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O Verão pela sua placidez flui associado ao lazer
e ao veraneio. É uma malha que reveste o tempo. Delongando o avanço
do relógio ao ritmo do bastante e do suportável.
Associo sempre o tempo de Verão ao calor e ao fluir das paisagens,
à candura das planícies, ao vislumbre do mar azul e tranquilo,
ao torpor das vilas e, sobretudo, às brisas e ao emaranhado dos
cheiros. E também às estradas sinuosas ou rectilíneas
que me levavam ao país-atlântico, ao país-planície
e, menos frequentemente, à montanha.
As minhas memórias de infância e mesmo de adolescência
estão intimamente ligadas a esse suspense pelo tempo de Verão,
pela antecipação das novas descobertas da paisagem rural
e costeira, quando a pressão do turismo do Norte da Europa não
se fazia sentir, ainda, em todo o seu fragor, na carestia de vida e no
boom da construção. E quando o país se descobria
aos poucos, tentativamente, quando a rede de estradas estreitas, sinuosas
e difíceis expressava bem a nossa periferia e apartamento da Europa.
O horizonte de Verão da maioria dos portugueses foi, durante décadas,
as fronteiras do país continental. Excepcionado, talvez, pela sua
extensão a leste, pela estrada tórrida, interminável,
que transportava os mais temerários à meseta ibérica,
até Madrid ou ainda mais longe até Barcelona.
A vivência de outros destinos de férias, fora da península,
só se tornaria comum nos anos 80. Mesmo assim reservada às
gerações urbanas, mais novas, mais propensas à descoberta
do desconhecido e dispostas a dispender nelas as poupanças e sacrifícios
de todo um ano. Facto a começo censurado pelas gerações
mais velhas enquanto prova de irresponsabilidade e despesismo. “Cuidar
do dia da amanhã” era o slogan que mais ouvia dizer fruto
de quatro de décadas de salazarismo e de atraso cultural.
Diferentes são os tempos hoje em que o coleccionar de novos destinos
de férias faz parte, incontornável, do ritual e do perfil
urbano, determinando o planeamento das famílias e estruturando
o nível social das pessoas. Instalou-se, imperceptivelmente, a
ideia-comum de que quem não viaja, quem não sai do país,
é paisano ou de estrato social baixo. E como tal é olhado
de soslaio pelos alinhados com os gostos dominantes e posto à margem.
À medida que o país se internacionalizou, se abriu ao mundo,
este tipo de comportamento social “aceite” passou a simbolizar
um Portugal contraditório, altivo, estrangeirado, alienado quanto
às obrigações da construção de um futuro
razoável para as suas novas gerações. Ninguém
sacrifica hoje em dia o presente em ordem a prevenir um futuro incerto
e impromissor.
É por isso que o discurso de crise cola mal ao quotidiano português.
Emoldura, seguramente, o discurso dos políticos. Fornece pretextos
para o incumprimento das promessas eleitorais pelos governos; dá
argumentos para o trabalho de contraponto que compete às oposições.
Mas lá no fundo, bem no fundo, o discurso da crise serve apenas
para preencher o silly talk dos telejornais à medida que se imbeciliza
o discurso comunicacional, alheio a pretensões de validade da argumentação
ou às exigências de um juízo moral implícito.
Ninguém ou muito pouca gente se deixa convencer que ele é
verdadeiro e que deve implicar mudanças de comportamento. É
coisa para políticos enganarem a arraia miúda. Faz seguramente
parte de um ruído intercomunicativo, que pontua as conversas, o
queixume, a maledicência, a redundância tão portuguesa.
Mas pouco mais do que isso.
Por isso acho que somos, por vezes, demasiado rigorosos connosco e com
os nossos concidadãos. Digo-o, com mea culpa. Gostamos de eleger
bodes expiatórios dos nossos falhanços, quando isso se nos
é conveniente. Pouco fazemos, contudo, para gizar e impulsionar
soluções para os bloqueios, à espera que alguém
o faça por nós e, sobretudo, não nos dê muito
trabalho.
No fundo somos uns comodistas. Gostamos de criticar quem está por
cima, invejar os que estão ao nosso lado e têm sucesso, ou
jogam nas “brancas” do sistema, sem nada fazermos para o romper
ou criar alternativas que ponham em causa o doce remanso. Mas quem é
que nos tira da nossa cadeira?
Convenço-me cada vez mais que a perdurabilidade do salazarismo
não aconteceu, por acaso. Radica nas malhas do nosso inconsciente
colectivo, perdura já vão trinta anos, na forma como nos
vemos como povo. E não deixa de ser sociologicamente muito curioso
que, sibilinamente, comece a passar a mensagem que o que o país
precisa é de um Salazar, que resolva os nossos problemas, que ponha
ordem à bandalheira e nos conduza, como um “rebanho”.
E este discurso do absurdo não é - pasme-se - exclusivo
da direita. Mesmo a esquerda embarca nele figurando um novo pai a cujo
regaço ou ombro se possa acolher.
Por isso, deixo-me invadir pelo torpor que se o país deixasse de
ter políticos, televisões, intelectuais ou estatísticas
continuaria, exactamente, a fazer e ser o mesmo. A discorrer da mesma
forma ligeirota e sem preocupações, incólume às
dívidas, aos alertas, ao sentir de urgência ou às
críticas “chatas” dos mais judiciosos. Sebastianismo
nacional? Provavelmente.
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