Pouco
antes de se suicidar a 11 de Abril de 1987, Primo Levi, sobrevivente de
Auschwitz e testemunha incansável do Holocausto, confessava que
já não tinha muito gosto em ir às escolas falar da
sua experiência porque sentia que a sua linguagem se tornara insuficiente,
que falava uma língua diferente. E dizia isto a propósito
da seguinte reacção de dois alunos de uma escola: "Por
que vem você, mais uma vez, contar-nos a sua história, quarenta
anos depois, depois do Vietname, depois dos campos de Estaline, da Coreia,
depois de tudo isso... Porquê?" Conta Primo Levi que face a
esta pergunta ficou "de boca aberta, encurralado na minha condição
de sobrevivente" com grande dificuldade de responder e com a sensação
de "ser um sobrevivente de uma outra época, um antigo combatente,
um velhote ultrapassado, em suma...".
Primo
Levi exprime aqui, com a simplicidade e o rigor que sempre caracterizaram
os seus escritos e depoimentos, a imensa dificuldade da transmissão
da memória e, neste caso, da memória do Holocausto.
Aproxima-se
o dia 27 de Janeiro, dia em que se assinala os 60 anos da libertação
de Auschwitz pelo Exército Vermelho. Foi, com efeito, a 27 de Janeiro
de 1945 que o exército soviético descobre, um pouco por
acaso, o principal campo de extermínio nazi e o mais mortífero:
perto de 1 milhão e meio de mortos. Nesse dia, apenas restam no
campo sete mil prisioneiros, doentes ou moribundos, entregues a si próprios.
Atónitos, os soldados russos encontrarão igualmente construções
inéditas na história da humanidade e cuja função
lhes será explicada pelos próprios sobreviventes: gigantescos
complexos constituídos por vastas câmaras de gás,
associadas a corredores de fornos crematórios. Mais longe, nos
abarracamentos, pilhas imensas de óculos, próteses, sapatos
e sete toneladas de cabelos que os alemães não tinham tido
tempo de expedir para "reciclagem" na Alemanha. Pelas suas dimensões,
pelo número de mortos, pela sofisticação da tecnologia
utilizada, Auschwitz, apesar de ser apenas um entre os seis campos de
extermínio, tornou-se o símbolo da mais sofisticada máquina
de morte da história humana concebida para o extermínio
em massa.
No
próximo dia 27 de Janeiro, entretanto institucionalizado Dia da
Memória em numerosos países ocidentais, evocar-se-á
a Shoah (Catástrofe em hebraico): chefes de Estado, ministros e
outras entidades oficiais farão declarações sonantes,
os sobreviventes (os poucos que ainda restam) falarão do seu sofrimento,
todos jurarão "Nunca mais!". Em Auschwitz, mesmo, terá
lugar uma cerimónia evocativa com a presença dos mais altos
representantes oficiais de inúmeros países, incluindo o
próprio Vaticano. Todas estas comemorações são,
em minha opinião, importantes porque representam o assumir da memória
individual das vítimas pela consciência colectiva. Representam
também o consenso geral da civilização humana, quer
do ponto de vista histórico quer do ponto de vista ético,
sobre o Holocausto. É devido a esse consenso que se tornaram mais
difíceis as tentativas de falsificação, branqueamento
ou revisão do Holocausto. É também devido a esse
consenso que o nazismo, que produziu o Holocausto, é o paradigma
do mal absoluto. E isto é fundamental.
Mas
esta institucionalização não resolve o problema decisivo
da transmissão da memória como factor formativo, ou seja,
como factor de transformação dos indivíduos. Por
uma simples razão: é que a memória, embora se refira
ao passado, é sempre vivida no presente e por isso inevitavelmente
instrumentalizada.
Basta
analisar os caminhos que tomou a memória do Holocausto nos sessenta
anos percorridos desde então para nos apercebermos claramente disso.
