16ª Tertúlia - Portugal 2020: Exercício de Prospectiva Estratégica

Lisboa, 24 de Setembro de 2002

Acta
 
Agenda da Tertúlia
 

 

Abertura

21:30

Definição de “prospectiva” in Porto Editora

  • Prospectiva – (Substantivo feminino, neologismo) – Conjunto de investigações que têm por fim a previsão a longo prazo no domino das ciências humanas

 

Para “prospectivarmos” com seriedade teriamos que:

  • Fazer um levantamento exaustivo da situação actual do país
  • Determinar o modelo/modelos que o país segue
  • Aplicar o mesmo ao resto do mundo
  • Quase que matematicamente poderiamos determinar o nosso ponto em qualquer momento no futuro.

 

No entanto, esta análise peca por:

  • O modelo do país ser dinâmico e alterável
  • A realidade que nos cerca altera-se a uma velocidade vertiginosa
  • Há muitas incertezas e factores desconhecidos que não temos capacidade de prever

 

Em alternativa, podemos definir uma questão fundamental como fio condutor para a tertúlia:

 

“O que é que nós, enquanto Portugueses, queremos ou gostariamos que Portugal fosse em 2020?”

 

A resposta deve ser dada nas seguintes vertentes:

  1. Na cena política internacional
  2. No espaço lusófono
  3. No plano cultural/educacional
  4. No plano económico

 

Orientação: estado corrente vs estado futuro (objectivo a atingir)

 

Política Internacional

21:35

Alguns factos

 

Portugal é uma nação:

  • Com 10 milhões de habitantes
  • Pequena produção agricula/industrial
  • Sem recursos naturais
  • População pouco educada/instruida
  • Não é um país estratégico (à excepção dos Açores)
  • Estado-membro e fundador da OTAN
  • Estado membro da UE
  • Estado membro da ONU

 

Consequências

 

Talvez por tudo isto:

  • É um país com pouca projecção internacional
  • É um país que fala pouco e fala baixo

 

E o mundo?

  • A ONU é uma organização fraca (opinião pessoal!!!!), dominada por um conselho de segurança, para não dizer dos EUA. O papel de Portugal é quase que meramente representativo.
  • A OTAN tende a reorganizar-se, abrindo-se a Leste e podendo comandos estratégicos deslocarem-se de Portugal para Espanha
  • Na União Europeia o directório dos Grandes quer cada vez mais poder, com a consequente diminuição da margem de manobra dos países pequenos
  • A UE vai alargar-se e quantos mais países menor a representatividade individual e a possibilidade de se fazerem ouvir cada um dos países pequenos

 

Questões:

  • Qual gostariamos que fosse o papel a desempenhar por  Portugal no seio da UE?

·        Será um Estado secundário subjugado ao interesse dos grandes?

·        Será um parceria com Espanha construindo um bloco ibérico no seio da União?

·        Será através da criação de uma plataforma de países pequenos que em conjunto criam um contra-poder aos países grandes?!

  • E o papel no resto do mundo?
    • Será o de uma voz abafada pela União Europeia?
    • Irá continuar a ser uma voz ténue e que raramente se ouve?

 

Espaço Lusófono

22:00

O que é o Espaço Lusófono?

  • É um conjunto de países em crise
  • É um conjunto de países pobres, mas com recursos (alguns)
  • É um espaço ameaçado – Moçambique já faz parte da CommonWealth e a França exerce grande pressão sobre outros: Cabo-Verde, Guiné-Bissau e até mesmo Angola

 

Existe uma instituição CPLP:

  • Que parece ter pouca dinâmica
  • Que parece não ter objectivos definidos
  • Com pouca visibilidade para o cidadão comum – Deve ser um daqueles raros casos em que as notícias quem vêm a público são mais frequentemente negativas que positivas: o problema do carro da presidente, e as consecutivas reuniões onde tudo se discute, mas nada se faz.

 

Existe um Instituto Camões:

  • Ainda ninguém percebeu como funciona
  • O Português continua a ser pouco projectado no mundo: Não há grandes acções de marketing de divulgação da Língua Portuguesa
  • Há carência de leitores de português e os poucos que há não são tratados com dignidade: pagamentos em atraso e contratos não renovados.

 

E Portugal?

 

Foi cabeça de império, mas:

  • É pequeno e pobre
  • Não tem autoridade nem capacidade de liderança
  • Funciona quase que exclusivamente como dador a fundo perdido retirando poucas mais valias

 

Questões:

 

  • O mundo português está ameaçado?
  • Irá Portugal perder o mundo português para a Inglaterra, França e Austrália ou será a vontade dos povos maior que a vontade dos políticos?
  • Irá Portugal conseguir criar cinergias com as suas ex-colónias?
    • Turismo e pescas com Cabo-Verde, Guiné e São Tomé
    • Agro-pecuária com Angola e Moçambique
    • Exploração petrolifera/gás natural com Angola
    • Projectos de investigação e desenvolvimento e parcerias indústriais com o Brasil
  • Será que uma maior integração europeia força a um maior distanciamento com as antigas colónias?!
  • Enquanto portugueses e projectando Portugal em 2020 qual gostariamos que fossem as nossas relações com as colónias?

