15ª Tertúlia - Confronto de Valores e Hibridação Cultural

Lisboa, 23 de Junho de 2002

Propósito da Tertúlia
Fotografias da Tertúlia
Moderação: Sara Marques
Redacção da Acta: Miguel Atanásio Carvalho
 

Pela primeira vez, a direcção do CIARI distribuiu previamente pelos participantes um texto que serviria de base para a XV Tertúlia. Texto este escrito pelo antigo Ministro da Educação Roberto Carneiro com o título "Choque de Culturas ou Hibridação Cultural?".

Infelizmente o texto foi pouco referido tal como as questões por ele levantadas. Talvez por isso, e também devido à vastidão do tema, a tertúlia percorreu normalmente percursos paralelos e com pouca direcção. Houve algumas discussões em torno de definições que ficaram por realizar, o que impediu por vezes que todos os participantes partissem dos mesmos pressupostos.
O primeiro ponto de debate foi a própria noção de cultura, mais propriamente a cultura portuguesa. Apesar de ter sido afirmado que não existiria identidade nacional e que a diversidade regional seria um exemplo disso, que o que nos "unia" era apenas e tão só a fronteira física e que apenas a comunicação social tinha criado essa noção de identidade, rapidamente o consenso chegou à evidência da existência da tal identidade nacional.
Apesar de esta não ser estanque, e de estar cada vez mais a perder o seu tronco comum e coesão devido ao liberalismo (conceito curiosamente muito usado no debate) e de haver até um certo desenraizamento, é um facto que Portugal foi o primeiro Estado-Nação da Europa, servindo ainda hoje como definição do conceito de Estado-Nação. Existe o 'ser português'.
Tentando apontar ao tema do debate tocou-se no confronto cultural, entre as 'elites puras' e as 'elites híbridas', sublinhando contudo que as trocas culturais são sinónimo de riqueza cultural. Como mecanismo impulsionador deste confronto foram apontados o neoliberalismo e a abertura de fronteiras, cabendo ao Estado o papel regulador da imigração, que é claramente uma potencial fonte de choques. Desde que regulada, a imigração não parece causar qualquer tipo de receios. Cabe ao Estado também regular o liberalismo estabelecendo 'quotas para o McDonalds', para assegurar as raízes históricas, sem as quais perder-se-ia a identidade e a diversidade dos povos. Por outro
lado, o liberalismo e o sistema político vigente não protegem as minorias culturais. A cultura homogénea filtra a entrada de influências das minorias para a esfera pública.
Foi feita a importante distinção de dois pontos de vista sobre os choques de culturas, a do Estado (já discutida) e a do indivíduo. Do ponto de vista deste último, ele está aberto a todo o tipo de influências, não vendo nisso qualquer problema de diversidade ou de standardização. Ele é único não entrando numa definição abstracta. Parafraseando o texto do Professor Roberto Carneiro 'O que é o europeu muçulmano? O chinês cristão?'.

As pessoas são culturalmente híbridas voluntariamente, em contraste com os Estados que querem manter a matriz de identidade dum povo.
Tocando directamente na "Portugalidade" foi questionada a sua essência, se seria ela racional ou afectiva, tendo rapidamente sido aceite a última, sendo então a sua diluição mais clara. Talvez venha daí a crise do Estado-Nação, de que o crescimento da abstenção é um exemplo, devido ao afastamento do indivíduo do sentimento de ser português e de ser parte dum todo. O ensino terá um papel fundamental para evitar esta situação, de modo a que as róximas gerações saibam o que é 'ser potuguês' e até 'ser europeu'.
De seguida foi analisado o papel da classe política na problemática do choque cultural, tendo sido logo apontada a falta de sensibilidade para a defesa das minorias étnicas e culturais como forma de preservar a variedade. Foi referida mais uma vez a dicotomia entre 'elites puristas' que defendem e representam o Estado, e são as únicas capazes de integrar, de preservar a paz social e dar aos indivíduos o poder de decisão, e 'elites híbridas' que sendo claramente neo-liberais defendem um Estado-Empresa, onde os cidadãos passam a funcionários, onde há exclusão social. Apenas as primeiras serão capazes de manter a diversidade cultural. Para que haja integração é necessário algo, como um conjunto de valores e padrões morais, pressupostos, etc... sobre o qual as pessoas se possam integrar. Cabe então ao Estado providenciar as condições necessárias.

De novo o exemplo da abstenção, neste caso dos imigrantes portugueses em França que provam a inexistência deste "algo" que os ligue à sociedade acolhedora.
Outro exemplo, ligado a este, é o nascimento da política paralela, com as suas novas formas de participação que decorrem do pós-materialismo da sociedade industrial.
A única solução (do ponto de vista político-estatal, mas também a única possível) passa pelo desenvolvimento sustentado a nível global, já que é o interesse económico que faz gerar as migrações e as desigualdades económicas internacionais que provocam o domínio cultural, ambos inimigos da preservação da diversidade cultural.
É curioso referir que a diversidade e a riqueza cultural foram dadas como um bem a preservar por todos os participantes - implicitamente já que o assunto não foi levantado - nunca tendo aparecido nenhuma opinião ligeiramente discordante.

Miguel Atanásio Carvalho
Licenciado em Engenharia Física
 

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