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terceira tertúlia organizada pelo CIARI realizou-se em Lisboa,
em Junho, e teve como tema "Israel em Perigo de Guerra".
De acordo com a agenda
que foi elaborada, apontou-se desde o início que o objectivo central
do debate seria discutir a situação em Israel em particular
e o conflito israelo-árabe hoje, atendendo aos vários factores
em presença, que influenciam o desenvolvimento daquilo que todos
os dias acontece naquela região. Lançou-se o propósito
de analisar a situação actual em termos de legitimidade
das partes, a importância do factor religioso, a questão
da água, o factor económico e a análise dos apoios
internacionais em presença. Estes foram os propósitos introduzidos
para estimular e sustentar a discussão.
No final, uma parte do debate foi reservada para o vislumbrar de tendências
para o futuro.
O texto que apresentamos a seguir é um resumo do conjunto de intervenções
feitas pelos participantes na tertúlia.
A situação
actual e a legitimidade das partes
No que respeita à
atenção que é dada ao conflito israelo-árabe,
ela parece ser desproporcional à real importância do conflito.
Noutros conflitos onde o número de baixas é muito superior,
como no continente africano, certas zonas asiáticas e sul-americanas
- a Colômbia tem maior número de mortos - a atenção
não é tão intensa. Os EUA dão maior importância
porque é uma região petrolífera e porque o lobby
judaico tem um peso considerável na sociedade norte-americana.
A maior comunidade de judeus fora de Israel está a viver nos EUA,
e isso reflecte-se inevitavelmente na posição política
de Washington já que em termos de eleitorado contam muito. Basta
ver que em tempo de eleições cada candidato tende a ser
o mais pró-judeu possível.
No que respeita à
legitimidade, os palestinianos parece que têm à partida muito
mais legitimidade que os israelitas, mas está tudo nas mãos
destes para estabelecer a paz. Os palestinianos têm o direito a
constituir um Estado livre e independente, pois se é verdade que
a GB se dispôs pela Declaração Balfour a criar as
condições na Palestina para a criação de um
lar nacional judaico, Israel não cumpriu a sua parte e avançou
para o expansionismo. O Estado de Israel tem sido o contrário daquilo
que deveria ser, nomeadamente devido a esta característica de expansionismo.
Alguns justificam-na pela tentativa de criar uma zona de segurança
contra os árabes. Pode ser que a verdadeira razão diga respeito
à necessidade de manter a ideia de inimigo externo para manter
uma comunidade que poderia tender a desintegrar-se ou a diluir-se com
os árabes, pois não nos esqueçamos que a taxa de
natalidade dos árabes está a evoluir a um ritmo superior,
fazendo antever o perigo de a longo prazo os israelitas deixarem de ser
uma maioria no seu próprio Estado.
Quando Israel foi criado havia lá pessoas e havia propriedade privada,
no entanto foi logo adoptada uma política colectiva de imigração
forçada, uma política que forçou os árabes
a abandonar aquele território. Hoje em dia uma das grandes questões
é que os israelitas nunca vão aceitar o retorno nem o pagamento
das indemnizações aos árabes que foram expulsos pela
via da força.
A religião
No concernente à
religião, é um factor que leva a que haja uma identificação
facilitada do inimigo, muitas vezes impulsionando o fanatismo e a intolerância.
Mas não será pelo simples facto de se tratar de religiões
diferentes que as coisas não vão correr bem e que se possa
dizer que a religião é um factor impeditivo do alcance da
paz. Temos o caso da ex-Jugoslávia onde se verificou um momento
de quase aliança entre as diferentes religiões.
O que pode ser motivo de maior preocupação que a religião
é o equilíbrio de poderes em Israel. Há uma enorme
fragmentação dos grupos políticos com influência
na sociedade israelita, com muitas minorias representadas, e este cenário
é muito difícil de gerir. No entanto, tirando uma parte
ortodoxa que não cede a nada, a maioria dos partidos concorda com
o princípio da paz.
