Depois da seca virão as cheias *
A seca e o Alqueva estão lado a lado, quem responde perante isto? Quem explica ao Tio Joaquim de Serpa que o Alqueva e a seca coexistem?
Janeiro 2005
Carlos Cupeto
Professor da Universidade de Évora
Director da Tterra - auditoria, projecto e técnicas ambientais, lda
cupeto@uevora.pt
 

Antes de mais devemos saber que seca, tal como as cheias que se irão seguir – é natural que assim seja – são fenómenos naturais. Contrariamente ao que se possa pensar a água em Portugal à semelhança do que se passa no resto do mundo, é um bem escasso.

A pressão sobre os recursos hídricos está associada às actividades humanas que naturalmente acompanham a distribuição da população e das actividades económicas. Muitas vezes, apesar da água desde sempre ter constituído um factor de localização, os recursos disponíveis quase nunca coincidem com as zonas de consumo. Este facto conduz a custos elevados de transporte de água a que sempre estão associados insustentáveis taxas de perda.

À distribuição espacial da população, o tipo do ocupação urbana em relação à rede hidrográfica e aquíferos, estão associados os risco, situações hidrológicas extremas (secas e cheias) e episódios de poluição.

A distribuição das actividades económicas relevantes para a gestão dos recursos hídricos, quer pela quantidade de água que utilizam, quer pela qualidade de água que exigem, centram-se na agricultura de regadio, no abastecimento às populações, no turismo e na produção de energia eléctrica. Tudo isto somado traduz-se numa situação insustentável em matéria de recursos hídricos.

À parte as questões de natureza biofísica do ciclo da água, sem dúvida que a fragmentação de utilizadores e gestores é a grande responsável por muitos dos problemas de que padece a gestão e o planeamento da água. Os problemas da água não têm só a ver com a sua escassez mas também, e cada vez mais, com a sua qualidade.

Em Portugal perdeu-se a consciência do ciclo da água: a água não é mais do que qualquer coisa barata, que não valorizamos, chega-nos pela torneira e escoa-se pelo ralo. Para o cidadão comum isto é a água.

Quase sempre pensamos que a água é um bem garantido já que se regula segundo um ciclo que é encarado como se não tivesse limites. O desenvolvimento parece configurado para consumos e utilizações cada vez mais insaciáveis. Tem havido sempre forma de construir mais uma barragem ou um furo que, em tempo, resolve as necessidades imediatas. E depois? O ciclo global da água é algo mais que um mecanismo hidráulico de bombeamento e descarga, é um sistema vivo e vulnerável. E isto não é um tema só para alguns, diz respeito a todas as actividades económicas e cidadãos.

O preço, de durante décadas, do planeamento hidrológico e a gestão de recursos hídricos ter assente na satisfação imediata dos consumos é demasiado elevado. Como vamos utilizar a água? Existe a "ingénua" convicção que a moderna tecnologia pode conduzir a um uso sustentável do ciclo hidrológico só pelo facto de proporcionar água - os dados de várias organizações idóneas mostram o contrário. Na última década investiu-se, como nunca, em instrumentos de planeamento –Plano Nacional da Água, Planos de Bacia Hidrográfica e até num Plano para o Uso Sustentável da Água -, e agora? Construiu-se o maior lago artificial da Europa e agora o gado, ali ao lado, morre com sede. Disseram-nos e justificou-se o Alqueva, como reserva estratégica de luta contra a seca. Quem responde perante isto? Durante anos vendeu-se o Alqueva como a grande salvadora. Fizeram a parede e agora? O Engº Adérito Serrão andou durante anos a fio a vender o céu de Alqueva, oito dias depois da primeira grande inauguração demitiu-se porque não acreditava no projecto, teve como recompensa a presidência do Instituto de Meteorologia que agora ocupa. Que venha a Serpa explicar ao Tio Joaquim que a seca e o Alqueva coexistem.

Em Portugal mais de 80% dos consumos de água estão afectos às actividades agro-pecuárias. Grande parte desta água é desperdiçada. A água não se paga e tudo isto passa ao lado Ministério do Ambiente. Quem manda na água em Portugal? Alguém acredita que é o Ministério do Ambiente? Para que serve então o Ministério do Ambiente? Para regular?

No Algarve, em Luz-Tavira, algumas culturas morrem com excesso de água, a recarga artificial do aquífero pelos excessos de água da rega a isso leva. Querem maior evidência do desperdício criminoso e impune?

Numa altura em que é necessário racionalizar meios e recursos e sermos mais eficientes, eco-eficientes, é muito oportuno que o próximo governo encare esta matéria muito seriamente. Alguém acredita nisso?

Caixas
Causas da Básicas Escassez de Água
- Desperdício, más práticas.
- Mau ordenamento do território e do uso do solo.
- Gestão parcelar do ciclo da água.
- Desconhecimento dos sistemas aquíferos.
- Subestimação de consumos.
- Perdas de água.
· Má configuração das redes de distribuição;
· Falta de manutenção das redes de distribuição.
- Falta de regulamentação adequada.
- Não cumprimento da regulamentação.
- Falta de política apropriada.
- Incumprimento por parte do Estado dos compromissos adquiridos.
- Má gestão.
· Rega inapropriada;
· Água gratuita;
· Uso de espécies vegetais de grande consumo.
- Esgotamento de albufeiras segundo as necessidades energéticas e de rega.
- Consumo urbano.
- Necessidades de água de indústrias muito contaminantes.

Consequências Básicas da Escassez de Água
- Pobreza, despovoamento e desertificação.
- Investimentos elevados.
· Obras hidráulicas cada vez mais dispendiosas;
· Furos cada vez mais profundos;
· Unidades dessalinizadoras;
· Transvases entre bacias;
· Redes de transporte;
· Planos de contingência e protecção civil.

- Fortes perdas por má gestão.
· Redes de transporte;
· Técnicas inadequadas de regadio.

- Contaminação.

* publicação original no Diário Económico de 28 de Janeiro de 2005

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