 

Cultura/Educação

22:20

Na cultura....

 

  • Projecção cultural portuguesa limitada
  • Há nomes grandes: Paula Rego, Álvaro Siza, Luís Figo, Madredeus, Saramago, etc...
  • Há pouca coordenação, não há marca, não há associação país/pessoas/cultura. Ex: Novo slogan da GreenPeace pelos Madredeus.
  • Cultura portugesa no mundo mal protegida:
    • Museu português em Cochim: Gulbenkian
    • Forte de São Jorge da Mina: Gulbenkian
    • E o resto? A presença portuguesa em Goa, em Macau, em Malaca, em Marrocos, na Ilha de Moçambique. Quem cuida? Quem inventaria? Quem se preocupa?

 

Questões:

 

  • Será que o património cultural português histórico (fisico) no mundo está em vias de extinção?
  • Portugal tem actualmente património cultural?
    • Como se define? Será através do futebol, das artes, da engenharia, das ciências, etc?
    • Como se projecta no próprio país?
    • Como se projecta no mundo?
  • Será que o futuro cultural português no mundo vai resumir-se a uma modesta e quase desapercebida contribuição? Como gostariamos que se processasse?

22:35

Na educação...

 

Não há qualidade. Ponto.:

  • Os alunos são fracos
  • Os professores estão desmotivados
  • As escolas “edifícios” têm poucas condições: a própria estrutura da escola, poucos laboratórios, mal equipados, etc.
  • Métodos de ensino deficientes – muito baseados no estudo de manuais e pouco apelo a experiências, visitas de campo, exploração de ideias novas.
  • O ensino não segue um sistema meritocrático nem exije qualidade
  • Há, ou tem havido, alunos a entrar com notas negativas no ensino superior
  • Há universidades a leccionar sem qualidade
  • Há cursos a mais
  • Há demasiados formandos em curos não estratégicos ou para os quais não há vazão no mercado de trabalho. Ex: criação de três cursos novos de arquitectura só em Lisboa, quando existe uma deficiência brutal em medicina

 

Questões:

 

  • Que critérios regem a nossa educação?
  • Que tipo de profissionais iremos ter no futuro?
  • Estamos a apostar em áreas estratégicas?
  • Os cursos são planeados tendo em conta a estratégia nacional e as necessidades do país?
  • QUESTÃO FUNDAMENTAL: Não estará o actual modelo educativo a comprometer seriamente o futuro do país? Que modelo educativo gostariamos de ver implementado?

 

Plano Económico

22:50

Alguns factos:

·        Infra-estruturas

·        Más vias rodoviárias e ferroviárias. E caras.

·        Portos maritimos ineficientes e caros

·        Aeroportos caros

·        Mão-de-obra

·        Pouco qualificada

·        Mal paga, logo desmotivada, logo pouco produtiva

·        Portugal é um país caro

·        Muitos impostos

·        Impostos elevados

·        O que leva a custos de produção elevados

·        Organização económica

·        Têxteis/calçado

·        Vinhos

·        Construcção naval

·        Indústria automóvel (muito dependente da AutoEuropa)

·        Turismo/Serviços

 

Questões:

 

·        Alguns anos atrás o governo português encomendou um estudo ao prof. Porter que identificou um conjunto de clusters estratégicos para o país.

·        Parece-vos que está a haver uma aposta nacional nesses clusters?

·        Parece-vos que estão a ser criadas as condições (contexto) para que esses clusters tenham sucesso?

·        Não estarão os nossos clusters ameaçados por países terceiros com custos de produção muito mais baixos (Malásia, Polónia, Chile, etc)?

·        Não seria proveitoso apostar em áreas de futuro (telecom, software, biotecnologia, etc)?

·        Como fazer com que a nossa educação possa servir de base a este objectivo nacional?

·        Actualmente como forma de re-estruturação as multinacionais tendem a concentrar os seus centros de decisão. Como resultado muitos centros de decisão têm saido de Portugal para Espanha, tornando-se Portugal mais periférico e mais secundário.

·        Será que a tendência é para Lisboa se tornar uma cidade secundária no contexto ibérico estando ao mesmo nível que uma Sevilha?

·        Ou será que Portugal irá conseguir criar a força que precisa para no futuro se tornar uma segunda Barcelona?

·        O que é preciso fazer para reter os centros de decisão em Lisboa? Será que passa por tornar Lisboa como o interface por excelência com os PALOPs e Brasil?

·        Será que o futuro de Portugal é tornar-se um resort de férias para o turista rasca que tem pouco mais de meia dúzia de euros para gastar e para o qual a única preocupação é comer a sandocha no quarto do apartamento alugado e gastar os poucos cobres que lhe sobejam num qualquer bar algarvio? Mas como se pode pedir turismo de qualidade quando:

·        A paisagem está degradada

·        As vias de comunicação são más

·        O serviço é pouco profissional

·        O objectivo último é sacar o máximo de dinheiro ao turista investindo o minimo possivel em qualidade.

 

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