| 18ª Tertúlia - A (R)evolução no Brasil |
Lisboa, 19 de Novembro de 2002 |
| Fotografias da Tertúlia |
| Oradora: Danielle Ayres |
| Moderação: Nuno Batista Jorge |
| Redacção da Acta: Emanuel Francisco Gonçalves |
| À partida para uma iniciativa deste género sobre um país lusófono perspectiva-se sempre um relativo interesse. No entanto, sabendo que nos últimos anos a História Imperial Portuguesa, a Diáspora, e a vocação lusitana para um Atlantismo, passaram para segundo plano, sendo por isso de alguma maneira difícil saber se os portugueses mantêm junto do seu passado algum do interesse contemporâneo. A resposta foi, felizmente, muito positiva. Todos aprendemos, no passado dia 19 de Novembro, que em Portugal ainda há muita gente que não olha apenas para Este. A Tertúlia teve início com uma apresentação de Danielle Ayres, uma estudante brasileira de Relações Internacionais, que versou sobre os últimos anos do Brasil. Danielle ofereceu a todos os presentes uma nota introdutória da conjuntura brasileira e do percurso feito pelo Brasil para aqui chegar. Salientou uma enorme vitória de Fernando Henrique Cardoso: devolveu ao povo brasileiro o orgulho de pertencer àquele país. Posteriormente a esta primeira introdução, a fase do debate, moderada por Nuno Batista Jorge, foi por vezes quente e animada, solicitando a intervenção do moderador para que não se perdesse a fluidez da conversação. Assim, os seguintes temas marcaram o debate: Se Fernando Henrique Cardoso é um indivíduo seriamente respeitado pela sua capacidade e é visto como um modelo de governante, sério e competente, porque razão os brasileiros optaram por mudar tanto? É que se no início da Democracia os brasileiros enfrentaram "tragédias políticas", como com o caso Collor de Mello, a presidência de FHC foi marcada, assim como a transição parece estar a ser, por um total respeito pelas regras democráticas. Desta forma, por que é que os brasileiros optaram, agora, por votar neste indivíduo, tão fora do sistema? Foi falado que Lula da Silva fez um percurso de aproximação ao centro do espectro político, que Luís Inácio Lula da Silva, o que venceu as eleições, não é exactamente o mesmo Lula das lutas sindicais, que a evolução pela qual ele passou ajudou e muito a credibilização do indivíduo. Entretanto, o debate passou pela discussão da dúvida se Lula não será um produto do Marketing? Houve quem considerasse que Lula é um símbolo muito bem vendido por bem orquestradas campanhas publicitárias. A generalidade dos participantes considerou que apesar de haver uma forte campanha publicitária por trás do candidato, há um percurso de Lula da Silva, desde os tempos de líder sindical, que não pode ser desprezado, acima de tudo como líder e condutor de massas. Entretanto, o debate retornou à discussão da conjuntura interna para todos concordarem com dois problemas brasileiros: a terrível injustiça social que coloca o país entre um dos mais injustos; e, a crise económica mundial, especialmente na América Latina, com maior incidência na Argentina, país para com o qual o Brasil tem tido especial cuidado, pois a economia brasileira e Argentina estão muito ligadas. Concluiu-se pois que diversos factores contribuíram para a viragem dos brasileiros: o estrutural hiato entre ricos e pobres, a descrença nos políticos (motivada mais pelos passado do que por FHC), a grave crise económica e, para alguns, a bem orquestrada campanha publicitária de Lula. No entanto, os participantes não consideram que Lula trará ao povo brasileiro uma Ascensão ao Paraíso Celestial, conscientes de que as mudanças políticas profundas levam tempo, e que Lula corre certos riscos de decepcionar parte fundamental do eleitorado. A certa altura houve até quem fizesse um apontamento notável: Lula ascendeu a uma outra classe, passou do povo a que pertencia e que o elegeu para ser uma Elite. Assim, se tomar uma atitude de ruptura trairá ou quem o elegeu ou a classe a que agora pertence, estando por isso num dilema profundo. Houve