3ª Tertúlia - Israel em perigo de guerra
Lisboa, 22 de Junho de 2001
Fotografias da Tertúlia
Moderação: Nuno Batista Jorge
 

A terceira tertúlia organizada pelo CIARI realizou-se em Lisboa, em Junho, e teve como tema "Israel em Perigo de Guerra".

De acordo com a agenda que foi elaborada, apontou-se desde o início que o objectivo central do debate seria discutir a situação em Israel em particular e o conflito israelo-árabe hoje, atendendo aos vários factores em presença, que influenciam o desenvolvimento daquilo que todos os dias acontece naquela região. Lançou-se o propósito de analisar a situação actual em termos de legitimidade das partes, a importância do factor religioso, a questão da água, o factor económico e a análise dos apoios internacionais em presença. Estes foram os propósitos introduzidos para estimular e sustentar a discussão.
No final, uma parte do debate foi reservada para o vislumbrar de tendências para o futuro.
O texto que apresentamos a seguir é um resumo do conjunto de intervenções feitas pelos participantes na tertúlia.

A situação actual e a legitimidade das partes

No que respeita à atenção que é dada ao conflito israelo-árabe, ela parece ser desproporcional à real importância do conflito. Noutros conflitos onde o número de baixas é muito superior, como no continente africano, certas zonas asiáticas e sul-americanas - a Colômbia tem maior número de mortos - a atenção não é tão intensa. Os EUA dão maior importância porque é uma região petrolífera e porque o lobby judaico tem um peso considerável na sociedade norte-americana. A maior comunidade de judeus fora de Israel está a viver nos EUA, e isso reflecte-se inevitavelmente na posição política de Washington já que em termos de eleitorado contam muito. Basta ver que em tempo de eleições cada candidato tende a ser o mais pró-judeu possível.

No que respeita à legitimidade, os palestinianos parece que têm à partida muito mais legitimidade que os israelitas, mas está tudo nas mãos destes para estabelecer a paz. Os palestinianos têm o direito a constituir um Estado livre e independente, pois se é verdade que a GB se dispôs pela Declaração Balfour a criar as condições na Palestina para a criação de um lar nacional judaico, Israel não cumpriu a sua parte e avançou para o expansionismo. O Estado de Israel tem sido o contrário daquilo que deveria ser, nomeadamente devido a esta característica de expansionismo. Alguns justificam-na pela tentativa de criar uma zona de segurança contra os árabes. Pode ser que a verdadeira razão diga respeito à necessidade de manter a ideia de inimigo externo para manter uma comunidade que poderia tender a desintegrar-se ou a diluir-se com os árabes, pois não nos esqueçamos que a taxa de natalidade dos árabes está a evoluir a um ritmo superior, fazendo antever o perigo de a longo prazo os israelitas deixarem de ser uma maioria no seu próprio Estado.
Quando Israel foi criado havia lá pessoas e havia propriedade privada, no entanto foi logo adoptada uma política colectiva de imigração forçada, uma política que forçou os árabes a abandonar aquele território. Hoje em dia uma das grandes questões é que os israelitas nunca vão aceitar o retorno nem o pagamento das indemnizações aos árabes que foram expulsos pela via da força.

A religião

No concernente à religião, é um factor que leva a que haja uma identificação facilitada do inimigo, muitas vezes impulsionando o fanatismo e a intolerância. Mas não será pelo simples facto de se tratar de religiões diferentes que as coisas não vão correr bem e que se possa dizer que a religião é um factor impeditivo do alcance da paz. Temos o caso da ex-Jugoslávia onde se verificou um momento de quase aliança entre as diferentes religiões.
O que pode ser motivo de maior preocupação que a religião é o equilíbrio de poderes em Israel. Há uma enorme fragmentação dos grupos políticos com influência na sociedade israelita, com muitas minorias representadas, e este cenário é muito difícil de gerir. No entanto, tirando uma parte ortodoxa que não cede a nada, a maioria dos partidos concorda com o princípio da paz.

A questão da água

A repartição desigual da água é um problema deveras importante a ter em conta no conflito. Os israelitas chegam a ter complexos desportivos onde se verifica um esbanjar de água supérfluo enquanto a poucos metros e do outro lado do arame farpado, se vêem famílias palestinianas a viver em condições precárias.


