27ª Tertúlia - Os Media e as Relações Internacionais

Lisboa, 18 de Novembro de 2003

Fotografias da Tertúlia
Orador: Paulo Ferreira
Moderação: Henrique Cruz dos Santos
Redacção da Acta: Olindo Iglesias
 

Realizou-se na passada Terça-feira, dia 18 de Novembro, a XVII tertúlia do CIARI, subordinada ao tema “Os media e as Relações Internacionais”. A tertúlia foi moderada pelo dr. Henrique Cruz dos Santos e o orador convidado foi o dr. Paulo Ferreira, jornalista e director-adjunto do Jornal de Negócios.

Como é habito das tertúlias do CIARI, o tema foi introduzido pelo orador convidado que, começou a sua intervenção ilustrando o quão dependente dos media se encontra a sociedade contemporânea, chegando mesmo a afirmar que, a Globalização só é possível porque os media existem. De forma a defender a sua tese começou por fazer uma comparação entre a evolução sofrida pelos meios de transporte e pelos meios de comunicação nos últimos cinquenta anos. Segundo afirmou, o tempo de deslocação entre dois pontos no planeta tem-se mantido em valores muito semelhantes nos últimos anos, mas ainda assim, o conhecimento global tem aumentado a um ritmo cada vez mais rápido e mais intenso.

A título de exemplo, falou do 11 de Setembro e na Guerra do Iraque onde as pessoas acompanharam em tempo-real o que se estava a passar a muitos quilómetros de distância. É esta capacidade que os media têm hoje em dia de transmitir informação em simultâneo de qualquer parte do planeta para qualquer outra parte que lhes confere esta capacidade inédita na história do Homem. Hoje em dia, os meios de comunicação não só transmitem áudio e vídeo como adicionalmente permitem a interacção entre pessoas, sejam eles o locutor no terreno e o jornalista no estúdio, como um simples estudante que, com o seu computador de casa ligado à Internet, tem acesso a um leque ilimitado de informação que é actualizado ao segundo. Por isso, segundo o dr. Paulo Ferreira, não há dúvida que os media aproximam efectivamente as pessoas.

Depois deste statement of fact o orador interrogou-se, interrogando os participantes, até que ponto os media são de facto actores acidentais! Para melhor ilustrar o que pretendia descrever falou do conceito da televisão global onde a CNN é o melhor exemplo. Sabe-se que a CNN é vista diariamente por muitos milhões de espectadores em todo o Mundo. Uma consequência imediata deste facto é a capacidade que a CNN tem de informar, e assim condicionar, o que pensam milhões de pessoas nos cinco continentes. Adicionalmente, sabe-se que o directo é uma ferramenta poderosa porque influencia a forma como as pessoas sentem a notícia. Num directo o espectador torna-se participante. Um excelente exemplo de um directo que mudou o rumo da História foi o do massacre de Santa Cruz em Timor-Leste. Foram estas imagens que permitiram à opinião pública mundial tomar consciência do que verdadeiramente se passava no território ocupado pela Indonésia, não obstante a situação ser do conhecimento geral, gerando uma onda avassaladora que forçou os governos a agir; governos que antanho compactuavam com o regime indonésio. E assim questionou o orador a audiência, interrogando-a até que ponto os jornalistas são efectivamente actores acidentais e, se não deveriam ter um maior cuidado ao redigir a notícia, quando têm consciência que essa pode ter um enorme impacto na opinião pública.

Terminada a exposição inicial do dr. Paulo Ferreira, o moderador abriu o debate com duas questões:

a) os media são um poder ?
b) serão os media mais poderosos que as multinacionais?

Destas duas questões apenas a primeira foi abordada de uma forma consistente ao longo da tertúlia e verificou-se que, de facto, os media são um poder. A demonstrá-lo a forma quase mágica como o debate se centrou essencialmente em torno destes, olvidando de certa forma as relações internacionais.

Desde o início que os participantes demonstraram um grande interesse em perceber o funcionamento dos meios de comunicação, a origem das fontes, o tratamento da informação e sobretudo, se os media têm ou não qualidade.

Assim sendo, o orador começou por lembrar os participantes que os media também estão segmentados (ex: tabloids, qualidade, infotainment, etc), ou seja, os assuntos que são abordados, a forma como são tratados e a qualidade da informação varia de acordo com o segmento para o qual está direccionado (cada segmento corresponde a um mercado-alvo). Por isso, todos os segmentos fazem sentido, por existirem públicos muito distintos e, a selecção do que é consumido deverá ser feita pelo consumidor.

Consequentemente, o cenário dos meios de comunicação portugueses não é distinto dos demais países. Quando se afirma que em Portugal os órgãos de comunicação social não têm qualidade está a cair-se no erro de não se saber, ou perceber, que a segmentação existe e é natural. Uma outra crítica normalmente associada à imprensa portuguesa tem a ver com o seu alinhamento, quer à esquerda, quer à direita, como se isso fosse um exclusivo do nosso país. Também aqui se demonstrou que o que se passa em Portugal não difere em nada dos restantes países do mundo ocidental. Por norma, os jornais de referência são alinhados.

Uma outra questão que animou o debate foi saber até que ponto os media deveriam ser informativos, formativos ou simplesmente nada. Esta questão foi bastante acesa e geradora de controvérsia. Os que defendiam a tese que os media têm o dever de informar e formar, rapidamente criticaram o efeito eclipse tão frequentemente encontrado na nossa imprensa. Este efeito caracteriza-se pela discussão de assuntos marginais ou questões pontuais, colocando de fora os assuntos que realmente interessam. Esta questão é tanto mais agravada quando muitas vezes os media são tomados como fonte de verdade.

Quem defendia o contrário rapidamente fez notar que é muito difícil para um jornalista calcular o impacto que uma notícia pode ter e que, muitas vezes, trabalha com fontes de informação que podem não ser fidedignas. Assim sendo, não se pode atribuir aos media responsabilidades que eles não têm.

Depois desta animada discussão, o debate voltou a reencontrar o tema da tertúlia. Discutiu-se até que ponto os media condicionam as relações internacionais e se não serão muitas vezes utilizados como armas políticas. Esta promiscuidade, ou interdependência, entre os media e a política tem vindo a ser objecto de estudo em várias escolas e já foi definido como mediapolitik.

As conclusões foram praticamente consensuais e verificou-se que de facto os media, por serem globais, podem condicionar a actuação dos governos. Um exemplo já citado foi o caso de Timor-Leste, mas abordou-se igualmente notícias contraditórias recentemente publicadas na imprensa internacional sobre a candidatura vencedora do America’s Cup. Desta forma, por manipulação de notícias que saem na imprensa internacional os vários governos tentam criar dinâmicas a seu favor.

Um outro caso referido foi o da CNN francesa onde o orador convidado do CIARI leu parte dos estatutos da referida estação televisiva. Daqui se verificou como o que aparenta ser um projecto informativo é de facto um projecto político.

 

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