"Esse Passado que Não Passa" *
Janeiro 2005
Esther Mucznik
Vice-Presidente da comunidade israelita de Lisboa
 

Pouco antes de se suicidar a 11 de Abril de 1987, Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz e testemunha incansável do Holocausto, confessava que já não tinha muito gosto em ir às escolas falar da sua experiência porque sentia que a sua linguagem se tornara insuficiente, que falava uma língua diferente. E dizia isto a propósito da seguinte reacção de dois alunos de uma escola: "Por que vem você, mais uma vez, contar-nos a sua história, quarenta anos depois, depois do Vietname, depois dos campos de Estaline, da Coreia, depois de tudo isso... Porquê?" Conta Primo Levi que face a esta pergunta ficou "de boca aberta, encurralado na minha condição de sobrevivente" com grande dificuldade de responder e com a sensação de "ser um sobrevivente de uma outra época, um antigo combatente, um velhote ultrapassado, em suma...".

Primo Levi exprime aqui, com a simplicidade e o rigor que sempre caracterizaram os seus escritos e depoimentos, a imensa dificuldade da transmissão da memória e, neste caso, da memória do Holocausto.

Aproxima-se o dia 27 de Janeiro, dia em que se assinala os 60 anos da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho. Foi, com efeito, a 27 de Janeiro de 1945 que o exército soviético descobre, um pouco por acaso, o principal campo de extermínio nazi e o mais mortífero: perto de 1 milhão e meio de mortos. Nesse dia, apenas restam no campo sete mil prisioneiros, doentes ou moribundos, entregues a si próprios. Atónitos, os soldados russos encontrarão igualmente construções inéditas na história da humanidade e cuja função lhes será explicada pelos próprios sobreviventes: gigantescos complexos constituídos por vastas câmaras de gás, associadas a corredores de fornos crematórios. Mais longe, nos abarracamentos, pilhas imensas de óculos, próteses, sapatos e sete toneladas de cabelos que os alemães não tinham tido tempo de expedir para "reciclagem" na Alemanha. Pelas suas dimensões, pelo número de mortos, pela sofisticação da tecnologia utilizada, Auschwitz, apesar de ser apenas um entre os seis campos de extermínio, tornou-se o símbolo da mais sofisticada máquina de morte da história humana concebida para o extermínio em massa.

No próximo dia 27 de Janeiro, entretanto institucionalizado Dia da Memória em numerosos países ocidentais, evocar-se-á a Shoah (Catástrofe em hebraico): chefes de Estado, ministros e outras entidades oficiais farão declarações sonantes, os sobreviventes (os poucos que ainda restam) falarão do seu sofrimento, todos jurarão "Nunca mais!". Em Auschwitz, mesmo, terá lugar uma cerimónia evocativa com a presença dos mais altos representantes oficiais de inúmeros países, incluindo o próprio Vaticano. Todas estas comemorações são, em minha opinião, importantes porque representam o assumir da memória individual das vítimas pela consciência colectiva. Representam também o consenso geral da civilização humana, quer do ponto de vista histórico quer do ponto de vista ético, sobre o Holocausto. É devido a esse consenso que se tornaram mais difíceis as tentativas de falsificação, branqueamento ou revisão do Holocausto. É também devido a esse consenso que o nazismo, que produziu o Holocausto, é o paradigma do mal absoluto. E isto é fundamental.

Mas esta institucionalização não resolve o problema decisivo da transmissão da memória como factor formativo, ou seja, como factor de transformação dos indivíduos. Por uma simples razão: é que a memória, embora se refira ao passado, é sempre vivida no presente e por isso inevitavelmente instrumentalizada.

Basta analisar os caminhos que tomou a memória do Holocausto nos sessenta anos percorridos desde então para nos apercebermos claramente disso.