um certo unanimismo em torno da questão da Democracia brasileira, que todos acreditam estar estável, e da Economia, pois o Brasil tem compromissos com o exterior que Lula diz querer cumprir e, para receber a ajuda externa de que necessita para equilibrar a economia brasileira, tem de mostrar seriedade e um relativo enquadramento no Mainstream Internacional. De seguida passou-se para a discussão em torno do significado da chegada de Lula ao Poder em termos de enquadramento político: se Lula é um utópico; se é a chegada da Nova Esquerda ao poder; ou, se é o espírito de Porto Alegre finalmente no poder. O debate retomou alguns dos temas anteriores, como a evolução de Lula durante os últimos anos e a dependência económica internacional. Entretanto falou-se da equipa que o rodeia, dos lugares e ponderação de votos no parlamento brasileiro e que, o desafio de Lula, o do desenvolvimento sustentado, tem de continuar a ter algum pendor social (sendo que hoje é unânime que a maior riqueza de um Estado é o seu Povo) e que deverá ser por aí que Lula deve seguir. Havia duas tendência entre os participantes: uma primeira tendência totalmente céptica em relação a Lula da Silva e uma segunda tendência moderadamente a favor, isto é, de esperar para ver o resultado da governação. Posteriormente falou-se da Política Externa de Lula. A discussão andou perdida, durante algum tempo, em torno de questões que, se bem que muito interessantes, - em torno da opção ou não pelo isolacionismo na Política Externa - para os propósitos do debate não eram relevantes. No entanto algo foi dito de muito interessante em torno da Política Externa de Lula: as viagens às capitais Buenos Aires, Washington e Lisboa serão os três vectores da Política Externa brasileira nos próximos anos. Assim, a opção pela integração regional, o Mercosul; o parceiro de integração futura e principal contribuinte da ajuda económica internacional, os EUA e a inevitável ALCA; e, o escape às Américas, Lisboa: porta de entrada para a União Europeia e para o comércio europeu do Brasil. Muito discutida foi a questão de um reforço ou não do diálogo Sul-Sul, e da necessidade de os países do sul terem, entre si, maior cooperação e desenvolverem políticas de desenvolvimento sustentado sérias, de acordo com os seus padrões e necessidades de desenvolvimento. Muito falada e criticada neste ponto em agenda referente à política externa foi a CPLP, havendo mais uma vez quem considerasse que a CPLP é um flop político, e havendo quem, pelo contrário, entendesse que deve haver paciência para com uma organização jovem, com parcos recursos, e que tem de ter tempo para ganhar corpo institucional e peso político, recordando-se que a CPLP sente-se onde mais é necessária: junto dos PALOP´s e de Timor-Leste. Neste tema, houve uma falha indesculpável: não foi discutida a questão da provável entrada do Brasil para membro-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que deverá marcar a ascensão do brasil a potência estruturante do Sistema e dar à língua portuguesa um peso que há muito não tem. Para concluir devemos dizer
que o debate foi muito rico e marcado pelas divergências entre alguns
quadrantes políticos. No entanto, e apesar de a discussão
ter tido alguns momentos em que se perdeu, aprendemos todos o quão
rica é a Democracia brasileira, que o Brasil é, hoje, uma
economia muitíssimo importante para o bem-estar do sistema internacional,
e que não ficará Lula como o "Salvador da Pátria",
e que ao que parece De Gaulle estava errado - na sua afirmação
de que "o Brasil é um pais com muito futuro, e assim ficará
por muito tempo" - pois este país é de futuro mas não
o será para sempre. Haverá um Brasil mais justo, mais humano
e em que os excluídos serão muito menos pois este foi o
caminho traçado nos últimos anos e parece ser o caminho
que todos os brasileiros desejam, apesar de, como para qualquer país,
haver sempre armadilhas no percurso. |
Emanuel
Francisco Gonaçlves |
Licenciado
em Relações Internacionais |