Para além deste enquadramento geral, o que verdadeiramente
realça a natureza radical do cosmopolitismo-liberal é a
sua atenção a processos multilaterais de decisão.
Para subjugar a lógica de poder e força para a periferia,
o que os cosmopolitas-liberais propõem é essencialmente
mais atenção ao próprio processo de deliberação
do que ao seu resultado substantivo. Ou melhor, os princípios substantivos
desta visão devem ser aplicados a como se decide e não a
o que se decide. É interessante notar de que para o cosmopolitismo-liberal
o que verdadeiramente interessa é a legitimidade de uma decisão,
e para uma decisão ser legítima, o que importa não
é tanto o seu resultado substantivo, mas as normas e regras que
determinam a sua formulação. Neste sentido, os cosmopolitas-liberais
propõem uma democratização radical de processos decisórios
em instituições multilaterais, para que cada decisão
tomada possa ser entendida como uma decisão verdadeiramente legítima.
Em termos práticos, o cosmopolitismo-liberal implica uma reforma
global das instituições mundiais no sentido de garantir
o princípio “um Estado, um voto” e desse modo achatar
ou igualizar os diferenciais de poder e força para que sejam possíveis
processos decisórios multilaterais democráticos e representativos
das diversas vozes mundiais.
Esta visão de governação global tem
nos últimos tempos, especialmente em resposta ao radicalismo introduzido
por Bush, ganho cada vez mais consistência nos partidos socialistas
europeus e até em algumas facções mais centristas
de alguns partidos de direita. É interessante notar que, pré-Bush,
esta visão cosmopolita liberal situava-se nas extremidades dos
partidos socialistas europeus, e era visto, na era de Clinton, como uma
posição dogmática da “antiga” esquerda
“tradicional.” Nessa altura, vivíamos a Terceira Via,
ou o que em política externa os democratas americanos chamaram
de Third Way Internationalism, e que era definido precisamente como um
meio termo entre uma visão cosmopolita-liberal e o conservadorismo
realista tradicional. Em termos básicos, o que Clinton propôs
foi um uso de “força humano,” ou a aplicação
da força aliada a uma doutrina humanitária. A visão
desta Terceira Via contrastava com o cosmopolitismo-liberal no sentido
de não aderir ao objectivo base de atenuar o jogo de força
e poder através de uma reforma global das instituições
mundiais, mas de certa maneira compensava este “lapso” ao
prometer um uso da força na propagação de valores
cosmopolita-liberais. Em relação aos conservadores, Clinton
usava a força que tanta confiança eles depositam, mas ao
contrário deles, abria os EUA para um entendimento lato e menos
directo dos seus interesses, definindo assim uma governação
progressiva de intuição humana que os conservadores repugnaram
por contrariar os interesses estratégicos de algumas elites económico-financeiras.
A verdade é que a Terceira Via de Clinton criou
um centro alargado, que de certa maneira ofuscava a bipolarização
política tradicional entre esquerda e direita, e radicalizava a
imagem tanto da esquerda cosmopolita-liberal como da direita nacionalista.
Ambos os partidos centristas de esquerda e direita viram-se quase na obrigação
de alinhar neste “Neue Mitte” (Novo Centro) como lhe chamou
Schröeder, o que fomentou uma era estável de consenso alargado
no eixo transatlântico. Era claro com Bush, e a deriva radical que
impôs ao partido republicano com a sua nova doutrina de “compassionate
conservatism” ou conservadorismo religioso-social, que seria impossível
suster a base que consolidou este consenso transatlântico, um facto
que começou a ficar patente bem antes do 11-09 com divergências
sobre os tratados anti-míssil (ABM). A razão é óbvia:
para existir um consenso, a Europa teria que abandonar o consenso alargado
proposto por Clinton, e radicalizar a sua posição para a
direita no sentido de acompanhar o novo ímpeto imposto por Bush.