Hoje Auschwitz é o símbolo do genocídio dos judeus da Europa. Mas nem sempre foi assim. Durante décadas, a especificidade judaica da esmagadora maioria das vítimas foi negada, em primeiro lugar pelo discurso nacional (polaco) e católico e mais tarde, durante a guerra fria, pela ideologia comunista em nome da resistência ao fascismo e da solidariedade de todos os deportados. Do lado de lá da cortina de ferro estava-se mais interessado em celebrar a resistência heróica dos povos do mundo contra o nazismo e não havia lugar para os judeus, vítimas "inúteis". Esta confiscação da memória do genocídio judaico está bem patente nas palavras que se podiam ler até há bem pouco tempo em Auschwitz, no monumento internacional dedicado às vítimas: "Quatro milhões de pessoas sofreram e morreram às mãos dos assassinos nazis, entre 1940 e 1945." Nem uma palavra sobre a identidade judaica de 90 por cento das vítimas. Durante dezenas de anos, esta negação do judeocídio foi uma das constantes da abordagem estalinista, na realidade muito pouco contrariada pelo mundo ocidental, nada interessado na preservação de uma memória incómoda para todos.

Em 1961, o julgamento de Eichmann, o "Nuremberga do povo judeu", nas palavras de Ben-Gurion, marca o início de uma viragem neste processo. Recorrendo pela primeira vez na história ao testemunho colectivo das vítimas (111 testemunhas deporão no tribunal), o julgamento liberta a palavra dos sobreviventes e funciona como o grande revelador do extermínio judaico. Mas só nos finais dos anos oitenta, princípios da década de noventa, com a multiplicação dos trabalhos de historiadores e dos testemunhos sobre o genocídio, Auschwitz começa a surgir como o espaço emblemático da Solução Final dos judeus da Europa.

Ao mesmo tempo, com a agudização do conflito israelo-palestiniano, surge uma nova forma de instrumentalização da memória do Holocausto através da identificação do sionismo ao nazismo, da "nazificação" de Israel e da vitimização do povo palestiniano. Não é preciso ir muito longe, o nosso Nobel, José Saramago, é um dos mais activos arautos dessa instrumentalização da memória. Hoje a revisão da história tem como objectivo negar o estatuto de vítimas do Holocausto aos judeus, para melhor os poder acusar de carrascos do povo palestiniano.

Voltando à questão inicial: como transmitir a memória do Holocausto? Em França, como se sabe, o discurso negacionista é proibido por lei e no espaço europeu está em estudo a proibição de símbolos nazis, nomeadamente depois do episódio do príncipe britânico que se mascarou de SS. Louvo a boa vontade das autoridades, mas não me parece que isso seja a solução dos problemas. Na realidade não basta proibir, nem reprimir. Os tabus podem-se revelar úteis, mas não resolvem as questões de fundo.
Um exemplo interessante dos dilemas da construção da memória é-nos dado actualmente a propósito da polémica gerada por ocasião da estreia do filme alemão "Der Untergang" (A Queda), que retrata magistralmente os últimos momentos de Hitler e da sua corte nazi. O filme, que já tive a oportunidade de ver, é acusado de mostrar o lado humano de Hitler e o sofrimento do povo alemão, quando na realidade é um excelente documento sobre a essência cruel, fanática, racista e demente do nazismo, que devia ser visto por todos, em particular pelos jovens. Assim, em nome de uma memória virtuosa do Holocausto, acaba-se muitas vezes por esvaziá-la.

Então o que fazer? Em minha opinião, o caminho não está numa atitude censória das boas consciências que normalmente é acompanhada de uma indulgência ética e cultural verdadeiramente paradoxal. Na realidade só vejo um caminho: o conhecimento e a educação: a procura da verdade histórica, o estudo sério e rigoroso e não panegírico, a par da educação permanente nos valores universais da civilização humana, na distinção clara do bem e do mal. O inverso da repetição contrita de "slogans"...

 

* Artigo publicado no jornal Público de 21 de Janeiro de 2005, e aqui reproduzido com consentimento da autora.