31ª Tertúlia - O Anti-Semitismo e o Estado de Israel

Lisboa, 23 de Março de 2004

Fotografias da Tertúlia
Oradores: Esther Mucznik e Joaquim Levy
Moderação: Marta Morais Fonseca
Redacção da Acta: Rodrigo Neiva Lopes
 

Realizou-se na passada terça-feira, dia 23 de Março, um debate promovido pelo CIARI, para discutir o tema: “O Anti-Semitismo e o Estado de Israel”.

A razão de ser desta tertúlia teve que ver com o alarmante crescendo de comportamentos contra judeus na Europa, e com a divulgação de dados de vários inquéritos sugerindo que o Estado de Israel é a primeira ameaça à segurança internacional.

Para este debate foram convidados o Dr. Joaquim Levy e a representante da Comunidade Israelita em Portugal, a Dra. Esther Mucznik. Moderou o debate a Dra. Marta Morais Fonseca.

A primeira intervenção coube a Joaquim Levy, que resolveu fazer uma interessante resenha histórica do percurso do povo judeu, a começar pela fundação do primeiro Estado de Israel, e de seguida, pela definição do conceito de “semita”. O Dr. Joaquim Levy procedeu a uma ampla dissertação bíblica, e parcialmente mitológica, das raízes do povo judaico.

De seguida, iniciou-se a intervenção, de pendor mais político e sociológico, de Esther Mucznik, que andou à volta de alguns tópicos a explanar:

O conceito de “culpa natural” – Pretende explicar a aceitação natural da culpa e perversão do povo judeu na história mundial, por outras nações, desde a sua responsabilidade na morte de Cristo, até à situação violenta que se vive na Palestina. Esther Mucznik pretendeu demonstrar o tradicional papel de “bodes expiatórios” atribuído aos judeus;

A ideia do anti-semitismo como sendo algo tradicionalmente europeu – Numa breve pesquisa histórica, a oradora demonstrou como a Europa acolheu manifestações reiteradas de anti-semitismo, desde as primeiras expulsões e discriminações (Portugal, Espanha, o estabelecimento de bairros judeus, os preconceitos e estereótipos divulgados na sociedade), passando pelos Pogroms do século XIX (Rússia, Polónia) até ao Holocausto nazi e à actual hostilidade por parte da esquerda europeia. Segundo Esther Mucznik, a tradicional cultura cristã não teria ajudado à aceitação dos judeus;

As quatro fases do anti-semitismo europeu – Primeiro, este teria sido de carácter religioso (na Idade Média) e em larga medida inspirado pela Igreja Católica; mais tarde passaria a ter um pendor cultural, inspirado numa certa crítica social (o judeu financeiro, agiota, bem sucedido) durante a idade do Renascimento. Permaneceria anestesiado durante o período revolucionário, fruto duma maior secularização da sociedade e da aceitação generalizada dos princípios liberais. No entanto, no início do século XIX, o anti-semitismo sofreria mais uma mutação: pela primeira vez entravam em vigor as teses racistas, de inspiração darwiniana, complementada por autores como Chamberlain e Glumpowisz. Esta mutação seria especialmente cruel e devastadora, se tivermos como exemplos os Pogroms e mais tarde, o Holocausto. A última transfiguração do anti-semitismo seria eminentemente política, resultante do início da guerra-fria e passando a dirigir o seu ódio para o Estado de Israel, deixando portanto, de ser personalista. Em grande parte, este ódio também seria veiculado pela associação à Política Externa dos Estados Unidos e à influência das comunidades judaicas neste país.

Após a exposição destes conceitos-base, seguiram-se as inevitáveis intervenções dos participantes, que desta vez, não pareceram ser muito conflituosas, em relação à história do anti-semitismo, exceptuando no que respeitava a um ponto: a responsabilidade israelita no perdurar no conflito israelo-palestiniano. Uns consideraram que esta responsabilidade pertenceria em grande parte a Israel, enquanto outros, a maioria, salientaram erros de parte a parte e porventura o envolvimento dos Estados Unidos nas alianças regionais, ressalvando a falta de interesse dos Estados árabes em chegar a um compromisso.

Depois analisou-se qual seria o móbil principal do anti-semitismo nos tempos correntes. Ele parecer resultar de uma aliança entre a extrema-esquerda, os movimentos anti-globalização e os movimentos extremistas islâmicos, que formam uma aliança contranatura para capitalizarem o capital de descontentamento contra o inimigo comum que são os Estados Unidos.

Ainda segundo os interventores, a Europa seria tendencialmente mais solidária com o povo palestiniano devido a não concordar com a forma de actuação do Estado de Israel (políticas de poder). Também se reiterou a notória ausência de indignação perante os atentados suicidas em Israel. Verifica-se hoje uma indiferença e passividade conivente por os autores serem jovens muçulmanos, também eles vítimas, e por esses actos serem exercidos em nome dos direitos do povo palestiniano, o que de certa forma lhes dá alguma caução moral.

Foi também salientado que o mundo árabe tem interesse em alimentar uma cultura de ódio que coloca Israel como único culpado, e que questiona a legitimidade da sua existência, considerando-o também a principal ameaça. Não está interessado numa solução, nem nunca acolheu os refugiados árabes. Não os acolhe nem os integra, para se servir deles como armas para pôr em causa o Estado de Israel. O arsenal de propaganda da igreja cristã e do nazismo mudou-se da Europa e foi aproveitado pelas culturas do Médio-Oriente, primeiro pelos Estados, e agora também pelas sociedades civis.

Esther Mucznik referiu ainda durante a discussão que passou a ser natural relacionar no mesmo tema o binómio “anti-semitismo” e “Estado de Israel”. Sugere que tal acontece porque há uma tendência para relacionar de forma directa a política do Estado de Israel com as comunidades de judeus, mesmo de outras nacionalidades, que nada têm que ver com as opções daquele país.

Referiu-se ainda que Israel se depara hoje com um grande desafio, o de gerir a diversidade no seu interior, tendo em conta as diversas nacionalidades de proveniência, as várias línguas e as diferenças culturais. A escola e o exército estão a diluir essa diversidade mas o desafio perdurará.

 

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