Fragmentos da China: um olhar atento sobre as possibilidades do Brasil
De Pequim
Fevereiro 2005
Fernanda Ramone
Bacharel em Relações Internacionais, actualmente cumprindo funções na China
Pesquisadora da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China
Fernanda_ramone@yahoo.com.br
 

A experiência de viver na China há quase 12 meses é única, fascinante, complexa demais para ser descrita em todos os seus aspectos de uma só vez.
Nesse artigo, vou me limitar ao relato das principais dúvidas do empresariado brasileiro diante dessa China ainda desconhecida por muitos.

O ano de 2004 foi marcado por eventos e acontecimentos importantes para a consolidação da presença brasileira na China. A saber, me refiro à abertura do escritório da Varig aqui em Beijing, com a presença do Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. A visita do presidente Lula acompanhado da numerosa delegação de empresários. Em seguida, a comemoração dos 30 anos de estabelecimento diplomático sino-brasileiro. A realização da Expo Brasil-China. A visita com o propósito de estreitar o intercâmbio cultural, do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, fora as inúmeras delegações governamentais ou empresariais. A última que recepcionei foi a delegação liderada pelo governador Marconi Perillo e empresários de Goiás.

Consolidar a imagem do país exige esforços e seriedade.
Considerar que uma única visita à China renderá frutos é errônea, assim como a idéia de que a população chinesa, atuais 1.300 bilhão habitantes, corresponda ao número do mercado consumidor.
Em pesquisa divulgada este mês pela Federação Nacional de Estudantes junto com o Organismo de Supervisão do Mercado mostra o poder de consumo dos jovens universitários e o comportamento conservador da maioria dos chefes de família que consideram importante poupar para o futuro.

A visita ao país é fundamental para apresentação do produto, da empresa e quem a representa. Importante também para tentar nesse (geralmente curto) período perceber as sutilezas do mercado, do público e do empresário chinês. É importante estar atento a todos esses aspectos.
A percepção e adaptação (se for o caso) do produto para adequar-se as expectativas do consumidor, por exemplo, o paladar do chinês diferente do nosso é bastante sensível ao açúcar.
A questão da apresentação do produto, da embalagem, também faz muita diferença.

Outro ponto importantíssimo refere-se à tradução. A escolha do tradutor é por vezes uma questão que acaba não sendo priorizada pelo visitante, por considerar ou confiar que o interlocutor chinês fale inglês, por vezes falam, todavia detalhes importantes e sutilezas se perdem ou não são captados, tornando a reunião mal sucedida.

O Brasil, apresenta condições de ampliar o leque de opções a serem oferecidas ao mercado chinês, reverter essa fórmula ultrapassada de ser apenas celeiro, o fornecedor de matéria-prima, da velha concepção de ser o país do futebol, do samba e do café ( que aliás por aqui, já não o é, o mercado chinês de café está muito bem representado por marcas italianas, costa riquenhas, colombianas entre outras) e criar identidade aos produtos, reforçar a imagem “Made in Brazil”.

Aproveitar a desburocratização no processo de concessão de visto aos chineses, assinado em virtude da visita presidencial ao país, e mostrar todo o nosso potencial turístico. Atrelar ao desenvolvimento do setor turístico tantos outros setores como o cultural, gastronômico de moda..., estruturar em diversas células, concatenando e compondo o todo.

A atual conjuntura política do país em suas iniciativas mais atuantes, a moeda estabilizada, e a superação do comportamento passivo de país periférico são ingredientes favoráveis para se lançar não só no mercado chinês, mas ao mundo.
Brasil, mostra a sua cara!

Despedir-se do ano velho e fazer de 2005 um novo ano em relação à participação brasileira na China. O ano novo por aqui ainda nem começou ( os chineses a celebrarão no dia 08 de fevereiro), atitudes empreendedoras são sempre bem vindas. Desejo realmente um feliz novo ano ao Brasil!