| 38ª Tertúlia - Macau 5 anos após a transferência de soberania | |||
Lisboa, 26 de Janeiro de 2005 |
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| Orador: Jorge Rangel | |||
| Moderação: Rui Pereira | |||
| Redacção da Acta: Carmen Mendes | |||
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A tertúlia foi moderada pelo Dr. Rui Pereira, responsável pelas relações com a Ásia no Ministério da Economia, que louvou o facto do aniversário da transferência da Administração Portuguesa de Macau para a República Popular da China (RPC) não ter passado despercebida na comunicação social, facto também motivado pela viagem presidencial à China no corrente mês de Janeiro. Depois de retratar os últimos anos da Administração Portuguesa em Macau, criticando as sucessivas mudanças de Governador, o Dr. Jorge Rangel elogiou os últimos doze anos da Administração portuguesa em Macau. A estratégia de criação de infra-estruturas levada a cabo então e que culminou com a construção do Aeroporto Internacional de Macau, converteu Macau numa história de sucesso. Mas, na opinião do Dr. Jorge Rangel, o legado mais importante que Portugal deixou em Macau foi na área da Justiça, através da consagração em Leis dos direitos, liberdades e garantias, indispensáveis à existência de uma sociedade civil interventora e para a consolidação efectiva do princípio “um país, dois sistemas”. Outra área que o Dr. Jorge Rangel destaca como fundamental na estratégia portuguesa foi a evolução do sistema educativo de Macau, indispensável à formação de quadros locais, já que o verdadeiro sustentáculo da Região Administrativa Especial de Macau é a sua administração pública. Na opinião do orador, um dos factores que tornou Macau uma história de sucesso foi o facto da Administração do Território se ter regido sempre pelo princípio do equilíbrio orçamental. Em nenhum momento a despesa foi superior à receita prevista e efectivamente gerada. Esta circunstância é particularmente importante se pensarmos que a conjuntura correspondente ao final da Administração Portuguesa no território era deveras complicada do ponto de vista económico, designadamente por força da crise financeira do Sudeste Asiático em 1997-98. Macau não foi afectado porque a sua moeda não era convertível, não se encontrando, desse modo, sujeita aos especuladores internacionais. Seguidamente, o Dr. Jorge Rangel passou a enumerar as alterações sentidas em Macau após a transferência da Administração: • A nível político, nos três anos seguintes à transferência, deu-se uma inversão do discurso: a dinâmica criada pela comunicação social foi a da exaltação das manifestações culturais chinesas e da reaproximação de Macau à Pátria Chinesa. Após esse período, Edmund Ho, Chefe do Executivo da R.A.E.M., recebeu da R.P.C. instruções concretas de que Macau deveria apostar na sua mais valia cultural, ou seja, como ponto de contacto entre a China e os países de língua portuguesa e a Europa. • Do ponto de vista económico, após a transferência de Administração a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (S.T.D.M.) deixou de ter o monopólio dos casinos e surgiram empresas americanas, oriundas de Las Vegas, em Macau. Tal facto teve um impacto económico positivo, criou uma nova dinâmica. Por outro lado, o facto da R.P.C. ter passado a conceder vistos individuais aos seus cidadãos (e não apenas a grupos), resultou na entrada de milhares de pessoas no território. Macau conheceu assim duas situações novas: um afluxo anteriormente desconhecido de turismo chinês e novos casinos. No entanto, o Dr. Jorge Rangel advertiu para a circunstância de não ser, esta, uma situação estrutural, com os riscos que daí podem decorrer. De facto, a “indústria tradicional de diversões de Macau” foi autorizada a continuar, mas a China não deu as devidas garantias de que nunca permitirá a abertura de casinos em Hong Kong, Xangai ou nas Zonas Económicas Especiais. Tal situação, a verificar-se, comprometeria seriamente a principal fonte de riqueza de Macau. Desse modo, advertiu o Dr. Jorge Rangel, é fundamental para o futuro do território acautelar as suas reservas financeiras. Em resposta às inúmeras intervenções da assistência, composta maioritariamente por pessoas interessadas pela China ou afectivamente ligadas a Macau, o Dr. Jorge Rangel disse considerar que a presença portuguesa, em termos gerais, na Ásia é muito ténue, e que deveria de ser muito mais digna e eficaz. Na sua opinião, Portugal continua a não saber tirar proveito de uma presença secular no Oriente. Questionado sobre as possibilidades de ascensão da China ao estatuto de super-potência, Rangel mostrou-se algo céptico. Para a China se converter em super-potência daqui a vinte anos, por exemplo, os E.U.A. teriam de parar de crescer. Sem embargo, será provavelmente a meio deste cenário optimista e o do colapso chinês, que algo vai acontecer. Na sua opinião o crescimento da China é uma fachada, existindo no mesmo uma falta de sustentação efectiva. Nos anos 90, falava-se dos “Tigres Asiáticos” e em previsões mirabolantes de crescimento (por exemplo, que a Indonésia em 2005 ultrapassaria a Alemanha). Todavia, e após um período de crise, tudo é posto em causa. Falava-se no século XXI como o do Pacífico, mas continuamos no século da América. Concluiu com uma interrogação: “Quem garante que a próxima crise não será na China?”. |
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