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Pela primeira vez,
a direcção do CIARI distribuiu previamente pelos participantes
um texto que serviria de base para a XV Tertúlia. Texto este escrito
pelo antigo Ministro da Educação Roberto Carneiro com o
título "Choque de Culturas ou Hibridação Cultural?".
Infelizmente o texto foi pouco
referido tal como as questões por ele levantadas. Talvez por isso,
e também devido à vastidão do tema, a tertúlia
percorreu normalmente percursos paralelos e com pouca direcção.
Houve algumas discussões em torno de definições que
ficaram por realizar, o que impediu por vezes que todos os participantes
partissem dos mesmos pressupostos.
O primeiro ponto de debate foi a própria noção de
cultura, mais propriamente a cultura portuguesa. Apesar de ter sido afirmado
que não existiria identidade nacional e que a diversidade regional
seria um exemplo disso, que o que nos "unia" era apenas e tão
só a fronteira física e que apenas a comunicação
social tinha criado essa noção de identidade, rapidamente
o consenso chegou à evidência da existência da tal
identidade nacional.
Apesar de esta não ser estanque, e de estar cada vez mais a perder
o seu tronco comum e coesão devido ao liberalismo (conceito curiosamente
muito usado no debate) e de haver até um certo desenraizamento,
é um facto que Portugal foi o primeiro Estado-Nação
da Europa, servindo ainda hoje como definição do conceito
de Estado-Nação. Existe o 'ser português'.
Tentando apontar ao tema do debate tocou-se no confronto cultural, entre
as 'elites puras' e as 'elites híbridas', sublinhando contudo que
as trocas culturais são sinónimo de riqueza cultural. Como
mecanismo impulsionador deste confronto foram apontados o neoliberalismo
e a abertura de fronteiras, cabendo ao Estado o papel regulador da imigração,
que é claramente uma potencial fonte de choques. Desde que regulada,
a imigração não parece causar qualquer tipo de receios.
Cabe ao Estado também regular o liberalismo estabelecendo 'quotas
para o McDonalds', para assegurar as raízes históricas,
sem as quais perder-se-ia a identidade e a diversidade dos povos. Por
outro
lado, o liberalismo e o sistema político vigente não protegem
as minorias culturais. A cultura homogénea filtra a entrada de
influências das minorias para a esfera pública.
Foi feita a importante distinção de dois pontos de vista
sobre os choques de culturas, a do Estado (já discutida) e a do
indivíduo. Do ponto de vista deste último, ele está
aberto a todo o tipo de influências, não vendo nisso qualquer
problema de diversidade ou de standardização. Ele é
único não entrando numa definição abstracta.
Parafraseando o texto do Professor Roberto Carneiro 'O que é o
europeu muçulmano? O chinês cristão?'.
As pessoas são culturalmente
híbridas voluntariamente, em contraste com os Estados que querem
manter a matriz de identidade dum povo.
Tocando directamente na "Portugalidade" foi questionada a sua
essência, se seria ela racional ou afectiva, tendo rapidamente sido
aceite a última, sendo então a sua diluição
mais clara. Talvez venha daí a crise do Estado-Nação,
de que o crescimento da abstenção é um exemplo, devido
ao afastamento do indivíduo do sentimento de ser português
e de ser parte dum todo. O ensino terá um papel fundamental para
evitar esta situação, de modo a que as róximas gerações
saibam o que é 'ser potuguês' e até 'ser europeu'.
De seguida foi analisado o papel da classe política na problemática
do choque cultural, tendo sido logo apontada a falta de sensibilidade
para a defesa das minorias étnicas e culturais como forma de preservar
a variedade. Foi referida mais uma vez a dicotomia entre 'elites puristas'
que defendem e representam o Estado, e são as únicas capazes
de integrar, de preservar a paz social e dar aos indivíduos o poder
de decisão, e 'elites híbridas' que sendo claramente neo-liberais
defendem um Estado-Empresa, onde os cidadãos passam a funcionários,
onde há exclusão social. Apenas as primeiras serão
capazes de manter a diversidade cultural. Para que haja integração
é necessário algo, como um conjunto de valores e padrões
morais, pressupostos, etc... sobre o qual as pessoas se possam integrar.
Cabe então ao Estado providenciar as condições necessárias.
De novo o exemplo da abstenção,
neste caso dos imigrantes portugueses em França que provam a inexistência
deste "algo" que os ligue à sociedade acolhedora.
Outro exemplo, ligado a este, é o nascimento da política
paralela, com as suas novas formas de participação que decorrem
do pós-materialismo da sociedade industrial.
A única solução (do ponto de vista político-estatal,
mas também a única possível) passa pelo desenvolvimento
sustentado a nível global, já que é o interesse económico
que faz gerar as migrações e as desigualdades económicas
internacionais que provocam o domínio cultural, ambos inimigos
da preservação da diversidade cultural.
É curioso referir que a diversidade e a riqueza cultural foram
dadas como um bem a preservar por todos os participantes - implicitamente
já que o assunto não foi levantado - nunca tendo aparecido
nenhuma opinião ligeiramente discordante.
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