Hoje
Auschwitz é o símbolo do genocídio dos judeus da
Europa. Mas nem sempre foi assim. Durante décadas, a especificidade
judaica da esmagadora maioria das vítimas foi negada, em primeiro
lugar pelo discurso nacional (polaco) e católico e mais tarde,
durante a guerra fria, pela ideologia comunista em nome da resistência
ao fascismo e da solidariedade de todos os deportados. Do lado de lá
da cortina de ferro estava-se mais interessado em celebrar a resistência
heróica dos povos do mundo contra o nazismo e não havia
lugar para os judeus, vítimas "inúteis". Esta
confiscação da memória do genocídio judaico
está bem patente nas palavras que se podiam ler até há
bem pouco tempo em Auschwitz, no monumento internacional dedicado às
vítimas: "Quatro milhões de pessoas sofreram e morreram
às mãos dos assassinos nazis, entre 1940 e 1945." Nem
uma palavra sobre a identidade judaica de 90 por cento das vítimas.
Durante dezenas de anos, esta negação do judeocídio
foi uma das constantes da abordagem estalinista, na realidade muito pouco
contrariada pelo mundo ocidental, nada interessado na preservação
de uma memória incómoda para todos.
Em
1961, o julgamento de Eichmann, o "Nuremberga do povo judeu",
nas palavras de Ben-Gurion, marca o início de uma viragem neste
processo. Recorrendo pela primeira vez na história ao testemunho
colectivo das vítimas (111 testemunhas deporão no tribunal),
o julgamento liberta a palavra dos sobreviventes e funciona como o grande
revelador do extermínio judaico. Mas só nos finais dos anos
oitenta, princípios da década de noventa, com a multiplicação
dos trabalhos de historiadores e dos testemunhos sobre o genocídio,
Auschwitz começa a surgir como o espaço emblemático
da Solução Final dos judeus da Europa.
Ao
mesmo tempo, com a agudização do conflito israelo-palestiniano,
surge uma nova forma de instrumentalização da memória
do Holocausto através da identificação do sionismo
ao nazismo, da "nazificação" de Israel e da vitimização
do povo palestiniano. Não é preciso ir muito longe, o nosso
Nobel, José Saramago, é um dos mais activos arautos dessa
instrumentalização da memória. Hoje a revisão
da história tem como objectivo negar o estatuto de vítimas
do Holocausto aos judeus, para melhor os poder acusar de carrascos do
povo palestiniano.
Voltando
à questão inicial: como transmitir a memória do Holocausto?
Em França, como se sabe, o discurso negacionista é proibido
por lei e no espaço europeu está em estudo a proibição
de símbolos nazis, nomeadamente depois do episódio do príncipe
britânico que se mascarou de SS. Louvo a boa vontade das autoridades,
mas não me parece que isso seja a solução dos problemas.
Na realidade não basta proibir, nem reprimir. Os tabus podem-se
revelar úteis, mas não resolvem as questões de fundo.
Um exemplo interessante dos dilemas da construção da memória
é-nos dado actualmente a propósito da polémica gerada
por ocasião da estreia do filme alemão "Der Untergang"
(A Queda), que retrata magistralmente os últimos momentos de Hitler
e da sua corte nazi. O filme, que já tive a oportunidade de ver,
é acusado de mostrar o lado humano de Hitler e o sofrimento do
povo alemão, quando na realidade é um excelente documento
sobre a essência cruel, fanática, racista e demente do nazismo,
que devia ser visto por todos, em particular pelos jovens. Assim, em nome
de uma memória virtuosa do Holocausto, acaba-se muitas vezes por
esvaziá-la.
Então
o que fazer? Em minha opinião, o caminho não está
numa atitude censória das boas consciências que normalmente
é acompanhada de uma indulgência ética e cultural
verdadeiramente paradoxal. Na realidade só vejo um caminho: o conhecimento
e a educação: a procura da verdade histórica, o estudo
sério e rigoroso e não panegírico, a par da educação
permanente nos valores universais da civilização humana,
na distinção clara do bem e do mal. O inverso da repetição
contrita de "slogans"...
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Artigo publicado no jornal Público de 21 de Janeiro de 2005, e
aqui reproduzido com consentimento da autora.
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