| 16ª Tertúlia - Portugal 2020: Exercício de Prospectiva Estratégica |
Lisboa, 24 de Setembro de 2002 |
| Agenda da Tertúlia |
| Fotografias da Tertúlia |
| Moderação: Olindo Iglesias |
| Redacção da Acta: Nuno Mendes |
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Abertura Se por entre os diversos dicionários de língua portuguesa procurarmos a definição da palavra "prospectiva", encontraremos algo semelhante ao que se encontra no dicionário da Porto Editora, que indica ser um "...conjunto de investigações que têm por fim a previsão a longo prazo no domínio das ciências humanas...". Para prospectivar Portugal em 2020 com o mínimo de seriedade, teríamos de efectuar um levantamento exaustivo da situação actual do país numa multiplicidade de áreas, teríamos de determinar o modelo ou modelos que o país segue e por fim aplicar o mesmo ao resto do mundo. É assim que, para além de todas as dificuldades inerentes à previsão de acontecimentos vindouros, prospectivar implicaria o cruzamento de dados que só por si entrariam no domínio da futurologia, assentando todo o método de estudo na expectativa da constância nas variações dos objectos de análise. Acontece ainda assim que Portugal, tal como todas as variáveis e demais dados a ser contabilizados não se encontram em circuito fechado, mas expostos ao dinamismo do sistema mundo, onde a realidade que nos cerca se altera a uma velocidade vertiginosa, e onde qualquer prospectiva conclusiva não teria mais validade que qualquer outra previsão sem qualquer base de sustentação. Em suma, com base em alguns dados, poder-se-á partir para uma análise que indicará um Portugal possível para 2020, ainda que na realidade todas as situações sejam possíveis, dadas as incertezas e factores desconhecidos que não temos capacidade de prever. Assim, passamos das prospectivas para as expectativas, quanto ao que é desejável para o nosso país e quanto ao que nós, enquanto portugueses, queremos ou gostaríamos que fosse em 2020. Tais expectativas podem projectar-se nas seguintes vertentes: Na cena política internacional; no espaço lusófono, no plano cultural e educacional; no plano económico. Política Internacional É um facto que Portugal,
um país de 10 milhões de habitantes, apesar de ser um Estado
membro de organizações como a OTAN, a UE e a ONU, tem uma
pequena produção agrícola e industrial, que não
possui recursos naturais de relevo e tem uma população pouco
instruída. Será então por estas razões que,
apesar de pertencermos às organizações charneira
do mundo ocidental, Portugal permanece um país com pouca projecção
internacional? A própria presença nacional em tais instituições
é também de importância relativa, sobretudo se notarmos
que na ONU é quase meramente representativa. Quanto à OTAN,
esta tende a reorganizar-se podendo o comando do Atlântico Sul mudar-se
de Oeiras para Espanha. Na UE, o "directório dos grandes"
marginaliza cada vez mais os pequenos Estados, facto que em nada será
ajudado com a adesão maciça dos novos membros a leste. Assim,
qual gostaríamos que fosse o papel a desempenhar por Portugal no
seio da UE? O de um Estado secundário subjugado aos interesses
dos grandes? Um parceiro de Espanha na construção de um
mais forte bloco ibérico? Ou ainda o papel de membro de uma plataforma
de países pequenos que em conjunto criariam um contra-poder ao
"directório dos grandes"? Espaço Lusófono Observando de perto esta realidade
cultural, ou melhor, linguistica, que une em si um tão diferente
conjunto de países, facilmente nos apercebemos que, apesar de existirem
recursos dentro das suas fronteiras, este é um conjunto de países
pobres e em crise, onde a própria união linguistica se encontra
posta em causa pelo assédio de que são alvo estas nações
pela francófonia, como a Guiné-Bissau e Cabo Verde, ou pela
língua inglesa, fazendo Moçambique parte da comunidade britânica
da Commonwealth. Existem instituições cuja existência
se encontra directamente ligada à defesa e promoção
além fronteiras da língua portuguesa, como a CPLP ou o Instituto
Camões, no entanto, a falta de dinamismo da CPLP é gritante,
para além de ter uma gestão pouco clara, enquanto que o
Instituto Camões, para além de acumular as mesmas preocupações
da anterior, demonstra uma clara incapacidade de gestão das responsabilidades
já assumidas quanto à divulgação da língua
portuguesa onde o seu ensino é desejado. Portugal, que foi cabeça
do império, apresenta-se hoje como um país pequeno e pobre
sem autoridade ou capacidade de liderança, projectando a sua presença
no mundo lusófono através de uma cooperação
de dador a fundo perdido de onde retira poucas mais valias. Há
assim que perguntar se o mundo em Português está ameaçado?
Se irá Portugal "perdê-lo" para a francófonia
ou anglófonia ou conseguirá, por outro lado, criar sinergias
com estas nações num reforço de um bloco lusófono? Cultura e Educação Apesar de Portugal possuir
nomes de relevo em diversas áreas da cultura, não se pode
dizer que haja associação entre estas entidades e o seu
país de origem e sua cultura. Mesmo a falta de coordenação
dos meios existentes, que não conseguem impor a marca Portugal
ao mundo, limitam a projecção da cultura nacional e colocam
em risco a manutenção do património já existente
além fronteiras. Estas obras, fruto de 500 anos de presença
portuguesa no mundo e agora em risco de degradação por falta
de fundos para a sua recuperação, têm visto a salvação
muito à conta de iniciativas privadas, destacando-se neste ponto
os esforços empreendidos pela Fundação Caloust Gulbenkian.
Assim, como definir o actual património cultural português
e qual o modo de como ele se projecta interna e externamente? Estará
este património condenado a ficar assente individualmente nas pessoas
que praticam e se desenvolvem nas artes, nas ciências, ou em outras
tão variadas áreas? Plano Económico É um facto que, a nível
de infra-estruturas, Portugal possui más vias rodoviárias
e ferroviárias, que os portos marítimos são ineficientes
e estão mal equipados e ainda que temos aeroportos bastante caros
e estrategicamente subaproveitados. É também um facto que
possuímos mão-de-obra pouco qualificada, mal paga, com muitas
horas de trabalho, desmotivada e pouco produtiva, o que aliado ao facto
de existirem muitos e elevados impostos provoca uma subida dos custos
de produção e uma consequente quebra na competitividade
dos produtos made in Portugal. Mesmo após a conclusão do
estudo encomendado ao Prof. Porter pelo então governo do Prof.
Cavaco Silva, parece não existir uma aposta nacional nos clusters
indicados nesse estudo, como os têxteis, os vinhos ou a construção
naval, estando estes ameaçados por países terceiros com
custos de produção mais baixos. Posto isto, não seria
mais proveitoso apostar em áreas de futuro como as telecomunicações,
informática ou biotecnologia? Ou ainda, apostar na educação
como base para uma estratégia nacional nestas áreas? |
Nuno
Mendes |
Licenciado
em Relações Internacionais |