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01 de Maio de 2004 entraram dez novos países, de uma só
vez, na União Europeia. Tratou-se de um alargamento histórico.
O muro existente entre os dois extremos do continente europeu foi finalmente
derrubado. Entre Nações outrora rivais conseguiu-se a paz,
a estabilidade, a compreensão e a cooperação.
O processo do alargamento não
fica por aqui. A Bulgária e a Roménia concluíram
as negociações de adesão, foi dada abertura às
negociações de adesão com a Croácia e a Turquia
vê finalmente ser-lhe entreaberta a porta de entrada na União.
A possibilidade de adesão da Turquia relança a questão
sobre os limites da Europa. Há quem defenda a adesão de
países como Israel e a “política de vizinhança
europeia” alcança países que vão desde a Moldávia
ao Azerbeijão, passando por Marrocos.
Em Portugal há agora
também um novo olhar sobre esta questão.
O professor Adriano Moreira
avançou recentemente com a ideia da adesão de Cabo Verde
na União Europeia.
Mário Soares, já em 1994, numa conferência em Tenerife,
nas Canárias, havia defendido a ligação de Cabo Verde
aos restantes arquipélagos do Atlântico: Açores, Madeira
e Canárias. Para Mário Soares os cabo verdeanos são
uma mistura de africanos, portugueses, judeus e muitos outros, que passaram
em todas as direcções, cruzando o Atlântico. Existe
assim uma vertente Atlântica na questão, que também
faz parte da identidade europeia. Em Setembro de 2004, durante o Simpósio
Amílcar Cabral, Mário Soares voltou ao mesmo tema, encontrando
receptividade por parte do governo cabo verdeano, que acabou por delinear
como prioridade a obtenção de parceiro especial de Bruxelas.
Adriano Moreira aprofunda a
ideia, defendendo a integração de Cabo Verde na União,
conforme o seu artigo de opinião publicado no Diário de
Notícias de 08 de Fevereiro último.
Em Março foi apresentada
na Sociedade de Geografia, em Lisboa, uma petição defendendo
a adesão do arquipélago, e, segundo o documento, “O
alargamento da União Europeia não pode ignorar a dimensão
Atlântica” onde Cabo Verde “interessa à Europa
não apenas pela valência da segurança e defesa, mas
também, e antes disso, por ser a melhor expressão das sínteses
culturais que a experiência euromundista produziu”, constituindo
“uma plataforma excepcional para a relação Euroafricana”.
A causa conta também
com o apoio do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral.
Por outro lado, já se levantam vozes contra esta ideia, como é
o caso de Germano de Almeida, um dos mais importantes escritores de Cabo
Verde.
Apesar de ainda não
se saber se a iniciativa de Adriano Moreira e de Mário Soares terá
futuro, esta poderá obter abertura por parte da Espanha e também
da França, que veria uma porta aberta para a francofonia africana
e a possibilidade de obter maior visibilidade no contexto mundial.
Adriano Moreira afirma que
“nada nos tratados europeus impede a integração de
Cabo Verde na família europeia”, o que não deixa de
ser verdade, mas, ao analisar o artigo 49º do Tratado da União
Europeia, lê-se: “Qualquer Estado europeu que respeite os
princípios enunciados no nº 1 do artigo 6º…”
(princípios da liberdade, da democracia, do respeito pelos Direitos
do Homem e pelas liberdades fundamentais, bem como do Estado de Direito),
“…pode pedir para se tornar membro da União…”,
e parte-se, portanto, do pressuposto de que se teria de tratar, de facto,
de um Estado europeu. Todos os Estados membros da União são
Estados europeus.(Penso que será até por isso que esta tem
o nome de União Europeia…)
Em relação às
Canárias, Açores e Madeira, estes pertencem à União
Europeia porque fazem parte de Estados-membros da mesma. Cabo Verde não
faz parte de nenhum Estado da União. É um país independente.
E não se insere geograficamente no continente Europeu.
Portugal tem relações
especiais com Cabo Verde. Trata-se de um país africano de expressão
portuguesa, que tem laços históricos e de sangue de cinco
séculos connosco, e que pertence à Comunidade de Países
de Língua Portuguesa (CPLP). Não há nada de errado
em apoiar um país com o qual temos tal ligação. É
talvez até nosso dever promover o crescimento económico,
o progresso e o bem-estar social do mesmo, ainda mais tendo em conta a
situação de abandono a que as autoridades portuguesas o
deixaram aquando da sua independência.
Adriano Moreira refere ainda
que o critério de adesão é a identidade cultural,
pois considera que “Cabo Verde também é Europa”,
baseado nos laços históricos que unem os cabo-verdianos
e os europeus.
Os valores europeus não
são, no entanto, os mais visíveis na identidade cultural
cabo-verdiana. Existem, de facto, esses valores, mas predominam os valores
africanos. Cabo Verde é um país africano.
Um país africano com
fortes relações comerciais com a União Europeia e
com uma história em comum com um dos seus membros, com quem mantém
relações especiais. Mas nada mais.
Portugal deve realmente ser
o intermediário principal nas relações entre a União
Europeia e os países lusófonos, mas a sugestão em
relação à adesão de Cabo Verde será,
talvez, querer ir longe de mais.
A proposta parece, à
partida, relegar o facto de Cabo Verde ser independente e não pertencer
ao continente europeu, realidades que, certamente, não se poderão
ignorar. Parece também colocar África num plano inferior,
como se esta não fosse capaz de emergir economicamente sem ser
“engolida” pela Europa. A proposta de adesão incorre
também no risco de parecer uma nova forma de colonialismo.
Seria, de facto, benéfico,
tanto para Cabo Verde como para Portugal, a adesão à União
Europeia do primeiro. Mas factos são factos, e a não ser
que se cheguem a novas conclusões sobre até onde é
que a Europa realmente vai, a geografia não permite tamanha façanha.
E primeiro que tudo há que saber se a população cabo
verdeana estaria interessada na adesão.
Esta proposta parece vinda
de um “Portugal” que anda à deriva à procura
do seu lugar no Mundo e que quer transpor para outra entidade obrigações
e deveres que ele não consegue satisfazer no seio da CPLP.
Talvez fosse mais prático
conseguir dinamizar essa comunidade, tornando-a capaz de realmente concretizar
os seus objectivos.
Deve-se também continuar
a apoiar uma parceria especial de Cabo Verde com a União. As vantagens
que daí advêm são inquestionáveis. Mais do
que isso parece demasiado.
Com tudo isto surgem no entanto
questões que me parecem importantes e sobre as quais deveria haver
reflexão:
O que faria a União Europeia se realmente Cabo Verde pedisse a
adesão?
Fecharia a porta a um país por este não pertencer ao continente
europeu?
Estaria a União preparada para um pedido destes?
Poderia alargar-se para lá do que previra?
Ou, caso fosse permitida a adesão de um país nestas circunstâncias,
deixaria de existir?
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