Em teoria isto resultaria num novo consenso tanto da esquerda
e direita centrista europeia à direita do Novo Centro, o que na
prática, era um pedido impossível tanto para a esquerda
moderada como para os partidos mais esclarecidos da direita centrista
europeia. O resultado, como sabemos, deste “pedido” impossível
por parte de Bush foi um alinhamento à direita do Novo Centro da
maioria dos partidos moderados de direita europeus, e também, e
em resposta a esta realidade, uma deriva para a esquerda do Novo Centro
dos partidos moderados de esquerda. Claro que existem os “wildcards”
nesta equação que são os casos de Blair, que se suicidou
tanto em termos europeus como internos ao posicionar um partido de esquerda
à direita do Novo Centro, e de Chirac que puxou o seu partido de
direita para a esquerda do Novo Centro. Mas seja como for, este esvaziamento
do consenso ideológico que na era de Clinton fomentou a estabilidade
nas relações transatlânticas, hoje com Bush, já
não existe, o que prova a gravidade da ruptura nas relações
entre ambos os lados do Atlântico. É claro que é fácil
justificar esta re-bipolarização da política europeia
como uma resposta directa às imposições radicais
de Bush, e de sublinhar este como o vector essencial na consideração
da presente crise nas relações transatlânticas. Este
tipo de análise, a meu ver traduz uma superficialidade inadmissível
por não investigar com atenção as diferenças
cruciais em termos de política externa entre Clinton e Bush. O
que é importante aqui é saber os factores essenciais que
demarcam Bush de Clinton em relação à Europa, como
esta descontinuidade influenciou o esvaziamento político do Novo
Centro, e finalmente, a relação entre o colapso do Novo
Centro e a crise nas relações transatlânticas.
Muita tinta tem corrido recentemente sobre o último
elemento desta equação, a ruptura nas relações
transatlânticas, mas muito pouco tem sido escrito sobre o diluir
do espaço político construído por Clinton, e ainda
menos sobre a relação entre ambos. Este é um facto
surpreendente, visto que, se em termos de actualidade política,
o consenso que vivemos com Clinton torneava obviamente sobre a sua Terceira
Via, é natural que se parta desta base ao contemplar a natureza
da ruptura nas relações transatlânticas. Mas pior
de tudo, é que muito pouco tem sido escrito sobre as diferenças
entre Clinton e Bush, especialmente na sua abordagem à Europa,
e as diferenças essenciais dado por liberais e conservadores americanos
ao objectivo da construção política europeia. Se
existe razão para tal mediocridade em termos de análise,
a razão talvez resume-se ao facto da memória da maioria
dos analistas políticos hoje em dia acabar em 2001, ou 11-09 de
2001. É certo que muito mudou com o 11-09, e que esta nuvem do
terrorismo internacional influencia em muito o reenquadramento de um possível
entendimento de política internacional. Mas as presentes tendências
em termos de política externa americana já existiam antes
de 2001, e sem uma memória política um pouco mais alargada
que chegue pelo menos a Clinton, prevejo a continuidade desta superficialidade
analítica que em muito tem contribuído para a presente crise
transatlântica.
Para Clinton, ao contrário de Bush, a construção
política da Europa é visto como um interesse vital da política
externa americana. Confrontando-se com uma nova ordem mundial na era pós-1989,
Clinton percebeu que o movimento progressista americano teria que alterar
substancialmente a sua postura, e abrir-se a um entendimento diferente
dos interesses estratégicos americanos num mundo global. Essencialmente,
Clinton visiona uma nova arquitectura mundial de segurança colectiva,
aonde perfilam dois elementos fundamentais: a criação de
uma Comunidade Transatlântica alargada e a reinvenção
da NATO. Considerando que seria uma aberração propor um
modelo fechado de interesses americanos, Clinton acredita que a correlação
de forças políticas, económicas e militares faz com
que a comunidade transatlântica esteja no centro do sistema global
de política internacional, sendo por isso um dos objectivos fundamentais
americanos empenhar-se activamente na consolidação e extensão
desta comunidade para Leste até ao Pacífico – ao seja,
através do alargamento da União Europeia criar uma comunidade
aonde Vladivostok e São Francisco conjugam no mesmo puzzle.
Aliado a esta comunidade liberal visionada por Clinton
existe também a reinvenção da NATO de uma lógica
estritamente de defesa para uma orientação lata de servir
como instrumento base na propagação dos interesses da Comunidade
Transatlântica. Mais do que a simples extensão da NATO, Clinton
afirma que os EUA devem trabalhar o seu interesse nacional dentro do quadro
mais alargado da Comunidade Transatlântica, já que desse
modo servem os seus interesses ao contribuir para a consolidação
de uma plataforma coesa que estruture as relações internacionais,
e facilite um ideal de reciprocidade e mutualismo entre povos transatlânticos.
