17ª Tertúlia - Política Internacial: o sistema post-11 de Setembro

Lisboa, 22 de Outubro de 2002

Fotografias da Tertúlia
Moderação: Mário Almendra
Redacção da Acta: Henrique Cruz dos Santos
 

No dia 22 de Outubro, cerca de duas dezenas de pessoas encontraram-se no âmbito da XVII Tertúlia, que estava sujeita ao tema das implicações que os atentados do 11 de Setembro haviam, ou não, tido sobre o sistema internacional (SI).

A mesa começou por fazer uma apresentação provocatória, onde dois dos seus membros expuseram as razões das duas correntes em jogo - se aquela manhã havia mudado as "manhãs" que se seguiram ou se os acordares dos povos se mantinham semelhantes.

Vejamos pois alguns dos argumentos base das partes:

Sistema Internacional mantém-se depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001

- Desde o Pós Guerra Fria que a potência que domina todos os vectores da sociedade (militar, económico, político, ideológico...) se mantém, sendo acompanhada por interlocutores influentes.

- Os ataques envolvem uma grande componente estética que deturpa a sua relevância junto das populações;

- O terrorismo já vinha sendo usado, pelo que não é um fenómeno novo;

- A 11 de Setembro foi apenas revelado um sistema que resultou de uma evolução gradual mas que ainda não tinha sido identificado.

Sistema Internacional alterou-se após o 11 de Setembro

- Há um maior hiato nos níveis de força, principalmente depois do reforço do sector da Defesa no último orçamento dos EUA

- Actuação de novos actores no SI (os poderes erráticos)

- Nova percepção de insegurança e medo global do inimigo não identificado

- Novas alianças, inclusivamente com velhos inimigos

- Áreas até há bem pouco tempo marginais são agora consideradas estratégicas

- Passa a ser do conhecimento público aquilo que até há pouco só os serviços secretos e os think-thanks previam.

... mas o debate teve ideias por todos partilhadas, como a da actual preponderância dos EUA no sistema. " ... A opção cada vez mais unilateralista dos EUA deve-se ao seu predomínio militar ... ", que à luz da recente doutrina Bush não pode ser contestado ( destaque para a inovadora figura da intervenção preventiva ). De facto, as outras potências menores protestam contra aquilo a que se chamou de " ... arrogância ...", pois sabem que não podem ombrear com Washington em termos de força. Qual deveria ser o posicionamento da Europa contra estas políticas de " ... quero, posso e mando ... " do outro lado do Atlântico? Os heterogéneos discursos dos diferentes dirigentes comunitários pouco mais têm em comum que a prova de que as relações entre os dois lados do oceano estão em crise. O Velho Continente faz uso do legalismo como meio para atingir um pacifismo que não têm quaisquer raízes históricas, mas ao qual comodamente se habituou graças ao paternalismo deste, aparente, ex-parceiro. A realidade é que dificilmente o eleitorado europeu aceitará de bom grado ver o dinheiro dos seus impostos ser desinvestimento no campo social para passar a ser aplicado na Defesa ... e inevitavelmente isto tem consequências na força política e diplomática da União Europeia.

Quando se fala do 11 de Setembro é difícil não falar da mediatização do acontecimento. Esta é outra tendência que se têm vindo a aprofundar nos últimos tempos. Especulou-se sobre a camuflagem feita aos atentados daquele dia sangrento - quando se pensa no que aconteceu naquele dia só vem à memória as imagens nas torres gémeas em Nova Iorque; mas não se ficou por aí! O poder militar e político da potência foi atacado no seu coração ( Pentágono ); e o que aconteceu na realidade ao avião que supostamente se despenhou? Imagem é Poder. Força para fazer com que 3000 mortos entrem diariamente pelos lares de todo o mundo, algo para o qual não chegam 80000 vidas tchetchenas ou um milhão de ruandesas, não está ao alcance de qualquer um; na sociedade de informação, ainda para mais globalizada, isto é sinónimo de poder - uma imagem vale mais que mil palavras.

Memórias levaram Manuel Brito a relembrar ao grupo mais jovem " ... a capacidade que os EUA sempre tiveram de misturar realidade com ficção ...". Entende por isso que George W. Bush especula com possíveis acções militares para terminar com bolsas de resistência, sem ter, na realidade, que agir. Esse lógica de "light power" é a única que se adequa à realidade americana pois o conflito no Vietname deixou marcas que não sararão. Desde aí o povo americano não aceita sepultar os seus cadáveres por conflitos para os quais não compreende a sua razão de ser. Daí o desertar da ONU na intervenção da Somália e as aparentemente limpas intervenções no Iraque e Afeganistão. Ora verdadeiras guerras levam a mortos, pelo que parece que "... esta lógica das baixas-zero pode ser o calcanhar de Aquiles do Ocidente... ". Por isso alguém defendeu que as guerras do início deste novo milénio seriam "... mediatamente limpas...".

A vertente económica acabou por ser um pouco desprezada, à parte da chamada de atenção para a relevância da entrada da Rep. Popular da China na Organização Mundial de Comércio, e da do reposicionamento americano em áreas energicamente estratégicas, como a que pode estar em jogo actualmente no Iraque, ou aquela se deu em países da Ásia Central no seguimento da actuação contra os talibans. Santos Martins aproveitou para fazer o não menosprezável reparo de que nunca uma potência naval se havia aventurado desta forma no centro de um continente. Sinal dos tempos da globalização? No fundo estava a ser discutida a categorização do actual sistema, debate que tanto leva especialistas a falarem de Hiper-potência, de unimultipolarismo, do estarmos a caminhar para um Império, ou da tão badalada teoria do choque civilizacional.

Perante a onda anti-hegemónica que parece estar a atravessar todo o planeta levantou-se o cenário do que sucederia se diversas grandes potências se rebelassem contra este mundo de modelo único. Teriam os Estados Unidos capacidade de suster guerras contra adversários de peso e diferentes pólos do planeta e em simultâneo?

A conclusão possível foi a da realidade com que se partiu. O 11 de Setembro está ainda muito perto para que incorramos no erro de o tentarmos balizar em realidades pré-concebidas. Quanto à questão de se o mundo sofreu uma ruptura ou não a doutrina divergiu.

Desta forma se chegou a um final bem mais quente do que o tímido início de debate, ficando a promessa do reencontro noutras eventos sobre outra área das relações internacionais, tão desprezada quão influente na vida de todos os cidadãos.

Henrique Cruz dos Santos
Licenciado em Relações Internacionais
 

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