A questão
da água
A repartição
desigual da água é um problema deveras importante a ter
em conta no conflito. Os israelitas chegam a ter complexos desportivos
onde se verifica um esbanjar de água supérfluo enquanto
a poucos metros e do outro lado do arame farpado, se vêem famílias
palestinianas a viver em condições precárias.
Situação interna e lideranças
A ONU, na resolução
242 prevê o regresso às fronteiras de 1949 mas isso é
de todo impossível. Neste momento Israel está no top 30
dos países desenvolvidos e tem um alto rendimento per capita, e
um exército bem preparado. Israel não aceita devolver territórios
e Jerusalém tem ficado de fora dos acordos. Foram criados três
tipos de mandatos, alguns territórios eram cedidos aos palestinianos
mas estavam limitados em quase tudo, sendo que ao nível da segurança
Israel deteria o monopólio. Assim, os árabes a viver em
Israel não seriam iguais em direitos aos israelitas. Jerusalém
Leste deveria ter sido cedida à autoridade palestiniana e não
foi, mas se calhar é uma cidade que não deveria ser nem
capital de Israel nem da Palestina, deveria ser uma cidade universal.
As lideranças têm também um papel de monta. Ariel
Sharon foi quem, na fase de maior tensão, desencadeou o aumento
da violência ao visitar a mesquita que fica no grande muro, uma
coisa que segundo a lei islâmica é proibido, ou seja, um
não muçulmano entrar numa mesquita. Ele foi visitar a mesquita
e depois das eleições foi o primeiro a parar a construção
de colonatos em zonas críticas. Há um contra-senso. Há
é que saber se não será uma condição
ter na liderança uma pessoa que transmita uma imagem de não
tolerância e não cedência, para de facto ser essa pessoa
a tomar decisões e conseguir assim com essa imagem que os próprios
israelitas acreditem que ele não está a cederem questões
de segurança como é a questão dos colonatos. Sharon
foi o primeiro a diminuir a construção dos colonatos. Nem
Rabin nem Nethaniau nem Barak (foi no seu mandato que os colonatos mais
aumentaram) fizeram isto, e Sharon foi o primeiro a quebrar a tendência
e a diminuir a construção dos colonatos. Portanto uma hipótese
é que pode ser necessário alguém muito duro da parte
israelita para conciliar vários pontos. Não só a
questão interna a nível da estabilidade política,
mas a questão de ter autoridade para que ao nível da política
externa os israelitas confiem nas decisões tomadas. É uma
questão de reconhecimento, uma questão de legitimação
da autoridade e de representatividade do Estado.
Por outro lado, outra das razões porque o conflito continua são
os erros de percepção. Muitas vezes certos gestos de paz
geram reacções contrárias ao pretendido.
O Estado de Israel transmite uma ideia contrária aos fundamentos
da religião judaica e aos valores que regem o comportamento dos
judeus no mundo. Eles conseguiram conservar laços comuns, culturais,
religiosos, ainda que com alguns desvios entre eles e isto não
deixa de ser surpreendente. Conservaram isso com o sentido de missão
e tendo presente a ideia em todas as celebrações do Yom
Kippur "Para o ano em Israel", porque tinha mesmo de ser Israel.
Madagáscar também foi uma hipótese mas nem consideraram
aquele território como alternativa.
Economia
O Médio-Oriente
é uma região de fortes disparidades e Israel aparece nesta
região e assume-se como totalmente diferente dos seus vizinhos,
porque é industrializado, tem uma mão-de-obra qualificada
e umas Forças Armadas ultra modernas e porque adopta uma utilização
eficaz de todos os recursos. Um exemplo de sucesso é que têm
culturas agrícolas que nenhum dos vizinhos consegue fazer crescer
nos seus territórios. Parece haver um milagre económico.
Mas será mesmo milagre?
