10ª Tertúlia - A Religião e as Relações Internacionais

Lisboa, 18 de Fevereiro de 2002

Fotografias da Tertúlia
Moderação: Nuno Coelho
Redacção da Acta: Sílvia Duarte Silva
 

A X tertúlia assinala o 1º aniversário do CIARI e ao mesmo tempo o debate de um tema polémico, lato e abrangente. É difícil fazer-se uma análise neutra e objectiva quando estão em jogo valores morais. No entanto procurou-se estabelecer um espírito neutral e tolerante, que deve caracterizar a análise internacional em temas tão delicados e complexos como este.

Esta Tertúlia teve como ponto de partida as implicações actuais da Religião nas Relações Internacionais. Na verdade "O Dilema das religiões e da guerra a partir de 11 de Setembro ganhou particular papel", com toda a mediatização em torno dos ataques alegadamente prepretados por fundamentalistas islâmicos, sobressaiu o prenúncio de uma guerra santa entre o Islão e o ocidente cristão, onde é traçada uma linha ténue entre o Terrorismo e a Religião.

Apesar de ser a imagem que nos deixam transparecer, a verdade é que não podemos ver a situação desta perspectiva , o bem de um lado e o mal do outro ou vice versa. Há que ter em conta ambas as partes. Tudo depende da forma como a religião é interpretada, acontece que muitas vezes a Religião é manipulada pelo poder. De uma forma geral a Religião aparece mais como um factor desencadeador de conflitos, do que como a causa dos mesmos. Segundo Sammuel Huntington "É necessário distinguir claramente a mensagem religiosa e a utilização política que dela é feita."
Através do pretexto religioso conseguem-se movimentar interesses a favor de um objectivo. Através da comunicação social foi possível transformar um conflito de interesses em conflito religioso na sequência dos atentados de 11 de Setembro.

A religião é um importante condutor de massas, é através da fé que se consegue movimentar a população numa direcção , pacífica ou não, daí a sua importância para as Relações Internacionais, daí a instrumentalização da religião pelo Estado, a Religião pode separar-se do Estado, mas o Estado não se pode separar da Religião. Esta condiciona o poder, constituindo uma componente fundamental das Relações Internacionais.

Associar a Religião a civilizações ( cultura, idioma, etnia), ajuda a compreender o seu papel nas Relações Internacionais. As religiões estiveram desde sempre associadas ao contexto geopolítico, servissem objectivos políticos ou tenham mesmo sido utilizados pelo poder. Actualmente a população distribui-se por diversas crenças, os próprios campos religiosos estão fragmentados.

Uma questão geradora de alguns equívocos refere-se à carência económica como um factor de influência religiosa. Podemos constatar que o factor económico não é determinante, não são só os Estados mais carenciados que se deixam influênciar pelos movimentos radicais religiosos. As divergências entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte é exemplo disso.

Bastante interessante foi também uma ideia defendida nesta tertúlia, em que a ciência surge por oposição á religião, a ciência como razão que só está ao alcance de alguns, enquanto que a fé está ao alcance de todos. É importante analisar a questão nesta perspectiva, no sentido em que a ignorância, o analfabetismo, e a cultura, embora não sejam determinantes, são factores a ter em conta para a disseminação de seitas pelo poder de influência de algumas elites. Muitas regiões do mundo são caracterizadas por um profundo atraso económico e cultural, onde a ciência e o conhecimento não tem praticamente lugar. Onde a única resposta para os factos existentes consiste na explicação divina. A arma mais eficaz das elites no poder consiste na utilização da religião em prol de outros interesses, através da criação de movimentos fundamentalistas.

Que futuro podemos perspectivar para a Religião e as Relações Internacionais?
Poderemos considerar a substituição da Religião pelo consumismo nas sociedades ocidentais. Terá vindo a globalização atenuar o choque de civilizações de que nos fala Sammuel Huntington? Estará o Catolicismo a caminho de implodir, ou terá de sofrer uma reforma radical? A estas e outras questões respondemos com uma conclusão, a religião continua e continuará a ser uma importante condicionante das Relações Internacionais, pelo menos enquanto a Ciência e a Razão não conseguirem explicar os actos do Homem.

Sílvia Duarte Silva
Licenciada em Relações Internacionais
 

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