Emfim a Democracia na América Latina
Outubro 2006
Renata D'Onofrio e Aberdo Recco
 

A América Latina vem experimentando um inédito período de estabilidade democrática com sucessivas eleições presidenciais e legislativas em todos os países, exceto em Cuba. Desde o final das ditaduras militares, a população tem participado ativamente do processo político seja para eleger seus representantes como, em nos casos da Argentina, Equador e Bolívia, destituir os governos instalados através de movimentos populares violentos ou pacíficos.

Os governantes eleitos têm assumido características neo-populistas, servindo de forma assistencialista a população pobre, que pode ajudar em seus projetos de reeleição. Essa tendência se acentuou, principalmente, no ano de 2005 com as eleições presidenciais no Chile e na Bolívia em que, no primeiro venceu uma socialista e no segundo ganhou um descendente de indígenas.

Este cenário remete ao passado latino-americano em que o mundo havia assistido ao fim da Segunda Guerra Mundial e os países da América Latina, agro-exportadores, precisavam encontrar uma nova forma de desenvolvimento já que os países da Europa estavam destruídos e os Estados Unidos se preocupavam com a restauração das áreas destruídas pela guerra. O comércio internacional também fora fortemente afetado. Desta forma, foi implantada uma alternativa a esta conjuntura que recebeu a denominação de processo de industrialização por substituição de importações, elaborado pela CEPAL-Comissão Econômica para América Latina e Caribe.

Como conseqüência, parte da população se desloca do campo para as cidades e o Estado inicia um processo de estruturação para o escoamento da produção. Porém, para que este projeto tivesse continuidade, foi necessário o estabelecimento de uma “aliança” com os empresários e as massas urbanas, pois o Estado precisava de investimento para construir a infra-estrutura dos países e de votos da população, os empresários de mercado consumidor e a massa urbana exigia empregos, educação e participação política. O populismo foi o modelo adotado para esta “aliança”.

Segundo Ludovico Incisa, “o populismo tende a permear ideologicamente os períodos de transição, particularmente na fase aguda dos processos de industrialização. É ponto de coesão e de sutura e, ao mesmo tempo, de referência e solidificação, apresentando grande capacidade de mobilização (...)”.

Este cenário ressurgiu a partir da década de 80 quando a população, desiludida com a desorganização social que se instalou com o fim das ditaduras militares, passou a buscar um salvador que a protegesse do aumento do desemprego e crescente concentração da renda que assolou o continente latino-americano com o advento da globalização. A busca incessante por produtividade no agribusiness trouxe para as periferias das cidades mais um enorme contingente de pessoas pressionando por demandas sociais.

Todavia, o populismo que vemos agora possui características diferentes daquele do pós-guerra. Conforme Boris Fausto, a burguesia internacionalizada se afastou das bases populistas e a massa urbana já não é a mesma, o que fez com que o Estado focasse sobre as massas marginalizadas, as quais ganharam mais destaque no contexto atual do que as massas de trabalhadores.

Os novos governos eleitos, apesar de sua trajetória esquerdista, têm adotado firmemente o modelo econômico neo-liberal do Consenso de Washington. O Estado vai se desfazendo das empresas estatais, quebrando monopólios, liberalizando o fluxo de capitais e adotando práticas monetaristas para a estabilização de suas economias. O populismo atual aplicado em países como o Brasil, Venezuela e Argentina, serve principalmente para dar continuidade eleitoral aos partidos no governo. Ainda é cedo para avaliar as ações dos novos governantes da Bolívia e do Chile, mas pode-se pressupor que não cometerão o erro de isolar suas economias do contexto global. Para isso devem manter ou adotar as práticas neo-liberais, principalmente com relação ao capital estrangeiro.

De toda forma, a democracia parece que veio para ficar na América Latina. Ano a ano, em sucessivas eleições, os governos transmitem a faixa presidencial aos seus sucessores, com eleições limpas e regulares, com muitos casos de alternância de partidos e ideologias. Como diz o escritor Eduardo Galeano, o sofrido povo latino-americano vai deixando para trás a cultura da impotência, a pior herança do período militar e se acostumando com a estabilidade democrática participando ativamente da vida política dos nossos países.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GALEANO, Eduardo. Veias Abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
FAUSTO, Boris. O neopopulismo na América Latina. Folha de São Paulo. 17 de fevereiro de 2003. In: www. odebatedouro.com.br. Acessado em 28/02/2006 às 17:15 h.
INCISA, Ludovico. Verbete: Populismo in BOBBIO, Norberto (org.) Dicionário de Política. Brasília: UNB, 1999

 

 

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