Desde
que houve conflito organizado nalgum tipo de contexto democrático,
a linguagem da política tem procurado bifurcar a maneira como as
pessoas reagem, isto é, as posições que elas assumem.
Direita e esquerda são
termos espaciais, que começaram por dividir a câmara francesa
(durante a Revolução Francesa, 1789) entre os que se sentavam
à direita e à esquerda, entre os apoiantes da ordem e os
da mudança. Esta bipolarização, contudo, implica
uma espécie de neutralidade entre as categorias que distinguem
politicamente a população (Seymour Martin Lipset).
A direita era o partido das
instituições tradicionais, tanto seculares como religiosas.
A esquerda ficava identificada com a oposição a uma monarquia
poderosa e até à própria monarquia, e com o desdém
pela, ou a rejeição da, religião. A direita tem representado
tradicionalmente o lado da ordem, da estabilidade e da tradição,
a posição moral, legal, legítima. A esquerda, por
outro lado, está associada ao radical, ao perigoso e ao novo. Ao
passo que a direita tende para o status quo, a esquerda tende para a mudança.
A direita pende para a monarquia, enquanto a esquerda tem-se inclinado
para a república.
É Norberto Bobbio, nas palavras de Celso Lafer, um filósofo
militante que dialoga criticamente com as experiências políticas
e intelectuais do nosso tempo, que insistiu na validade da dicotomia,
tomando por base a tese segundo a qual a direita enfatizaria a liberdade,
enquanto a esquerda o faria em relação à igualdade.
Na realidade, antigamente,
as posições de direita e esquerda eram diametralmente incompatíveis,
mas actualmente, essas duas posições se aproximam muito,
tornando-se inclusivé complementares. Segundo Hélio Jaguaribe,
a esquerda moderna visa ao máximo de bem estar social, com o decorrente
intento de minimização das diferenças sociais, dentro
de condições compatíveis com a satisfatória
preservação da competitividade internacional da respectiva
sociedade; enquanto a direita moderna visa ao máximo de eficácia
e de competitividade, para a respectiva sociedade, dentro de condições
compatíveis com satisfatórios níveis de bem estar
social e de redução das desigualdades. As prioridades é
que são diferentes.
A maior diferença entre
direita e esquerda na política, existe nas posições
extremas dos partidos que ocupam as franjas do espectro ideológico.
No que respeita aos maiores partidos, os que disputam o poder, e naturalmente,
o eleitorado do “centro”, as intercepções de
discursos e conceitos são notórias.
Desde que o socialismo democrático
abandonou a inspiração marxista e as correntes neoliberais
se distanciaram das teorias do Estado mínimo, já quase ninguém
entre os partidos moderados coloca em causa a necessidade de regulação
da economia pelo Estado e o imperativo ético de pôr em prática
programas vastos de protecção social.
Durante as campanhas eleitorais,
a retórica panfletária difunde a mensagem de que existem
diferenças abissais no modo de conduzir as coisas públicas,
mas quando os eleitos são obrigados a enfrentar os dossiers e as
questões reais, a perspectiva que domina é geralmente a
tecnocrática.
Esquerda e direita são
obrigadas a entender-se para quase todas as reformas constitucionais,
que exigem votações por maioria qualificada. No resto, e
de facto, limitam-se a discutir, de forma artificialmente acirrada, as
modalidades e os graus de intervenção do Estado e os detalhes
polémicos da concertação social.
Existem amplas razões
para acreditar que as divisões ideológicas entre direita
e esquerda, com origem na Revolução Francesa, estão
longe do fim. Desenvolvimentos dentro e fora do mundo democrático
ocidental confirmam a sua relevância actual. Podem emergir diferentes
tendências ou vagas tanto à esquerda, a terceira via (Anthony
Giddens), como à direita, o conservadorismo compassivo (Myron Magnet),
mas nenhuma delas representa um novo e real ponto de partida.
O objectivo da divisão
entre direita e esquerda é ajudar-nos a compreender as realidades
políticas. Ninguém insiste no facto de que todos os pontos
de vista devam ser identificados com precisão como um ou outro
dos lados. Tal como dentro de cada ser humano existe uma luta entre o
bem e o mal, também se trava, dentro dos indivíduos, uma
luta entre a esquerda e a direita.
A divisão entre esquerda e direita ajuda-nos a compreender o mundo
e – o que é talvez mais importante – a nos compreendermos
a nós próprios.
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