A Guiné Bissau terá eleições
presidenciais no próximo dia 19 de Junho, e quanto mais se aproxima
a data destas eleições aumenta o tom de voz dos prováveis
candidatos, bem como de alguns sectores da sociedade civil. As eleições
de 19 de Junho serão o culminar do período de transição
política iniciado com o Golpe de Estado de 14 de Setembro de 2003.
Desde o derrube de Kumba Yalá que a Guiné
Bissau vive um clima de tensão política alarmante, que não
contribue para a sua estabilidade política, económica e
social. Mas este clima instalou-se neste país quando o ex-Presidente
“Nino” Vieira foi também deposto por um levantamento
militar em 1998, e desde essa altura para cá a Guiné não
mais reecontrou uma verdadeira estabilidade política. As eleições
que se seguiram ao fim do conflito armado que levaram ao derrube de “Nino”,
ganhas por Kumba Yalá e o seu partido, não foram suficientes
para devolver à Guiné a estabilidade que se pretendia.
Vários factores contribuíram para este fracasso
de construção da democracia neste país de expressão
portuguesa. O forte poder e envolvimento das elites militares na política
nacional e o comportamento político do então Presidente
eleito Kumba Yalá aliado à fragilidade das instituições,
são alguns dos factores determinantes que contribuíram para
este fracasso. É verdade que não se pode exigir muito e
a curto prazo das instituições, num país em que a
democracia não é parte dos valores tradicionais da sociedade,
como acontece aliás na maioria dos países africanos aspirantes
a democracia, mas é necessário que haja vontade no seio
da sociedade guiniense e no seio dos políticos em particular para
a fortificação das suas instituições de modo
a se construir uma democracia acente em princípios aceites por
todos e dentro das especificidades do país.
Por outro lado, a Guiné Bissau não pode
pretender construir um verdadeiro Estado de Direito enquanto as elites
militares continuarem a interferir, do jeito que interferem, no poder
político. É dever dos militares neste país perceber
que fazem melhor figura e melhor contribuem para a estabilidade do país
recolhidos aos seus quartéis, e deixando a política para
os políticos, porque em democracia são estes que devem fazer
política e governar o país. Este é um dos principais
obstáculos que a Guiné Bissau enfrenta, onde há uma
renitência dos militares em se subordinarem ao poder político.
E esta insubordinação toma contornos incontroláveis
quando no seio dos próprios militares há elites que lutam
pelo poder, como aconteceu com a insubordinação de 6 de
Outubro de 2003, que ameaçou gravemente o processo de transição
política em curso.
Com o aproximar da data de realização das
eleições presidenciais, o nível de tensão
política no país tende a subir, com o risco de ser exacerbado
por forças dentro da própria sociedade guiniense que por
se considerarem excluídas do processo, podem partir para acções
que poderão perigar a realização pacífica
das eleições e consequente insucesso da transição.
É nesta perspectiva que a Comunidade Internacional tem procurado
reunir esforços de modo a garantir que a transição
termine em sucesso. O Conselho de Segurança das Nações
Unidas considerou a candidatura de Kumba Yalá “um potencial
perigo” para o sucesso da transição em curso na Guiné.
Há motivos para tanta preocupação, se recordarmos
o carácter déspota de Kumba, que durante a sua curta passagem
pelo poder passou por cima de tudo e todos violando os preceitos mais
elementares da democracia. Recorde-se que Kumba foi obrigado a assinar
o acto de renúncia na altura do seu afastamento do poder, acto
esse que lhe impede de voltar a se candidatar. No entanto, considerando
que acto de renúncia não tem qualquer validade constitucional,
a sua candidatura foi depositada no Supremo Tribunal de Justiça,
juntamente com a de “Nino” Vieira, cuja apetência pelo
poder é simplesmente impressionante, depois de já ter estado
quase vinte anos a governar o país com mãos de ferro. No
fim de contas estamos perante duas candidaturas preocupantes, e é
o próprio povo guiniense que deve olhar para o seu passado recente
e fazer uma avaliação do que pretende para o seu próprio
país. “Nino” Vieira governou o país durante
cerca de duas décadas, e neste período a Guiné Bissau
não encontrou caminhos para o progresso económico e social,
essencial para o bem estar da sua população. Kumba Yalá,
com eleições ganhas de forma convincente, não foi
capaz de ser a grande esperança dos guinienses como inicialmente
se esperava, e não foi suficientemente hábil para acomodar
os interesses das elites militares.
Estas duas candidaturas estão a dividir a sociedade
guiniense e encerram em si dois principais problemas nomeadamente, o espectro
de uma contínua instabilidade política caso um deles chegue
de novo ao poder o que colocaria em causa a conclusão com sucesso
da transição política e a construção
da democracia por um lado, e por outro reflecte uma crise de liderança
política na Guiné Bissau. É preocupante quando uma
sociedade não produz alternativas credíveis de liderança,
ou seja, quando não se oferece às massas outras possibilidades
de escolha no seu universo eleitoral. O PAIGC de “Nino” Vieira
e o PRS de Kumba Yalá registam este tipo de dificuldade, agravadas
por divergências internas que impedem a ascensão de potenciais
líderes que poderiam ser alternativas credíveis a “Nino”
e Kumba respectivamente.
Na tentativa de se fazer um acompanhamento da transição
política e a “promoção de eleições
pacíficas e credíveis”, o Secretário Geral
das Nações Unidas enviou para Bissau o ex-Presidente moçambicano
Joaquim Chissano, que tentará junto dos vários sectores
da sociedade guiniense chamar atenção para a necessidade
do sucesso da transição. Mas é importante que Chissano
leve em consideração todas as partes interessadas e envolvidas
no complicado processo guiniense, incluindo aquelas que neste momento
são consideradas um perigo para o sucesso da transição,
nomeadamente Kumba Yalá. Por outro lado, a sua missão não
pode descurar o grande poder que os militares tem na tomada de decisão,
tendo em conta que a sua acção sempre influenciou o curso
político do país.
O envio de um enviado especial a Bissau mostra como as
Nações Unidas estão preocupadas com a situação
política na Guiné Bissau a escassas semanas das eleições
presidenciais, um país que necessita urgentemente de se encontrar
e de alcançar a estabilidade política, de modo a encontrar
em paz o caminho para sair do atraso em que se encontra. E essa tarefa
depende mais dos guinienses do que da Comunidade Internacional.