| Muitas
vezes, ao olharmos para Portugal, é impossível não
nos perguntarmos o que se passa para que não consigamos acompanhar
o crescimento e o desenvolvimento dos outros países. Apercebemo-nos
que existe um distanciamento e isso torna-se cada vez mais perturbador,
sobretudo quando pensamos que essa falha já vem de longe.
Portugal vem atravessando há muito grandes dificuldades. Os problemas
económicos são sobejamente conhecidos, mas para além
da insuficiente competitividade, da escassez de investimento e do desequilíbrio
orçamental existem outros problemas, na verdade intrinsecamente
ligados a estes. Temos uma mão de obra pouco qualificada, os sistemas
de educação e de formação profissional não
são eficientes, o sistema de justiça apresenta sérias
deficiências, o apoio público à Investigação
e ao Desenvolvimento é muito débil, não existe capacidade
para introduzir inovações ao ritmo exigido pelos avanços
tecnológicos e pela globalização, etc. A lista é
de facto muito extensa e não vale a pena prolongar-me. Mas vale
a pena tentar averiguar o que se passa, a fim de que se consigam encontrar
soluções para o problema.
O que se passa então com Portugal? Porque razão estagnou
a nossa economia? Porque não conseguimos crescer e desenvolvermo-nos?
O cerne da questão parece vir de muito longe…
Recuemos, só como exemplo, a cerca de 1700, época aproximada
em que começaram os carregamentos do ouro provindo do Brasil. Que
fizemos nós com essa riqueza? Contrariamente ao que seria esperado,
o período de maior afluxo do ouro não se repercutiu em transformações
duradouras no plano económico. O ouro foi utilizado para caprichos
luxuosos, e o seu uso revela a mentalidade e a formação
das pessoas que dele usufruíam. A verdade é que não
existia naquela época gente preparada para se servir da riqueza
com o fim de gerar mais riqueza ainda. José da Cunha Brochado,
diplomata português de então, relata que em França,
as elites portuguesas eram vistas como algo sem sentido e que em Portugal
não existiam intelectuais; tão pouco existia ciência,
política, economia, ou educação.
O que é realmente grave é que hoje, mais de 300 anos passados,
podemos dizer a mesma coisa.
Não existe uma classe empresarial nem política com qualidade.
E assim os problemas subsistem… Existe falta do Know-how em vários
campos essenciais no nosso país. O problema pode estar no sistema
de ensino, mas está também no interior de cada um. Porque
para aprender não basta um professor disposto a ensinar. Tem que
haver também um aluno disposto a aprender. Tem que haver interesse.
E chegámos ao ponto em que já quase ninguém se interessa
por Portugal. Uns porque simplesmente pensam que as coisas nunca vão
mudar; outros porque pensam o mesmo mas resolvem ter algum tipo de benefícios
entretanto. Ainda há quem tente, quem se interesse, quem se esforce,
mas certamente já serão poucos. E acredito que se cansem
face aos inúmeros obstáculos que encontram pelo caminho.
Se deixou de existir interesse pelo país é porque também
deixou de existir amor pelo mesmo. E é isso que se tem de combater.
Como? Primeiramente dando vida às marionetas que são os
portugueses, actualmente. Quando se dá espírito a um corpo
tudo se torna possível. Para alterar estes corpos inertes –e
sobretudo cérebros – tem de fazer-se algo que às vezes
não dá muito jeito à classe política: dotá-los
de inteligência, de sabedoria. “Criar” um povo politicamente
alfabetizado. E em Portugal isso não existe. Sabemos que isso não
significa que os cidadãos tomassem sempre as melhores opções,
mas pelo menos teriam consciência do que estavam a fazer. Chegar
a 2005, a umas eleições autárquicas e existir quem
ainda não saiba para que estas servem (assim como as outra) é
demasiado triste para que alguém nos considere cidadãos
conscientes. E o Estado deveria de envergonhar-se por situações
destas serem uma realidade. Certamente haverá quem não sabe
porque não se interessa, porque não quer saber. Afinal já
quase todos nós temos televisão em casa e os jornais espreitam
à esquina. Mas há quem, muito de quando em quando, se dirija
a um quiosque porque naquele dia está com disposição
para ler o jornal, e porque quer saber a opinião daquele candidato
sobre determinado assunto e já agora dar uma olhadela ao que se
passa no resto do mundo e decida não comprar o jornal porque ele
custa, digamos, oitenta cêntimos e com esse dinheirinho já
pode comprar quase dois litros de leite…E é por estas e por
outras – muitas outras – que continuamos um povo “burrinho”...
De vez em quando ouvimos falar no problema do analfabetismo em Portugal
(mais um para a longa lista daqueles que falta resolver), porém
considero muito mais triste ser iletrado politicamente do que não
saber ler nem escrever. Ter uma mente desperta é tudo. Um papel
e uma caneta, só por si, às vezes não resolvem nada.
Ter mentes despertas é tudo o que interessa a este país.
Mentes despertas interessadas em protegê-lo, e não aos seus
interesses pessoais. Mentes despertas e interessadas que amem este país,
quer sejam da classe governante quer sejam do povo. É preciso mudar
ambas, mas para que uma casa fique bem feita, começa-se a levantá-la
do chão…
Quando há interesse, boa vontade e paixão consegue-se tudo.
É possível desenvolvermo-nos, mas temos de começar
por algum lado. O caminho é o mais longo: tem que passar pela educação,
praticamente a todos os níveis. Não falo apenas de níveis
de escolaridade mas sobretudo do que tenho vindo a frisar: as pessoas
têm que ter consciência de que são uma parte activa
da sociedade, e que a afectam. Têm que ter noção que
é importante conhecerem, aprenderem, interessarem-se, porque só
assim terão uma visão mais realista do mundo em que vivem.
Só assim realmente poderão distinguir o certo do errado.
Só assim marcarão diferença e tornarão possível
uma mudança. Mas tem também de haver alguém que lhes
transmita isso, alguém sem medo.
A partir do momento em que tivermos uma sociedade mais culta, consciente
de si própia e do mundo, tudo se tornará mais fácil,
até os “Adamastores Económicos” que nos perseguem…
Vai demorar muito tempo…não se consegue uma mudança
destas em poucos anos; serão necessárias várias gerações
até realmente se notar uma diferença. Por isso, para compensar
o tempo perdido, sugiro que se comece JÁ!
BIBLIOGRAFIA
"DESAFIOS PARA PORTUGAL"
Seminários da Presidência da República - Casa das
Letras, Abril 2005
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