| Arafat: o fim de um tempo * |
| Novembro 2004 |
Arnaldo
Gonçalves |
Consultor.
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais
pela Universidade Católica Portuguesa |
Actualmente
assessor jurídico na administração da Região
Administrativa Especial de Macau. |
|
O velho dirigente da Organização de Libertação da Palestina, Yasser Arafat, agoniza num hospital de Paris e o seu desaparecimento físico marcará o fim de um tempo contraditório em esperanças e frustrações. Será necessário deixar passar algum tempo, mas a história não será seguramente benévola para Arafat. Pai do povo palestiniano, líder máximo da Al Fatah, o maior grupo dentro da OLP, Arafat foi acima de tudo um cabo-de-guerra de um movimento que se consolidou na resistência armada à ocupação israelita, mas teve grandes dificuldades em afrontar o processo de transição para a paz, calcorreando o caminho da negociação [e do compromisso] que muitos o esperariam capaz, dentro e fora do mundo árabe. Envolvido por mais de uma vez nas negociações para uma paz duradoura com Israel que viabilizasse uma pátria palestiniana, Arafat revelou-se ultimamente incapaz de fazer contas com o passado, de enterrar o machado de guerra, de deixar o caqui de senhor da guerra para usar o fato de dirigente político, como outros guerrilheiros o fizeram, antes: Nelson Mandela, Agostinho Neto, Xanana de Gusmão e outros. Transportou até ao fim aos ombros o peso da luta do povo palestiniano - ou pelo menos a sua interpretação dessa luta - usando um estilo de liderança autoritária, prepotente e mercurial que incentivou falsas fidelidades, nepotismo e corrupção entre os seus mais próximos. Revelou-se à medida que definhava incapaz de partilhar o poder ou delegar responsabilidades. Quando há quatro anos Bill Clinton lhe estendeu, numa bandeja, a possibilidade de uma paz duradoura com Israel, em Camp David, Arafat foi incapaz de ceder no praticável, de se elevar ao sentido de compromisso de um momento impar, enredando se em questões de princípio e avivando pontos de quezília e acrimónia. O seu fim agonizante, a opereta protagonizada por Suha Arafat e a delegação de dirigentes palestinianos em Paris, os boatos e desmentidos sobre a sua morte são bem o exemplo de um tempo que se julgava acabado: onde a morte física do líder intocável é escondida e escamoteada para encapotar a luta encarniçada pela liderança, no círculo restrito dos fiéis. Arafat lembrou-me Lenine, Estaline ou Mao, várias décadas passadas. O seu desaparecimento deixa tudo em aberto quanto ao futuro da Palestina e a uma entente perdurável com Israel, mas é provável que precipite a situação política em Israel e o futuro de Ariel Sharon, o autoritário e velho primeiro-ministro israelita. A morte de Arafat terá, desde logo, implicações na implementação do Plano de Sharon de retirada dos colonatos da faixa de Gaza, ocupados na sequência da guerra de 1967, tornando-o cativo dos sinais que a nova liderança palestiniana vier a dar. A questão determinante que se coloca - desaparecido, do ponto de vista dos israelitas e americanos, o principal impecilho à retoma do processo de negociações - é a capacidade de Israel de mostrar que está à altura de um compromisso histórico e duradouro. Quem poderão ser os sucessores de Arafat? Os candidatos arrumam-se em três categorias. Em primeiro lugar, os "velhos" que acompanharam Arafat durante o exílio na Jordânia, no Líbano e na Tunísia. Gente como Ahmed Qurei, o actual Primeiro-Ministro, participante nas negociações secretas que levaram aos Acordos de Oslo de 1993 e que acompanhou Arafat no regresso a Gaza em 1994; ou Mahmoud Abbas [Abu Mazen], o número dois da OLP e co-fundador da Al Fatah, apontado em 2003 primeiro-ministro por Arafat, mas resignatário ao fim de quatro meses por divergências inconciliáveis com o presidente; ou Nabil Shaath, um dos principais negociadores com Israel, actual ministro de negócios estrangeiros da Autoridade Palestiniana, tido como um moderado. Em segundo lugar, os "insiders" dirigentes mais jovens que ficaram nos territórios ocupados por Israel quando a OLP foi para o exílio, dirigindo a "intifada", o levantamento civil contra a ocupação israelita. Gente como Mohammed Dahlan, antigo chefe das forças de segurança de Gaza, pragmático, com pontes abertas com Israel e boa imagem junto dos americanos, sacrificado por Arafat por um sobrinho; ou Jibril Rajoub, também antigo chefe da segurança do Margem Ocidental, caído em desgraça junto de Arafat com grande experiência no relacionamento com Israel; ou ainda Marwan Barghouti, chefe da ala política da Al Fatah, popular, actualmente a cumprir pena de prisão numa cadeia israelita. Em terceiro lugar, "outsiders" como Yasser Abed-Rabbo, antigo membro da ala esquerda da Al Fatah, ex-ministro da informação e cultura da Autoridade Palestiniana, promotor com Yossi Beilin, antigo ministro da justiça de Israel do chamado Plano de Genebra, um plano alternativo ao plano proposto pelos Estados Unidos visando estabelecer um "estatuto final" para as relações israelo-palestinianas baseado, em parte, nas fronteiras anteriores à guerra dos sete dias, e no estabelecimento de uma jurisdição partilhada quanto a Jerusalém. Seja quem for que se candidate à corrida para a liderança palestiniana terá que ganhar o apoio das várias facções da Al Fatah e de outros grupos mais radicais como o Hamas, o maior e melhor organizado dos grupos militantes dos territórios ocupados e principal obreiro de atentados contra alvos civis em Israel de que terão resultado nos últimos dois anos mais de 500 mortos. Qualquer que seja o sucessor de Arafat terá que estabelecer alguma forma de compromisso com os radicais do Hamas, o que não será fácil, dada a conhecida exigência de completa desocupação israelita da Palestina, da entrega de Jerusalém aos palestinianos e a recusa da existência de um Estado de Israel, na forma como foi estabelecido pela comunidade internacional no fim da década de 40. Nada garante, até pela fragilidade dos mecanismos de responsabilidade e representação democrática na Palestina, que a luta pela liderança não descambe em guerra civil e na eliminação física de rivais. Um dos últimos e mais graves erros de Arafat foi não ter sido capaz de deixar substituto ou pelo menos de criar condições para que o seu processo de sucessão fosse controlado e consensual. Até ao fim agarrou-se ao poder, imaginando-se imortal, insubstituível, patriarca e tirano de um povo que liderou na guerra, mas não soube ou não quis liderar para a paz. Yasser Arafat será
enterrado na Muqata, o seu quartel-general em Ramallah (Cisjordânia),
onde esteve sitiado durante os últimos três anos, até
partir para França, a 29 de Outubro. Deixa uma fortuna imensa,
avaliada como a sexta maior do mundo em contas pessoais em França
e na Suíça, que irá ser disputada encarniçadamente
por Suha Arafat e pelos dirigentes palestinianos como património
pessoal ou da Autoridade Palestiniana. Até nisso lhe faltou o desprendimento
e a dimensão de estadista. |
| * Texto publicado in Tribuna de Macau, nº 1670, de 11 de Novembro de 2004, e aqui reproduzido com consentimento do autor. |