Para tal, Clinton exigia que o custo desta nova NATO fosse disperso pelos
países transatlânticos, havendo assim um redimensionamento
das responsabilidades políticas e militares sob uma nova ética
de direitos e deveres aonde é pedido que os europeus invistam mais
na modernização das suas capacidades militares.
Não parece existir muitas dúvidas que esta
visão de uma Comunidade Transatlântica assente numa nova
NATO agradava os europeus, tanto que conciliava a esquerda e direita moderada
europeia no espaço político do Novo Centro. Mesmo assim,
havia, tanto da direita nacionalista como da esquerda cosmopolita-liberal
algum mal-estar com este projecto, visto que se por um lado a direita
assustava-se com o que Clinton chamava de um “futuro partilhado
e comum” assente numa visão liberal que subjugava a nação
e visões particulares do bem para uma posição secundária,
certas facções mais radicais dos partidos moderados de esquerda
achavam por outro lado que era mais importante introduzir o princípio
igualitário de um Estado, um voto na reforma de instituições
mundiais como a ONU, e desse modo propagar uma visão cosmopolita-liberal
que esta Comunidade Transatlântica ofuscava. Seja como for, durante
a governação de Clinton, estes dois extremos foram em termos
práticos empurrados para fora do mainstream político, e
existiu neste período algo que se parecia com a construção
de uma Comunidade Transatlântica.
É óbvio que hoje sabemos que isto tudo mudou
com a eleição de Bush em 2000. O que era fundamental para
Clinton, ou seja, a construção política da Europa
e a criação de uma Comunidade Transatlântica suportada
por uma nova NATO, tornou-se uma visão irrelevante aos olhos do
seu sucessor. Para Bush, e esta é uma orientação
adoptada bem antes do 11-09, o projecto de construção político
da Europa não faz parte dos pressupostos orientadores da política
externa americana. Este é, sem dúvida, a grande novidade
em termos de política internacional, visto que é a primeira
vez desde o pós-guerra que os americanos radicalizam deste modo
as suas relações com a Europa. Até 1989, e apesar
de diferenças pontuais que justificaram mini-crises nas relações
transatlânticas (diferenças de posições entre
franceses e americanos sobre o Vietname, por exemplo), o projecto de unificação
europeu era para os EUA um eixo fundamental da sua política externa
na luta ideológica contra o comunismo. Pós-1989, e após
dois ou três anos algo indefinidos com a administração
de Bush Sr., aonde academicamente era tópico preferido especular
sobre a nova ordem mundial que iria emergir, surgiu Clinton com uma visão
robusta e sólida de estabilização política
advogando a inclusão dos países de Leste numa União
Europeia alargada. É só com Bush que a Europa sente-se pela
primeira vez desde que abraçou o seu projecto de unificação
fora do baralho americano.
E é a partir desta realidade, que infelizmente
tem passado ao lado de muitas análises, que devemos considerar
o reposicionamento da esquerda e direita moderada europeia para fora do
Novo Centro. Em relação ao fenómeno paralelo, o colapso
das relações transatlânticas, digamos que é
absolutamente lógico que consideremos esta ruptura como algo de
grave e sério visto que para os americanos, de momento, o projecto
de unificação europeu não é tido como um vector
essencial de orientação em termos de política externa.
Ao radicalizar a sua posição em relação à
Europa, e adoptar uma política bem à direita do Novo Centro,
os americanos forçam os partidos políticos moderados europeus
a escolher entre o alinhamento ou a exclusão/confronto. Não
tendo a visão transatlântica de Clinton, Bush, pelo contrário,
prefere definir os contornos do “dentro/fora” e demonstra
a pouca importância que tem o projecto de unificação
europeu para os americanos. Isto tem o efeito de fazer com que os partidos
de direita europeus entrem nos eixos de Bush, enquanto os partidos de
esquerda, ao se sentirem excluídos, radicalizem a sua posição
para a esquerda na procura de antídotos para embaraçar o
poder hegemónico americano.
