| 12ª Tertúlia - A Nova Política Externa Norte-Americana |
Lisboa, 23 de Abril de 2002 |
| Fotografias da Tertúlia |
| Moderação: Nuno Mendes |
| Redacção da Acta: Nuno Coelho e Mário Almendra |
| Os Estados Unidos da América saíram da Guerra Fria como única superpotência no Sistema Internacional (SI). O colapso da URSS e do bloco de Leste deixaram caminho livre para um novo sistema internacional marcado pela unipolaridade. Mais de uma década
passada esta realidade continua a ser válida, ou pelo menos parcialmente
válida, atendendo a que são cada vez mais os autores que
defendem uma maior aproximação a um sistema unimultipolar.
Esta realidade por si só seria suficiente para ser discutida: como a política externa do Estado mais poderoso do planeta. No entanto, o contexto que hoje se nos depara a nível internacional acrescenta motivos ainda mais válidos. O dia 11 de Setembro de 2001 colocou em jogo novas variáveis, novos objectivos, novos medos, novas perguntas, novas respostas, para muitos um abrir de porta para um novo sistema internacional, com muitas alterações mas onde o jogador mais forte continua a ser o mesmo, agora com novas armas, novos objectivos e provavelmente com uma posição reforçada. Pelas razões apontadas a política externa americana foi o tema escolhido para debate na XII tertúlia organizada pelo CIARI. Ainda que o objectivo fosse uma discussão alargada sobre os mais diversos âmbitos da política externa norte-americana, inevitavelmente a discussão centrou-se primordialmente nas novas opções estratégicas do pós 11 de Setembro, essencialmente centradas no “combate ao terrorismo”. Desde o início do debate pareceu consensual que os acontecimentos de 11 de Setembro deram um novo impulso na política externa americana e como principal consequência o S.I. tornou-se mais unipolar. A discussão começou por centrar-se numa questão polémica. Como foi referido, a ideia de que o 11 de Setembro trouxe alterações na política externa norte-americana gerou consenso. No entanto, as diferenças surgiram quando foi lançada a ideia veiculada por alguns autores relativamente a uma cumplicidade americana activa nos trágicos acontecimentos. Ainda que com acesa troca de argumentos a maioria dos intervenientes recusou esta ideia e apontou como pouco credíveis os testemunhos que defendem a referida posição. Por seu turno os defensores da chamada “teoria da conspiração”, sem pretenderem apresentar como dado adquirido a ideia defendida, alertaram para algumas incoerências e procuraram despertar a curiosidade dos mais cépticos numa perspectiva de não considerar como inquestionável uma versão que é veiculada pela maioria e também numa lógica de questionar sempre a “verdade” que é transmitida ou mesmo impingida. Ainda assim, para a maioria das presentes não foi sequer equacionada uma eventual cumplicidade americana nos atentados, com objectivos estratégicos alargados nomeadamente ao nível de política externa. No que diz respeito à consolidação da posição norte-americana no sistema internacional, esta mereceu consenso generalizado. Num período que muitos apelidam de transição e de crescente perda de influência americana no mundo, a reacção americana ao 11 de Setembro veio contradizer essa tendência. Uma das ideias que maior consenso gerou diz respeito à influência conquistada pelos EUA na região da Ásia Central, região de vital importância geoestratégica, especialmente no que diz respeito ao controlo de fontes de energia aí existentes. O petróleo tem aqui um papel fundamental enquanto fonte de energia, sendo disputada não só a influência sobre a sua posse mas também sobre o seu transporte até ao Ocidente. Neste contexto foi partilhada a ideia de que mais do que a luta contra o terrorismo uma das intenções subjacentes à intervenção americana no Afeganistão é precisamente a importância do território afegão no contexto da “geopolítica do petróleo”. Foi também focada a importância da entrada norte-americana numa zona da Ásia Central onde, antes dos acontecimentos do 11 de Setembro, seria impensável essa presença militar em larga escala. Essa presença é legitimada pela generalidade dos países da comunidade internacional, com particular relevo para a Rússia. Em termos de política externa esta realidade constitui uma importante vitória americana que consolidou a sua posição no sistema internacional. Não deixou de ser abordada a possibilidade de novas intervenções americanas em outras áreas do globo, posição essa que tem sido frequentemente anunciada pelas autoridades americanas. A ideia de que futuras intervenções, mais ou menos legítimas, irão ocorrer, foi quase generalizada, ao abrigo desta nova doutrina, de “combate ao terrorismo”, na política externa norte-americana. Em termos de economia foi muito debatida a importância das multinacionais norte-americanas, enquanto braço económico ao serviço da política externa. A linha de discussão centrou-se na maior ou menor importância das multinacionais enquanto veiculo exportador de valores subjacentes aos interesses norte-americanos em termos de política externa. Daí resultando a ideia, que um modelo de política externa baseado numa relação tentacular através das multi e transnacionais poderia resultar melhor, ou pelo menos atingir maior sucesso, pois assim o modelo de “soft power” já diversas vezes implementado e com sucesso, seria de alguma forma o caminho a seguir, e não tanto pela via da declaração de guerra. Por outro lado a política externa norte americana esteve sempre muito limitada por dois vectores muito importantes; por um lado as multinacionais e por outro as industrias de guerra norte americanas. Desta forma desde logo, os acontecimentos de 11 de Setembro relevaram em primeiro plano a vontade de defender o território nacional, atacando o inimigo (Afeganistão – Al Qaeda) e por outro lado as questões que têm a ver com as multinacionais, ou seja a crise internacional que se tem vindo a declarar, e a possível recessão. Logo, havia que inverter este contexto, criando instabilidade no S.I. e dando claros sinais que quem estiver com os EUA está protegido. Por outro lado, isto não se veio a demonstrar uma vez que a U.E encetou negociações com os EUA a fim de estabelecer uma política de importações face ao aço, já que os EUA deixaram de importar limitando as quantidades importadas. Um dos últimos pontos de debate, ainda directamente relacionado com os acontecimentos de 11 de Setembro, diz respeito à internacionalização dos valores ocidentais e à rejeição destes por parte de alguns países na sua maioria de raiz islâmica. A política externa norte-americana parece dirigir-se contra todos aqueles que não a aceitem e evidenciem manifestações contra os valores ocidentais, ainda que esse conceito não esteja definido com exactidão. Para muitos dos participantes a definição da política externa norte-americana numa base maniqueísta - “ou estão connosco ou estão contra nós” - poderá ser perigosa num futuro próximo, no sentido em que até a própria Europa poderá criar animosidade, tendo sido brevemente abordadas as posições radicais e unilaterais dos EUA em áreas como o ambiente e o Tribunal Penal Internacional (TPI). O debate chegou ao final com uma grande conclusão de fundo: a política externa norte-americana reveste-se de grande complexidade e diversidade, sendo por isso difícil num único e limitado espaço de debate dissecá-la em pormenor. Muitas áreas ficaram por abordar, e foi consensual que a discussão ficou claramente limitada pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001. |
Nuno
Coelho |
Licenciado
em Relações Internacionais |
Mário
Almendra |
Pós-Graduado
em Relações Económicas Internacionais |
Licenciado
em Relações Internacionais |