9ª Tertúlia - O Iraque 11 anos depois
Lisboa, 22 de Janeiro de 2002
Fotografias da Tertúlia
Moderação: Nuno Coelho
Redacção da Acta: Nuno Batista Jorge
 

Foi este o sugestivo título da IX Tertúlia do CIARI realizada em 22 de Janeiro de 2002, em Lisboa.

Relembrar um conflito que para muitos analistas internacionais marcou o fim da guerra fria e o início de um outro sistema que tem sido na última década baptizado de diversas formas é, sem dúvida alguma, um exercício complexo que tem de ter em conta factos e condicionantes diversificadas.

Dois dos principais pontos de partida para esta iniciativa do CIARI foram, por um lado, reflectir, passado um tempo considerável, o que foi a guerra do golfo e a mediática operação de tempestade do deserto, e, por outro lado, analisar se o Iraque é, de facto, um próximo alvo americano nesta pseudo-aliança mundial de luta ao terrorismo que marca o início deste novo século.

Passados onze anos, a guerra do golfo deixou-nos na memória três ou quatro ideias fundamentais.

Em primeiro lugar, a mediatização ocorrida em torno do conflito - foi a primeira guerra em directo e transmitida para todo o mundo por uma estação televisiva americana que se tornou num dos grandes gigantes da comunicação global, a CNN (Cable Network News).

A partir da guerra do golfo nasce o paradigma da "febre do directo" que é hoje imagem de marca evidente da generalidade das televisões do países do mundo ocidental.

A guerra é um espectáculo e para isso interessa ter jornalistas em toda a parte para captar, em real time, todas as emoções de todos os actores. Os intervalos que o novelístico telejornal faça são pagos a peso de ouro pelas grandes multinacionais mundiais.

Em segundo lugar, guarda-se na memória a catástrofe ambiental que resultou das destruições que foram feitas nas refinarias petrolíferas do Kuwait junto ao golfo pérsico pelas forças iraquianas quando estas foram obrigadas a sair do território invadido. Milhares de espécies animais morreram e o eco-sistema daquela região ficou desequilibrado para os próximos anos.

Por outro lado, com este conflito os EUA afirmam a sua preponderância à escala mundial e sob diversas formas: ao nível político-diplomático, ao nível militar e ao nível teconológico-mediático.

Ao nível político-diplomático é indiscutível o controlo que os EUA fizeram sobre a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança da ONU. O poder económico e financeiro que os EUA, e os organismos internacionais controlados por este Estado, foram úteis para comprar votos e trocar influências. O gélido unanimismo gerado em torno desta intervenção fez com que a guerra se transformasse num manicaísmo mais óbvio que o próprio sistema da guerra fria - os iraquianos são os "maus" de uma guerra e o seu líder, Saddam Hussein, é a personagem que veste a pele do diabo.

Ao nível militar, os EUA mostraram o que melhor têm em termos de forças aéreas e navais e, em terra, quiseram transmitiram que têm soldados preparados para quaisquer territórios, independentemente das condições meteorológicas e geológicas.

A guerra do golfo é uma subtil afirmação do poderia americano junto dos seus óbvios adversários mundiais; subtil, porque não encetou nunca uma explícita guerra contra os blocos políticos que não usam o paradigma capitalista e liberal de que os EUA são líderes. A União Soviética estava numa enorme confusão e, à deriva, aguardava a sua completa desagregação. A República Popular da China imprimia ténues reformas económicas e resguardava-se em si própria para não ser confrontada pela moral mundial pelos acontecimentos de Tiannamen.

Ao nível tecnológico-mediático, os EUA afirmam-se na vanguarda de uma nova cultura à escala mundial em que as tecnologias de informação são peça chave. O sector da comunicação social acentuou-se como um novo poder junto dos políticos e perante a política. Manipularam-se imagens e educou-se uma opinião pública global em torno das ideias e opiniões que os líderes queriam que essa opinião pública tivesse - surge o termo "teatralização da guerra".

" É possível que tenha assistido a alguma realidade da Guerra do Golfo, mas seguramente a Guerra do Golfo foi para a opinião pública mundial, a teatrologia adoptada e transmitida pelas cadeias dominantes do audiovisual"

Adriano Moreira


Finalmente, outra das ideias fundamentais que se guarda, onze anos depois, é de um choque cultural entre o Ocidente e um Estado autocrático dominado por um líder político ditador. Durante a guerra e depois da guerra foram visíveis as crescentes violações dos direitos humanos, nomeadamente, com o extermínio da minoria curda.

O Iraque antes da guerra do golfo era dos Estados do Médio Oriente com um nível de vida mais satisfatório. À generalidade da população eram garantidos direitos sociais que a maioria dos Estados vizinhos não tinham. Todavia, ao mesmo tempo o Iraque sempre teve um regime militarista e autocrático - a liderança de Saddam Hussein mergulhou este Estado numa longa guerra com o vizinho Irão desde 1979. Durante anos os EUA apoiaram este regime e o seu líder - curioso é o facto de muito do armamento iraquiano foi "oferecido" pelos americanos.

Hoje discute-se que Saddam Hussein talvez achasse que os EUA seriam permissivos perante a anexação do Kuwait.
Há quem argumente que os EUA, que seguiam de perto o que se estava a passar na Europa de Leste, não temeriam o facto do Iraque, que na verdade era um aliado antigo, controlasse uma importante quota do mercado petrolífero mundial.

Saddam Hussein enganou-se e, nesta tertúlia do CIARI, foi praticamente unânime que os EUA, sob a presidência de George Bush, tomaram uma decisão racional quando em Janeiro de 1991 responderam militarmente com a "tempestade no deserto".

Onze anos depois o Iraque volta a ser um dos Estados de maior atenção da a comunidade internacional. Dois motivos estão ligados: por um lado, a manutenção do embargo e das sanções, tão criticadas por certos Estados e certos sectores da opinião pública mundial; por outro lado, por manter-se neste Estado um líder que rejeita pertencer Pax Americana e com isto coloca em perigo o sistema internacional com os boatos que correm de produção de armas quimico-biológicas e apoio a grupos terroristas transnacionais.

A preponderância que os EUA têm na ONU fez com que se mantivessem as sanções ao Iraque durante toda a década de 90. Esta política fez com que o nível de vida da população iraquiana descesse radicalmente - daí discutir-se hoje se esta política levada a cabo pela comunidade internacional não esteja a prejudicar mais o próprio povo iraquiano do que as lideranças políticas deste país, lideranças essas que continuam a viver comodamente nas zonas mais ricas de Bagdad.

Os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 colocaram o regime do Iraque na lista negra da nova administração americana. W. Bush avisou logo de início que a luta ao terrorismo seria longa e em diversas frentes.

Quatro meses passados deste dia que mudou o mundo, ainda hoje se aguardam sinais sobre o que fazer com o Iraque. Continuará a ser preferível manter o status quo, isto é, o regime de Saddan? Ou será que, para a administração americana, o Iraque é uma das peças do puzzle que ainda não saiu do saco mas que, em qualquer momento, pode ganhar forma nesta longa guerra que se trava contra o terrorismo?

Nuno Batista Jorge
Licenciado em Relações Internacionais
 

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