A fórmula adoptada dos excluídos, e natural
numa situação em que a Europa não tem força
militar para atenuar a posição de Bush, foi a de questionar
a legitimidade ética da posição americana através
de um enquadramento cosmopolita-liberal que advoga a centralidade de processos
multilaterais de decisão. Se existe algo que não custa dinheiro
e que pode enfraquecer a posição americana, são posições
éticas de esquerda com o potencial de desgastar a imagem americana,
e esta foi e é, a estratégia de confronto adoptada pela
esquerda moderada europeia em resposta a uma administração
americana radical que pôs a própria Europa de lado. É
claro que a esta posição de esquerda também se juntaram
Chirac e Putin, sendo por isso óbvio que mais importante do que
a ideologia cosmopolita-liberal, é o objectivo de encontrar armas
políticas para atacar os americanos. E a única arma disponível
neste momento para os europeus é mesmo questionar a legitimidade
ética da acção unilateralista americana através
da adopção de alguns pressupostos elementares do cosmopolitismo-liberal.
Não é preciso muito para saber que esta
posição cosmopolita-liberal da esquerda moderada europeia
funciona somente ao nível das aparências. Primeiro, se esta
posição fosse mesmo séria, teríamos, ao invés
de meramente advogar a centralidade de processo multilaterais de decisão
para denegrir a legitimidade do unilateralismo americano, que ver também
propostas sólidas no sentido de uma reforma global da ONU assente
em pontos como por exemplo, a inclusão de uma maior representatividade
democrática em processos decisórios ou a reforma da lógica
instituída de poder através de uma abolição
ou extensão a outros países do poder de veto. É claro
que, no caso de puxarmos o cosmopolitismo-liberal mais longe nos seus
fundamentos ideológicos, veríamos não só Chirac,
mas muitos partidos moderados de esquerda perfeitamente assustados com
a ideia da Índia ou Nigéria terem tanta representatividade
como o Reino Unido ou a França.
Outro ponto, que desmistifica esta adopção
dos pressupostos cosmopolitas-liberais resulta de uma consideração
mais cuidadosa da própria história transatlântica
desde 1992. Com Clinton, e o seu Novo Centro, a verdade é que tanto
a esquerda como a direita moderada europeia entendiam que a legitimidade
de uma acção internacional seria cedida pelo próprio
consenso da Comunidade Transatlântica e não pela ONU. Vimos
claramente na guerra contra a Sérvia em 1999, que para a maioria
dos partidos de esquerda moderada europeus o processo multilateral de
decisão cedido pela ONU era em termos práticos irrelevante,
sendo mais importante existir um consenso entre a comunidade transatlântica.
Aliás, se alguém ainda hoje tem algumas dúvidas sobre
os objectivos humanitários dessa guerra, e o envolvimento americano,
digamos que tudo fica mais claro se considerarmos a importância
da Comunidade Transatlântica para Clinton. Os Balcãs fazem
parte desta Comunidade, e era vital na altura dar consistência a
esta visão através de uma guerra que sublinhasse de uma
vez a seriedade do projecto e das intenções americanas.
Para os europeus, nesta altura, legitimo era o que era acordado entre
parceiros da Comunidade Transatlântica, sendo a ONU e a visão
cosmopolita-liberal que eleva esta instituição na sua missão
civilizadora assunto para back-benchers.
Estas duas lógicas de legitimidade, uma cosmopolita-liberal
que advoga a centralidade da ONU, e outra do Novo Centro que mantém
o consenso transatlântico à frente qualquer multilateralismo
mundial, formam dois aspectos centrais de análise. É claro
que em relação a Bush, e sem a base transatlântica,
vemos os excluídos europeus flutuarem para uma noção
de legitimidade cosmopolita, o que radicaliza e fractura gravemente não
só as relações transatlânticas mas também
a relação entre a direita e esquerda europeia. Isto porque,
os alinhados, ao abraçarem a ideia de legitimidade internacional
de Bush, que se resume a uma lógica de força para impor
a vontade unilateralista americana, inviabilizam qualquer plataforma de
consenso europeu sobre as relações transatlânticas.
Esta é uma situação complexa, e grave, que resulta
precisamente da novidade do objectivo da construção política
da Europa, com Bush, estar fora do baralho Americano. E o pior é
que sublinha uma verdade: sem uma relação transatlântica
forte, aonde exista alguma complementaridade entre a Europa e os EUA em
relação ao mundo, voltamos à era de rupturas e nacionalismos
internos que põe em risco a construção política
da Europa.
