A
presença ou não da participação do estado
na economia se arrasta há mais de dois séculos, desde os
tempos em que os economistas franceses fisiocratas seguidos dos seus colegas
ingleses, particularmente Adam Smith e David Ricardo, enalteceram os empreendedores
privados e condenaram o intervencionismo estatal, aplicado pelas monarquias
mercantilistas européias. Eles foram os fundadores de uma doutrina
econômica que se chamou mais tarde de “capitalismo laissez-faire”,
ou liberalismo econômico, que via no Estado um estorvo ao bem andar
das coisas econômicas. Entretanto, ao contrario dos primeiros, outros
economistas afirmam que é preciso recorrer-se a medidas extra-mercado
para promover a prosperidade, tais como estabelecer incentivos fiscais,
aprovar medidas protecionistas a determinados setores considerados estratégicos
e até apoiar monopólios estatais, que são unanimemente
condenados pelos defensores do laissez-faire.
Em geral pode-se dizer que
os liberais reclamam da intervenção estatal quando esta
é favorável aos trabalhadores ou aos consumidores, mas recorrem
ao Estado, pedindo proteção, quando se sentem ameaçados
por outros competidores mais fortes.
Pertencente ao ordenamento
econômico mundial e sendo um ativo participante do comércio
internacional desde os tempos coloniais, o Brasil não ficou de
fora deste debate sobre a presença do Estado na atividade econômica,
seja como elemento regulador seja como empreendedor. De uma maneira bem
sintética podemos dizer que o Brasil, desde a Independência
até a crise mundial de 1929/30, alinhou-se entre os seguidores
da doutrina econômica liberal. Acreditava-se que o país obrigava-se
a uma posição fixa no cenário internacional, uma
região fornecedora de produtos agrícolas e minerais a serem
exportados.
Dada sua vastidão territorial
e sua tradição, o Brasil encontrava-se “vocacionado
para a agricultura”, abandonando qualquer veleidade de acelerar
um processo de industrialização além daquelas consideradas
básicas para amparar a produção agro-exportadora.
Durante quase toda a década
de 1930, o Brasil se viu as voltas com os problemas causados pela Grande
Depressão que atingiram violentamente a valorização
do café e demais preços agrícolas. Num clima internacional
crescentemente belicoso e de insegurança nas relações
internacionais, começou a pensar-se com mais insistência
na possibilidade de iniciar um processo de industrialização
que o fizesse ficar menos fragilizado pela desordem mundial. A idéia
era a autonomia nacional ser alcançada em setores considerados
estratégicos como aço, minas e energia e, finalmente, petróleo.
Foi então adotada com sucesso a política de substituição
das exportações.
O papel empreendedor foi totalmente
assumido pelo Estado. Em parte isto se deveu ao desprestígio em
que se encontrava o liberalismo de então que muitos consideravam
como o maior responsável pela Grande Depressão.
Os economistas nacionalistas
do pós-guerra, identificados como estruturalistas, eram os representantes
ideológicos do que se chamava na época de “burguesia
nacional”. Eram favoráveis a que o Estado e não o
mercado determinasse onde seriam feitos os principais investimentos e
quais setores deveriam ser privilegiados com isenções ou
insumos. Advogavam ainda o estímulo ao mercado interno e uma política
de reforma agrária para promover sua ampliação.
A principal divergência
que os estruturalistas tiveram com outros setores desenvolvimentistas
e liberais monetaristas dava-se no tocante a importância que depositavam
no planejamento econômico. Impressionados pelo sucesso da URSS,
vitoriosa contra o nazismo, seduziram-se em aplicar algumas das suas soluções.
Planificação significava controle estatal o que nem os desenvolvimentistas
moderados nem os liberais podiam aceitar. Estes também previam
que o estado planificador terminaria por assumir um papel empresarial
cada vez maior alijando os interesses privados e adulterando a seu favor
as práticas do mercado.
