Espectador das sombras *
Agosto 2005
Arnaldo Gonçalves
Consultor. Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa
Actualmente assessor jurídico na administração da Região Administrativa Especial de Macau.
 

O Verão pela sua placidez flui associado ao lazer e ao veraneio. É uma malha que reveste o tempo. Delongando o avanço do relógio ao ritmo do bastante e do suportável.

Associo sempre o tempo de Verão ao calor e ao fluir das paisagens, à candura das planícies, ao vislumbre do mar azul e tranquilo, ao torpor das vilas e, sobretudo, às brisas e ao emaranhado dos cheiros. E também às estradas sinuosas ou rectilíneas que me levavam ao país-atlântico, ao país-planície e, menos frequentemente, à montanha.

As minhas memórias de infância e mesmo de adolescência estão intimamente ligadas a esse suspense pelo tempo de Verão, pela antecipação das novas descobertas da paisagem rural e costeira, quando a pressão do turismo do Norte da Europa não se fazia sentir, ainda, em todo o seu fragor, na carestia de vida e no boom da construção. E quando o país se descobria aos poucos, tentativamente, quando a rede de estradas estreitas, sinuosas e difíceis expressava bem a nossa periferia e apartamento da Europa.

O horizonte de Verão da maioria dos portugueses foi, durante décadas, as fronteiras do país continental. Excepcionado, talvez, pela sua extensão a leste, pela estrada tórrida, interminável, que transportava os mais temerários à meseta ibérica, até Madrid ou ainda mais longe até Barcelona.

A vivência de outros destinos de férias, fora da península, só se tornaria comum nos anos 80. Mesmo assim reservada às gerações urbanas, mais novas, mais propensas à descoberta do desconhecido e dispostas a dispender nelas as poupanças e sacrifícios de todo um ano. Facto a começo censurado pelas gerações mais velhas enquanto prova de irresponsabilidade e despesismo. “Cuidar do dia da amanhã” era o slogan que mais ouvia dizer fruto de quatro de décadas de salazarismo e de atraso cultural.

Diferentes são os tempos hoje em que o coleccionar de novos destinos de férias faz parte, incontornável, do ritual e do perfil urbano, determinando o planeamento das famílias e estruturando o nível social das pessoas. Instalou-se, imperceptivelmente, a ideia-comum de que quem não viaja, quem não sai do país, é paisano ou de estrato social baixo. E como tal é olhado de soslaio pelos alinhados com os gostos dominantes e posto à margem.

À medida que o país se internacionalizou, se abriu ao mundo, este tipo de comportamento social “aceite” passou a simbolizar um Portugal contraditório, altivo, estrangeirado, alienado quanto às obrigações da construção de um futuro razoável para as suas novas gerações. Ninguém sacrifica hoje em dia o presente em ordem a prevenir um futuro incerto e impromissor.

É por isso que o discurso de crise cola mal ao quotidiano português. Emoldura, seguramente, o discurso dos políticos. Fornece pretextos para o incumprimento das promessas eleitorais pelos governos; dá argumentos para o trabalho de contraponto que compete às oposições. Mas lá no fundo, bem no fundo, o discurso da crise serve apenas para preencher o silly talk dos telejornais à medida que se imbeciliza o discurso comunicacional, alheio a pretensões de validade da argumentação ou às exigências de um juízo moral implícito.

Ninguém ou muito pouca gente se deixa convencer que ele é verdadeiro e que deve implicar mudanças de comportamento. É coisa para políticos enganarem a arraia miúda. Faz seguramente parte de um ruído intercomunicativo, que pontua as conversas, o queixume, a maledicência, a redundância tão portuguesa. Mas pouco mais do que isso.

Por isso acho que somos, por vezes, demasiado rigorosos connosco e com os nossos concidadãos. Digo-o, com mea culpa. Gostamos de eleger bodes expiatórios dos nossos falhanços, quando isso se nos é conveniente. Pouco fazemos, contudo, para gizar e impulsionar soluções para os bloqueios, à espera que alguém o faça por nós e, sobretudo, não nos dê muito trabalho.
No fundo somos uns comodistas. Gostamos de criticar quem está por cima, invejar os que estão ao nosso lado e têm sucesso, ou jogam nas “brancas” do sistema, sem nada fazermos para o romper ou criar alternativas que ponham em causa o doce remanso. Mas quem é que nos tira da nossa cadeira?

Convenço-me cada vez mais que a perdurabilidade do salazarismo não aconteceu, por acaso. Radica nas malhas do nosso inconsciente colectivo, perdura já vão trinta anos, na forma como nos vemos como povo. E não deixa de ser sociologicamente muito curioso que, sibilinamente, comece a passar a mensagem que o que o país precisa é de um Salazar, que resolva os nossos problemas, que ponha ordem à bandalheira e nos conduza, como um “rebanho”.

E este discurso do absurdo não é - pasme-se - exclusivo da direita. Mesmo a esquerda embarca nele figurando um novo pai a cujo regaço ou ombro se possa acolher.

Por isso, deixo-me invadir pelo torpor que se o país deixasse de ter políticos, televisões, intelectuais ou estatísticas continuaria, exactamente, a fazer e ser o mesmo. A discorrer da mesma forma ligeirota e sem preocupações, incólume às dívidas, aos alertas, ao sentir de urgência ou às críticas “chatas” dos mais judiciosos. Sebastianismo nacional? Provavelmente.

 
* Texto publicado in Tribuna de Macau de 4 de Agosto de 2005, e aqui reproduzido com consentimento do autor.