Até Bush, o projecto político da Europa,
por fazer parte dos objectivos essenciais da política externa americana,
estava de certa maneira protegida pelo simples facto de existir um consenso
entre liberais e conservadores americanos sobre a importância da
própria política externa americana não radicalizar
as posições internas europeias ao ponto de as dividir numa
nova era de nacionalismos. Os americanos, para além de precisar
do sucesso da Europa ocidental para rivalizar a Europa de leste na luta
ideológica até 1989, tinham consciência que era importante
para estabilidade mundial existir uma Europa unida. Mas para tal, a Europa
dependia de dois factores: primeiro, e em termos internos, a adopção
de uma ideologia cosmopolita-liberal que rejeitasse os princípios
de Westphalia do balanço de poderes e impusesse o principio de
um Estado, um voto; e segundo, em termos externos, que os EUA conseguissem
criar um eixo transatlântico que unisse os europeus numa trajectória
internacional e desse modo potenciasse as condições ideais
para a estabilização interna da visão cosmopolita-liberal
fundadora da União Europeia.
É óbvio que, durante a Guerra Fria, este
consenso europeu e transatlântico em relação a uma
trajectória internacional era automático, visto que a luta
contra o comunismo unia tanto a esquerda como a direita moderada europeia.
Se até 1989, a luta ideológica ofuscava a centralidade da
relação entre o consenso transatlântico e a sua importância
para sustentabilidade da visão cosmopolita-liberal de integração
europeia, o que podemos dizer é que, pós-1989, foi Clinton,
com a sua visão de uma Comunidade Transatlântica, que consegui
encontrar o projecto que unisse tanto a esquerda como a direita moderada
europeia numa trajectória de consenso internacional. Clinton sabia
que era fundamental para a estabilidade do mundo que existisse uma Europa
unida, tinha a consciência que essa unificação dependia
da supremacia de uma visão cosmopolita-liberal dentro da Europa,
e mais, entendia que a viabilidade dessa visão só existiria
se a Europa centrista estivesse unida para o exterior na sua ideia do
mundo. O Novo Centro de Clinton cumpria todos estes requisitos.
É claro que com Bush toda esta pirâmide se
inverte. A Europa e o consenso transatlântico, ao serem marginalizados
para segundo plano, criam uma situação aonde a Europa perde
uma visão de consenso sobre o mundo, o que resulta num desgaste
gradual da visão cosmopolita-liberal no seio da Europa. Podemos
verificar esta realidade preocupante nas ideias de Giscard d’Estaing
sobre a Constituição Europeia, já que visam na sua
essência centrar o poder no eixo franco-alemão, e desse modo
denegrir o princípio fundamental de um Estado, um voto. Os americanos,
com Bush, parecem não estar interessados nesta situação,
o que consolida a tese de que pela primeira vez desde 1945 existe uma
ruptura no consenso entre conservadores e liberais americanos sobre a
importância para os EUA da construção política
da Europa. Esta divergência interna nos EUA é o que está
na base da crise transatlântica, e é a partir desta realidade
que podemos também explicar a re-bipolarização da
política europeia, os problemas que infligem sobre o projecto político
da Europa e a falta de estabilidade mundial.
O que é essencial e o que os europeus devem ter
em mente ao responderem a esta situação, é que sem
o cosmopolitismo-liberal interno da Europa, o projecto político
da Europa não subsistirá, e sem um consenso entre esquerda
e direita centrista sobre o papel da União no mundo, essa visão
cosmopolita-liberal interna perderá o alicerce que a sustém.
O que é importante neste momento para a Europa é a convergência
entre partidos centristas sobre o papel da União no mundo, pois
é este o consenso que Bush veio bifurcar com o seu radicalismo.
É lógico que será difícil chegar a este consenso,
pois se hoje o centrismo europeu está à margem do Novo Centro,
também é verdade que este consenso é impensável
tanto à esquerda como à direita do Novo Centro. Tanto um
enquadramento cosmopolita como nacionalista são incompatíveis
no diálogo sobre o papel da União no mundo, e as razões
são óbvias: para os nacionalistas, pensar como um cosmopolita
é verdadeiramente contrário aos interesses de Estado, enquanto
para um cosmopolita, o pensar como um nacionalista é esquecer o
universalismo normativo que vem antes do Estado. Existe a necessidade
de redescobrir a visão de uma Comunidade Transatlântica de
Clinton que se situa entre estes dois extremos, e que pode, como já
o fez, unir o centrismo europeu num consenso sobre o papel da União
no mundo.