Provavelmente não é um milagre porque há um elevadíssimo
investimento económico norte-americano e sul-africano e porque
há um capital humano também elevadíssimo. É
preciso ter em conta que as pessoas que emigraram da Europa para Israel
não eram propriamente pessoas iletradas. O facto de terem boas
universidades, sobretudo em comparação com o resto da região,
deve-se ao facto de terem ido para lá já preparados e depois
porque a maioria dessas pessoas tem uma coisa que é a consciência
nacional, têm um sentido de nação. É quase
a transposição do que aconteceu na Alemanha do pós-guerra
em que todos os cidadãos dedicavam parte do seu tempo ao esforço
de reconstrução.
Até porque uma característica dos judeus é serem
empreendedores e organizados. Desde o Séc. III/XIV, quando se começaram
a instalar na Europa Central e de Leste, que já pertenciam a uma
classe média, média-alta. Os países estiveram em
posições próximas do topo nestes países, muito
próximos do poder real e responsáveis pelas funções
de cobrança dos impostos.
Os vizinhos não têm o espírito de missão que
têm os israelitas. Eles estão a construir um Estado e estão
dispostos a fazer sacrifícios e a trabalhar para isso. É
a isso que se deve o milagre económico, é ao espírito
de missão e à ideia de serem o povo eleito, ao capital humano
e ao apoio externo.
Política
Externa
Israel angaria a maioria
dos apoios. A OLP tinha anunciado que faria a declaração
de independência em Setembro de 2000 mas Arafat fez uma série
de viagens, teve encontros com vários chefes de Estado e de governo
em todo o mundo e viu-se obrigado a adiar essa declaração
sine die porque rapidamente percebeu que não tinha o apoio necessário.
Os EUA foram sempre mais próximos de Israel e sempre o serão,
e a razão é ao nível eleitoral em certos Estados
onde os votos dos judeus chega a ter um peso muito considerável.
Assim, dos EUA vem apoio ao nível da formação, vem
apoio militar, financeiro, tecnológico e uma posição
de privilégio nos meios de comunicação no sentido
de sustentar uma organizada campanha de imagem.
Com Nethaniau Israel fechou-se um pouco mas com Barak houve uma maior
abertura. O Papa visitou Israel e pediu perdão em nome da igreja
católica pelo colaboracionismo com os nazis. Este terá sido
um dos pontos altos daquele mandato.
O Futuro
Por enquanto e durante
alguns anos é provável que se mantenha uma certa conflitualidade.
Só quando Israel não tiver aquele receio acerca da sua própria
segurança, aí é que vamos ter grandes avanços
no sentido de Israel ceder em certos territórios em que não
entenda que isso signifique uma ameaça à sua própria
sobrevivência.
Mas não será num futuro tão próximo que se
conhecerá a estabilidade naquela zona mas tanto um povo como o
outro têm de perceber que vão ter de viver juntos e que têm
fronteiras comuns.
A médio/longo prazo algo terá de ser conseguido em relação
a Jerusalém. Se falarmos da viabilidade de um Estado palestiniano,
perceberemos que a Palestina não tem apoios internacionais e qualquer
declaração unilateral de independência não
será reconhecida. Em termos de viabilidade económica também
não há muita saída se não houver vontade e
consentimento da parte de Israel, que é quem tem o domínio
político e a supremacia militar. A Palestina não tem as
infra-estruturas necessárias e a ser independente será sem
dúvida um Estado enfraquecido.
Outras correntes dizem que o avanço para uma solução
pacífica só poderá passar por uma cedência
dos palestinianos a mais algumas exigências de Israel, provavelmente
ao nível dos territórios.
O futuro vai passar também muito pelas lideranças políticas
que Israel venha a ter nos próximos anos e por Israel encontrar
líderes com pragmatismo e uma actuação pautada pelo
realismo e com vontade de resolver pacificamente os problemas. Até
agora os governos têm procurado defender o interesse nacional mas
têm-no feito sem pensar nas gerações vindouras.
Quando a Palestina se constituir como Estado, e deverá haver um
momento em que isso vai acontecer, deverá haver um momento também
em que as duas partes vão decidir fazer a paz o que deverá
acontecer sob a pressão e/ou mediação internacional.
A mediação poderá ser a solução acertada
porque é ela que permite discutir uma necessária solução
conjunta para a região |