Em 1964, inaugura-se no Brasil
um sistema diferente de todos os anteriores. O regime militar apoia-se
num tripé composto pelas empresas nacionais privadas, as corporações
multinacionais e as empresas estatais. Contava com forte simpatia do sistema
financeiro internacional que permitiu ao regime fazer enormes investimentos
em infra-estrutura (hidroelétricas, energia atômica, ponte
Rio-Niterói, Transamazônica). Os liberais, tendo seus direitos
à propriedade garantidos, silenciaram perante o intervencionismo
e o crescimento das empresas do Estado. Mais de 400 delas foram criadas.
O fim do regime militar que
adotou sistemática intervenção e controle sobre a
economia, somado ao colapso do comunismo soviético em 1989, acelerou
a adoção pela elite política e empresarial brasileira
dos princípios do neoliberalismo. Com a vitória dos Estados
Unidos na Guerra Fria e o desastre econômico da URSS, as políticas
de planificação ficaram desacreditadas, inclusive as apoiadas
pela social-democracia européia. Além disso, nos anos 80,
políticas neoliberais de rejeição às regulamentações
estatais e aos tributos, foram adotadas nos EUA e Grã-Bretanha
pelos governos de Ronald Reagan e de Margareth Tatcher, estimulando, dado
seu impacto, que o mesmo fosse adotado pelo resto do mundo. Os desenvolvimentistas
autoritários, a serviço dos militares, deram lugar a uma
série de jovens tecnocratas seduzidos, ainda que com cautela, pelo
neoliberalismo de Milton Friedman, o principal teórico da Escola
Monetarista de Chicago.
Seu argumento básico
é de que a estatização correspondeu a um período
da história econômica do país e devia ser superado
por uma outra política que implicasse na privatização
acelerada do setor estatizado. Segundo eles não era possível
evitar-se o enorme déficit orçamentário e, conseqüentemente,
fonte permanente de tensão inflacionária, mantendo-se ou
sustentando-se um pesado setor estatizado.
A privatização
foi a solução adotada não só em função
de aliviar o déficit público como também um sinal
para o mercado internacional do desejo do país de globalizar-se,
isto é, retirar os bloqueios que impediam o livre fluxo dos capitais,
fossem os de investimento direto ou os especulativos.
Abandonou-se também
a maioria das políticas de controle dos preços e salários,
deixando que eles flutuassem ao sabor do mercado. A emissão de
moeda tem sido evitada pelo constante afluxo de aportes de capital especulativo
vindo do exterior, pelo saldo da balança comercial e os investimentos
na produção que foram regulamentados. A idéia final
é consagrar no Brasil uma sociedade de consumo o mais próxima
possível do modelo norte-americano, num mundo que marcha para a
total globalização.
Mas o Brasil deve apoiar-se
em seu próprio povo organizado, em cooperação interna
e externa, investindo nele mesmo, em sua riqueza e potencialidades, livrando-se
das forçadas dependências contrárias ao seu crescimento
econômico e social, desenvolvendo e participando do diagrama emancipatório
dos países emergentes, em cooperação recíproca,
de acordo com os princípios e normas do direito internacional positivo.
Faz pouco mais de 200 anos
que Emmanuel Kant, o grande filósofo alemão, publicou seu
opúsculo sobre a paz perpétua. Suas idéias eram revolucionárias
numa época em que as nações viviam em constante conflito.
Kant argumentava que se os países se transformassem em repúblicas
e estabelecessem uma maior interdependência comercial e econômica
sobre direitos internacionais sólidos, resultariam que os conflitos
militares e o derramamento de sangue ocorreriam menos e fariam cada vez
menos sentido.
Esta é a verdadeira
vocação da nação brasileira: paz, comércio,
desenvolvimento e soberania.
Referências
Bibliográficas:
BAER, Werner. A Industrialização
e o Desenvolvimento Econômico do Brasil - Editora Fundação
Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1977.
BUENO, Celso W. Desenvolvimento
e Convergência. Consenso. São Paulo, 1998, 3a ed.
FURTADO, Celso. Formação
econômica do Brasil - Cia. Editora nacional São Paulo, 1976,
14ª ed.
SANDRONI, Paulo (org.) Dicionário
de Economia e Administração. São Paulo:
Nova Cultural, 1996.
SINGER, Paul. Desenvolvimento
e Crise. Difel, São Paulo, 1968. |