bartolomeu, Patriarca Ecuménico de Constantinopla, viu-se forçado a convocar um tribunal eclesiástico, composto por representantes das 14 Igrejas Ortodoxas autónomas, que oficialmente libertou Irenios do seu posto, reduzindo-o ao estatuto de mero monge e abrindo o caminho à escolha de um novo patriarca.
Quanto aos países envolvidos, a Autoridade Palestiniana não perdeu tempo em pedir a cabeça do clérigo e a Jordânia tornou claro que apoiava totalmente a decisão do sínodo que tinha deposto Irenios.
Apenas Israel se manteve mais distante. O estado judeu encontrava-se na posição incómoda de não poder criticar um homem que estava a ser condenado, efectivamente por vender território a Judeus, nem de o poder defender para não parecer uma parte envolvida no negócio (algo que ainda não está esclarecido, mas pode muito bem ser verdade). Enquanto isto, soldados israelitas mantinham o palácio patriarcal encerrado e guardavam-no para impedir que ambas as partes envolvidas se apoderassem dele.
Abandonado por todos menos uma mão cheia de apoiantes, a teimosia de Irenios, cujo nome, ironicamente, significa Paz, espantava tudo e todos. Quer acreditasse ou não na sua própria inocência, esperava-se, no mínimo, uma saída digna de um homem que tinha conseguido, em apenas 4 anos, transformar num pesadelo uma situação já por si de complicado equilíbrio.

Amigo de Deus promete restaurar tranquilidade

Eleito em Agosto de 2005, a difícil tarefa de restabelecer a ordem, apaziguar os ânimos exaltados dos próprios fiéis e de dois estados árabes, e ainda, se possível, recuperar os territórios perdidos, sem ofender o terceiro estado judeu, cabe agora a Theofilos, que já foi reconhecido pela AP e pela Jordânia, mas não por Israel. Um porta-voz da Igreja Ortodoxa já desvalorizou, no entanto, essa questão, afirmando que a opinião de Israel pouco importa para o caso. A própria constituição canónica parece indicar o contrário, mas eventos recentes demonstraram que esta é, no mínimo, flexível em casos de necessidade.
No meio de tudo, Israel encontra-se num difícil paradoxo. A história confere-lhe o direito, e a situação política a vontade, de ter uma palavra a dizer sobre os destinos do patriarcado, tal como fazem os seus dois vizinhos. Porém, para Israel o caso não é tão linear. Tendo em vista que o estado faz questão de se descrever como uma democracia (a única na zona) no verdadeiro sentido do termo, ao estilo ocidental, e isto apesar do seu caracter explicitamente judeu, fica-lhe mal a reputação de se imiscuir nos assuntos de uma igreja, especialmente uma igreja cristã.
Não podendo fazê-lo publicamente, para não perder a face, é natural que se assista a uma série de manobras de bastidor. A perda de influência perante os vizinhos que agem descomplexadamente é, no entanto, inevitável.

Mais preocupante, do ponto de vista israelita, é a influência que estados terceiros poderão ter sobre o seu território, e isso saltou à vista durante esta mais recente crise, quando o governo grego procurou mediar o conflito, levando o estado israelita a condenar qualquer envolvimento numa questão que afecta, e de que maneira, a sua estabilidade interna e fronteiriça.

Conclusão

Até quando, é a questão que é preciso pôr no meio de tudo isto. Até quando a prática arcaica e potencialmente explosiva, de obrigar três estados que dificilmente se conseguem entender no quer que seja, a aprovar o líder de uma Igreja que representa minorias em cada uma das suas populações? Até quando estará o Patriarcado de Jerusalém exclusivamente nas mãos de bispos étnicamente gregos, que aparentemente não zelam pelos interesses dos seus fiéis? Durante quanto tempo conseguirá o Patriarcado cristão aguentar-se na corda bamba entre estados em permanente pé de guerra, um judeu, e outro árabe com uma crescente influência islamista e anti-cristã, que já forçou a maioria dos cristãos árabes a abandonar o país?

O tempo o dirá, mas se há algo que a história nos ensina é que a Igreja Bizantina se tornou, ao longo da sua conturbada história, perita em sobreviver nas mais estranhas e hostis situações; o custo, esse, é que varia.