26ª Tertúlia - África: o que correu mal?

Lisboa, 21 de Outubro de 2003

Fotografias da Tertúlia
Oradores: Jorge Torgal e Augusto Manuel Correia
Moderação: Emanuel Francisco Gonçalves
Redacção da Acta: Joana Pais de Sousa
 
No dia 21 de Outubro, realizou-se a XXVI tertúlia do CIARI, intitulada “África: o que correu mal?”, sendo este um projecto a realizar há já algum tempo por vontade de alguns colaboradores do CIARI e obviamente pela pertinência do tema no sistema internacional actual. Depois de uma breve apresentação, o CIARI foi felicitado por ter chegado o momento pelo qual tantos esperavam! Os oradores convidados foram o Prof. Dr. Jorge Torgal e o Prof. Dr. Augusto Manuel Correia, moderados por Emanuel Francisco Gonçalves.

Numa primeira abordagem do tema, o Prof. Jorge Torgal – médico de saúde pública e que esteve pela primeira vez em África em 1978 – sublinhou uma das causas da situação de pobreza em África, a qual na sua óptica, não possibilitou que a situação “fosse correndo bem”. Esta causa - falta de saúde - é sustentada pelos dramáticos indicadores de saúde (entre 1000 mulheres e 1000 crianças, 180 morrem no 1º ano de vida). Se olharmos para o índice de desenvolvimento humano do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - constatamos que dos PALOP’S, com excepção de Cabo Verde, todos ocupam os últimos 10 lugares. Porquê? O orador referiu alguns exemplos que a longo prazo poderiam justificar o contexto actual, e reforça alguns factores que se relacionam e interagem:

1) Colonização – Processo longo durante o séc. XIX, onde nações não correspondiam aos riscos que se desenhavam nos mapas; originando situações onde estes novos países não correspondiam a sociedades.

2) Instabilidade Social / Conflito - Constata-se imediatamente que a 1ª causa de doença era a pobreza; e que a 1ª causa da pobreza, era a guerra, sendo que esta era inevitável a partir do momento em que sempre existiram povos com visões distintas do poder e os conflitos naturalmente aconteceram. Também a inexistência de um Estado forte, influenciou o conflito. “A História criou condições para que tudo corresse mal”.

O orador reforçou a ideia da mudança que se vive actualmente em termos de prioridades para o desenvolvimento; sendo que muitas vezes estas são priorizadas pelos doadores. Referiu uma das teses defendidas em Harvard, a qual sustenta que o investimento em saúde é o investimento com maior eficácia para o desenvolvimento. Antes, dizia-se que o mais eficaz para o desenvolvimento era a educação, agora diz-se que é a saúde. De qualquer forma, é sempre necessário que exista paz, estruturas, bem-estar social; forte investimento na formação para recursos humanos.
O orador sublinhou a ideia de que os esforços não podem ser sectoriais e têm de ser globais, sendo a capacidade da sociedade civil olhar para a realidade africana de modo realista, o factor de viragem para uma eventual resolução do actual contexto.

Conclui que uma das probabilidades dos EUA colocarem África na agenda internacional é através do Desenvolvimento Sustentado, o qual dá sinais positivos de evolução e de parcerias, permitindo que a situação deixe de correr mal, como até agora.

Em seguida, o Prof. Augusto Correia, ex. Vice-Presidente do extinto ICP (Instituto da Cooperação Portuguesa), instituto este que ao fundir-se com a APAD (Agência Pública de Apoio ao Desenvolvimento), originou o IPAD (Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento www.ipad.mne.gov.pt), apresentou-nos uma interessante visão do enquadramento da agricultura e da realidade das políticas agrícolas no seio de toda a conjuntura africana de cooperação, políticas de intervenção públicas e programas comunitários. Iniciou a sua exposição, focando o drama actual, perante o qual a maioria da sociedade permanece “adormecida”, já que 23.000 pessoas morreram de fome hoje, ontem e vão morrer amanhã. Este é o único continente onde a fome vai aumentar e a única forma de alterar este panorama é através de políticas de intervenção e obviamente a culpa é também dos políticos africanos, dos nossos governantes e dos doadores. O orador analisou esta situação, argumentando que o principal motivo é a ausência de conceito de acumulação de riqueza e o grande embate foi o esquecimento da agricultura, sendo que este enquadramento externo sé se realizou nos anos 60, por pressão da OUA junto da ONU.

Seguiu-se o debate, o qual foi bastante frutuoso e participativo e as opiniões dividiram-se na defesa de factores que originaram a situação actual em África. Posições houve, que defenderam, os seguintes factores como causa desta realidade:

1) Falta de Responsabilidade;
2) Nepotismo
3) Intervenção generalista e superficial dos países europeus
4) IIiteracia

Para outros, também o abandono dos territórios de forma não faseada, originando o vazio de poder e gerando a luta pelo mesmo poder, influencia o actual panorama africano, já que amplia a instabilidade social e política.
Chegou–se a consenso quanto à importância de colocar África na agenda internacional, defendendo uns participantes que enquanto os EUA, União Europeia e Rússia não quiserem mudar a situação, nada haverá a fazer. Por outro lado e para outras correntes opostas, o facto destes políticos e governantes não estarem interessados na mudança, na medida em que desde sempre retiraram dividendos da situação africana, coloca a situação actual num patamar de maior complexidade.
Chegou-se a conclusões importantes em 4 vectores fundamentais:

1- Boa Governação – Este será o maior desafio em África nos próximos anos e para esta existir, requer pessoas capazes, apesar dos processos em África serem lentos e as respostas terem de ser práticas, mas progressivas. A corrupção é a única coisa que pode explicar a natureza dos líderes e governantes africanos e concluiu-se que o que ainda está a correr mal em África, é a falta de vontade das elites, bem como ausência de noção de bem comum.
Assim sendo, não é possível democracia em África nos próximos anos sem instituições democráticas, o mesmo é dizer sem eleições concretas e a partir do momento em que existe uma necessidade clara de debate multidisciplinar, África está a perder tempo e oportunidades e se todo o sistema democrático for implementado, tudo em princípio correrá bem.....ou melhor!

2 - Interdependência e Cooperação - A melhor maneira dos países desenvolvidos se desenvolverem mais, é desenvolvendo os países sub-desenvolvidos e não sub-desenvolvendo. Nesta vertente, concluímos que no futuro, a situação irá jogar-se na interdependência, pois não há tempo para as coisas serem jogadas internamente. Daí que é no exterior e neste mundo globalizado que se vai articular a capacidade decisória, pois o mundo desenvolvido não passa sem os africanos.

3 - Complexidade da situação em África; pois o continente é muito pouco urbano e continuará a ser rural até ao fim deste século, com 80% de zonas agrárias. O urbano pode não querer dizer crescimento económico!

4 - Cidadania - A sociedade civil é fundamental para a consciencialização e posterior participação dos cidadãos activos e esclarecidos. No entanto, concluiu-se que apesar da Cidadania ser valor universal e fulcral, não se poderá ser cidadão num país onde não há estruturas nem associações ou grupos organizados com intervenção cívica.

Joana Pais de Sousa
Mestranda em Estudos Africanos
Licenciada em Relações Internacionais
 

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