| 21ª Tertúlia - As Relações Transatlânticas |
Lisboa, 18 de Março de 2003 |
| Palestra do Orador |
| Fotografias da Tertúlia |
| Orador: Filipe Pinheiro Ferreira |
| Moderação: Nuno Coelho |
| Redacção da Acta: Emanuel Francisco Gonçalves |
| Quando o CIARI resolveu organizar uma tertúlia sobre o tema "As Relações Transatlânticas" sabia que se encontravam num momento de extrema tensão - para muitos o "cisma" do Ocidente nos tempos modernos - mas, a participação foi muito maior do que tudo o que se esperava. Foi mesmo a tertúlia com a maior participação de sempre do CIARI! Grosso modo as participações demonstraram o quanto esta questão dividiu as populações e, também os portugueses. A marca do realismo empedernido, com marcas na direita tradicional, até ao idealismo wilsoniano no seu máximo de utopismo nas Relações Internacionais, houve, nesta tertúlia, intervenções para todos os gostos e tendências, reflexo das divisões da sociedade. A palestra de abertura esteve a cargo de Filipe Pinheiro Ferreira e a tónica que o orador inicial decidiu dar à sua intervenção foi a seguinte: os EUA e Europa têm um relacionamento especial, mesmo civilizacional. É deste relacionamento que sai parte fundamental para a estabilidade tanto da zona do Atlântico Norte como do resto do mundo. Assim, segundo o orador, a corrente de pensamento que domina a Administração Bush, o "neo-conservadorismo", trouxe uma nova postura: arrogante, imperialista e até isolacionista. E é esta nova postura (deu como exºs situações anteriores como o NMD, o TPI ou a Conferência do Cabo), que está a pôr em causa esta "união civilizacional". Segundo o orador o "anti-americanismo" actual dos europeus é-o não verdadeiramente contra os EUA por si mesmos, mas antes, contra uma administração que se revela imperialista, arrogante e isolacionista. O orador disse compreender o abalo causado pelo 11/09 nos Estados Unidos, sem que no entanto o considere fundamental para a formulação política americana. As intervenções que se seguiram revelaram a tão propagada divisão das opiniões públicas, tendo como resultado o extremar das posições e por algumas vezes a irracionalidade da argumentação. Conforme o lado que os participantes escolhiam, assim se definia o seu apoio ou oposição também, à Política Externa Portuguesa para a questão. Sucessivamente os argumentos foram ora a favor, ora contra a intervenção, mas infelizmente poucas vezes surgiram em tom moderado, tendo-se extremado a discussão bastas vezes para além do pretendido e do desejável. Uma das correntes fundamentais da tertúlia, inclinou-se para as causas económicas da guerra: foi lembrada a desvalorização do dólar e a necessidade que os EUA têm de não deixarem o Euro substituir a sua moeda como instrumento geral das trocas internacionais - a propósito também do Iraque fazer as suas transações internacionais de petróleo em Euros; a questão da exploração do petróleo - os EUA precisam de substituir a Arábia Saudita como aliado preferencial na região, pois a Casa de Saud parece colaborar com os terroristas e não interessa aos EUA perder o controle sob as reservas do Médio Oriente. Assim, os mais próximos das correntes idealistas nas Relações Internacionais, e em termos do intervencionismo, ou não, norte-americano, e da preponderância, ou não, do Direito Internacional, tende~m a ser também os mais materialistas na análise das causas da guerra... Curioso será saber se não será esta tendência para a análise puramente materialista que faz originar, mais tarde, as propostas idealistas. Houve uma corrente realista que colocou os norte-americanos ao mesmo nível dos restantes países e que defendeu que os EUA estavam apenas a defender os seus interesses, assim como Rússia, França, R.P. China e Grã-Bretanha. Esta corrente dividia-se em dois grupos, que grosso modo defendem esta posição. Havia, no entanto, dentro deste grupo alguns realistas mais tradicionais que acreditam não existir mais nada para além do interesse nacional, e outros que, apesar de colocarem o assento tónico na defesa do interesse nacional, também partilham da tese de uma ligação de alguma forma especial entre Europa e EUA, sem no entanto dar tanto ênfase à "questão Bush" como o orador inicial tinha dado. |
Emanuel
Francisco Gonçalves |
Licenciado
em Relações Internacionais |