A Divisão entre a Direita e a Esquerda *
Fevereiro 2005
Eduardo Currito
Doutorando (PhD Student) em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IEP-UCP - Instituto de Estudos Políticos da UCP
 

Desde que houve conflito organizado nalgum tipo de contexto democrático, a linguagem da política tem procurado bifurcar a maneira como as pessoas reagem, isto é, as posições que elas assumem.

Direita e esquerda são termos espaciais, que começaram por dividir a câmara francesa (durante a Revolução Francesa, 1789) entre os que se sentavam à direita e à esquerda, entre os apoiantes da ordem e os da mudança. Esta bipolarização, contudo, implica uma espécie de neutralidade entre as categorias que distinguem politicamente a população (Seymour Martin Lipset).

A direita era o partido das instituições tradicionais, tanto seculares como religiosas. A esquerda ficava identificada com a oposição a uma monarquia poderosa e até à própria monarquia, e com o desdém pela, ou a rejeição da, religião. A direita tem representado tradicionalmente o lado da ordem, da estabilidade e da tradição, a posição moral, legal, legítima. A esquerda, por outro lado, está associada ao radical, ao perigoso e ao novo. Ao passo que a direita tende para o status quo, a esquerda tende para a mudança. A direita pende para a monarquia, enquanto a esquerda tem-se inclinado para a república.
É Norberto Bobbio, nas palavras de Celso Lafer, um filósofo militante que dialoga criticamente com as experiências políticas e intelectuais do nosso tempo, que insistiu na validade da dicotomia, tomando por base a tese segundo a qual a direita enfatizaria a liberdade, enquanto a esquerda o faria em relação à igualdade.

Na realidade, antigamente, as posições de direita e esquerda eram diametralmente incompatíveis, mas actualmente, essas duas posições se aproximam muito, tornando-se inclusivé complementares. Segundo Hélio Jaguaribe, a esquerda moderna visa ao máximo de bem estar social, com o decorrente intento de minimização das diferenças sociais, dentro de condições compatíveis com a satisfatória preservação da competitividade internacional da respectiva sociedade; enquanto a direita moderna visa ao máximo de eficácia e de competitividade, para a respectiva sociedade, dentro de condições compatíveis com satisfatórios níveis de bem estar social e de redução das desigualdades. As prioridades é que são diferentes.

A maior diferença entre direita e esquerda na política, existe nas posições extremas dos partidos que ocupam as franjas do espectro ideológico. No que respeita aos maiores partidos, os que disputam o poder, e naturalmente, o eleitorado do “centro”, as intercepções de discursos e conceitos são notórias.

Desde que o socialismo democrático abandonou a inspiração marxista e as correntes neoliberais se distanciaram das teorias do Estado mínimo, já quase ninguém entre os partidos moderados coloca em causa a necessidade de regulação da economia pelo Estado e o imperativo ético de pôr em prática programas vastos de protecção social.

Durante as campanhas eleitorais, a retórica panfletária difunde a mensagem de que existem diferenças abissais no modo de conduzir as coisas públicas, mas quando os eleitos são obrigados a enfrentar os dossiers e as questões reais, a perspectiva que domina é geralmente a tecnocrática.

Esquerda e direita são obrigadas a entender-se para quase todas as reformas constitucionais, que exigem votações por maioria qualificada. No resto, e de facto, limitam-se a discutir, de forma artificialmente acirrada, as modalidades e os graus de intervenção do Estado e os detalhes polémicos da concertação social.

Existem amplas razões para acreditar que as divisões ideológicas entre direita e esquerda, com origem na Revolução Francesa, estão longe do fim. Desenvolvimentos dentro e fora do mundo democrático ocidental confirmam a sua relevância actual. Podem emergir diferentes tendências ou vagas tanto à esquerda, a terceira via (Anthony Giddens), como à direita, o conservadorismo compassivo (Myron Magnet), mas nenhuma delas representa um novo e real ponto de partida.

O objectivo da divisão entre direita e esquerda é ajudar-nos a compreender as realidades políticas. Ninguém insiste no facto de que todos os pontos de vista devam ser identificados com precisão como um ou outro dos lados. Tal como dentro de cada ser humano existe uma luta entre o bem e o mal, também se trava, dentro dos indivíduos, uma luta entre a esquerda e a direita.
A divisão entre esquerda e direita ajuda-nos a compreender o mundo e – o que é talvez mais importante – a nos compreendermos a nós próprios.

* Artigo publicado in Jornal Expresso, Semana nº 1685, 12 Fevereiro 2005, e aqui reproduzido com o consentimento do autor