| Fantasmas de um tempo finito * |
| Junho 2005 |
Arnaldo
Gonçalves |
Consultor.
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais
pela Universidade Católica Portuguesa |
Actualmente
assessor jurídico na administração da Região
Administrativa Especial de Macau. |
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Não comungo dos aplausos dos que por esquecimento, simplismo ou pura hipocrisia olham para os homens políticos e aquando do seu desaparecimento físico os recobrem dos maiores encómios e elogios, independentemente do balanço que há que fazer às suas acções. Como se o momento da morte removesse todas as culpas, isentasse todos os comportamentos ou permitisse, num ápice, acertar as contas com a história e com os seus concidadãos. Acho este costume da nossa vida pública reprovável, um acto de menoridade cívica e de desrespeito perante as dezenas de figuras que contribuindo, significativamente, aos mais diversos níveis para o que somos hoje como Povo desaparecem no esquecimento, sem qualquer referência nos jornais ou nota nos telejornais. Considero-o sintoma de um provincianismo serôdio que se nos agarra à pele e infelizmente não nos larga. Esta semana desapareceram duas personalidades que marcaram a nossa vida política. Falo em Álvaro Cunhal e Vasco Gonçalves, respectivamente, secretário-geral do Partido Comunista Português e ex-primeiro ministro de Portugal. Os dois estão ligados à história do Portugal Contemporâneo pelo papel que tiveram no período de resistência ao fascismo ou na transição para a democracia. O primeiro ajudou a criar as condições para o derrube da ditadura e foi figura cimeira da resistência a Salazar e a Caetano com que pagou com a prisão e o exílio. Chamado a participar na construção do Portugal Democrática o seu trajecto político revelaria, todavia, as contradições de quem tendo combatido a tirania de um pendor escolheu a tirania de sentido contrário e só não a implantou, no nosso país, porque as condições lhe saíram adversas. O segundo imaginou substituir o modelo liberal europeu por um populismo autoritário de inspiração castrista, fazendo da aclamação das massas nas ruas, das ocupações selvagens, das expropriações, dos comités da revolução, das milícias, os instrumentos de construção de um "socialismo" popular de que se via caudillo. Combati ambos sem descanso ao longo dos anos 74 e 75, nas manifestações de rua, nas assembleias, mais tarde no Verão quente de 75, nas barricadas de rua. Era um tempo de opções difíceis e o país tremia e hesitava entre os partidários do general Spínola e da Maioria Silenciosa que engrossavam à medida do aumento do descontentamento em largas camadas da população com as ocupações selvagens, as nacionalizações, a tomada do poder pelos comunistas do aparelho de Estado e dos sindicatos e os radicais da 5a Divisão, dos SUV, do COPCON que na sequência do 11 de Março preparavam o assalto ao poder para instalarem um regime estalinista em Portugal e eliminarem os moderados do MFA e os que resistissem a tais planos. Não é por demais repetir que o país esteve então a um fio de cabelo da guerra civil. Só o bom senso do General Costa Gomes e dos moderados do MFA permitiu esquentar as cabeças quentes e evitar o irreparável, e só nos sete dias que se seguiram à demissão de Otelo Saraiva de Carvalho do comando da Região Militar de Lisboa permitiriam repor a revolução dos cravos no seu curso primitivo. Lembro a união e mobilização das forças democráticas, os militantes anónimos do PS, do PSD, do MRPP, nesses dias decisivos para que os planos totalitários não fossem adiante e de estarmos preparados para tudo, inclusive a morrer com as armas na mão. Lembro a coragem e o sentido de destino de Ramalho Eanes. Lembro o recuo táctico de Cunhal deixando o campo da sedição entregue aos radicais da UDP e a outros grupúsculos que controlava. Os tais dos inefáveis Louçã, Fazenda e Rosas que escondem hoje as garras sob o manto diáfano de uma esquerda "pastilha elástica" só aparentemente cordata. O 25 de Novembro não foi para mim e para os que rejubilavam perante um futuro democrático para Portugal um retrocesso, uma derrota, uma contra-revolução. Foi o canto de cisne de um aventureirismo irresponsável, de um radicalismo que agoirava, de um dogmatismo que se aprestava, com base em listas de nomes organizadas pelo Partido Comunista, a mandar os moderados [e os que discordavam desses planos] para o Campo Pequeno e depois eliminá-los fisicamente pura e simplesmente. Nestes planos, Cunhal e Vasco Gonçalves foram o verso e o reverso, o fautor e o instrumento, o polícia mau e o polícia bom. Não creio que se possa, nesta ocasião, diminuir responsabilidades ou isentá-los de culpas. Respeitosamente reconhecer a sua marca na história recente e nada mais. Em nome dos que se levantaram [e caíram] para que os seus hediondos propósitos não fossem adiante. Deus te guarde Alexandrino de Sousa. |
| * Texto publicado in Tribuna de Macau de 17 de Junho de 2005, e aqui reproduzido com consentimento do autor. |