Situação interna e lideranças

A ONU, na resolução 242 prevê o regresso às fronteiras de 1949 mas isso é de todo impossível. Neste momento Israel está no top 30 dos países desenvolvidos e tem um alto rendimento per capita, e um exército bem preparado. Israel não aceita devolver territórios e Jerusalém tem ficado de fora dos acordos. Foram criados três tipos de mandatos, alguns territórios eram cedidos aos palestinianos mas estavam limitados em quase tudo, sendo que ao nível da segurança Israel deteria o monopólio. Assim, os árabes a viver em Israel não seriam iguais em direitos aos israelitas. Jerusalém Leste deveria ter sido cedida à autoridade palestiniana e não foi, mas se calhar é uma cidade que não deveria ser nem capital de Israel nem da Palestina, deveria ser uma cidade universal.
As lideranças têm também um papel de monta. Ariel Sharon foi quem, na fase de maior tensão, desencadeou o aumento da violência ao visitar a mesquita que fica no grande muro, uma coisa que segundo a lei islâmica é proibido, ou seja, um não muçulmano entrar numa mesquita. Ele foi visitar a mesquita e depois das eleições foi o primeiro a parar a construção de colonatos em zonas críticas. Há um contra-senso. Há é que saber se não será uma condição ter na liderança uma pessoa que transmita uma imagem de não tolerância e não cedência, para de facto ser essa pessoa a tomar decisões e conseguir assim com essa imagem que os próprios israelitas acreditem que ele não está a cederem questões de segurança como é a questão dos colonatos. Sharon foi o primeiro a diminuir a construção dos colonatos. Nem Rabin nem Nethaniau nem Barak (foi no seu mandato que os colonatos mais aumentaram) fizeram isto, e Sharon foi o primeiro a quebrar a tendência e a diminuir a construção dos colonatos. Portanto uma hipótese é que pode ser necessário alguém muito duro da parte israelita para conciliar vários pontos. Não só a questão interna a nível da estabilidade política, mas a questão de ter autoridade para que ao nível da política externa os israelitas confiem nas decisões tomadas. É uma questão de reconhecimento, uma questão de legitimação da autoridade e de representatividade do Estado.
Por outro lado, outra das razões porque o conflito continua são os erros de percepção. Muitas vezes certos gestos de paz geram reacções contrárias ao pretendido.
O Estado de Israel transmite uma ideia contrária aos fundamentos da religião judaica e aos valores que regem o comportamento dos judeus no mundo. Eles conseguiram conservar laços comuns, culturais, religiosos, ainda que com alguns desvios entre eles e isto não deixa de ser surpreendente. Conservaram isso com o sentido de missão e tendo presente a ideia em todas as celebrações do Yom Kippur "Para o ano em Israel", porque tinha mesmo de ser Israel. Madagáscar também foi uma hipótese mas nem consideraram aquele território como alternativa.

Economia

O Médio-Oriente é uma região de fortes disparidades e Israel aparece nesta região e assume-se como totalmente diferente dos seus vizinhos, porque é industrializado, tem uma mão-de-obra qualificada e umas Forças Armadas ultra modernas e porque adopta uma utilização eficaz de todos os recursos. Um exemplo de sucesso é que têm culturas agrícolas que nenhum dos vizinhos consegue fazer crescer nos seus territórios. Parece haver um milagre económico. Mas será mesmo milagre?
Provavelmente não é um milagre porque há um elevadíssimo investimento económico norte-americano e sul-africano e porque há um capital humano também elevadíssimo. É preciso ter em conta que as pessoas que emigraram da Europa para Israel não eram propriamente pessoas iletradas. O facto de terem boas universidades, sobretudo em comparação com o resto da região, deve-se ao facto de terem ido para lá já preparados e depois porque a maioria dessas pessoas tem uma coisa que é a consciência nacional, têm um sentido de nação. É quase a transposição do que aconteceu na Alemanha do pós-guerra em que todos os cidadãos dedicavam parte do seu tempo ao esforço de reconstrução.
Até porque uma característica dos judeus é serem empreendedores e organizados. Desde o Séc. III/XIV, quando se começaram a instalar na Europa Central e de Leste, que já pertenciam a uma classe média, média-alta. Os países estiveram em posições próximas do topo nestes países, muito próximos do poder real e responsáveis pelas funções de cobrança dos impostos.
Os vizinhos não têm o espírito de missão que têm os israelitas. Eles estão a construir um Estado e estão dispostos a fazer sacrifícios e a trabalhar para isso. É a isso que se deve o milagre económico, é ao espírito de missão e à ideia de serem o povo eleito, ao capital humano e ao apoio externo.

Política Externa

Israel angaria a maioria dos apoios. A OLP tinha anunciado que faria a declaração de independência em Setembro de 2000 mas Arafat fez uma série de viagens, teve encontros com vários chefes de Estado e de governo em todo o mundo e viu-se obrigado a adiar essa declaração sine die porque rapidamente percebeu que não tinha o apoio necessário.
Os EUA foram sempre mais próximos de Israel e sempre o serão, e a razão é ao nível eleitoral em certos Estados onde os votos dos judeus chega a ter um peso muito considerável. Assim, dos EUA vem apoio ao nível da formação, vem apoio militar, financeiro, tecnológico e uma posição de privilégio nos meios de comunicação no sentido de sustentar uma organizada campanha de imagem.
Com Nethaniau Israel fechou-se um pouco mas com Barak houve uma maior abertura. O Papa visitou Israel e pediu perdão em nome da igreja católica pelo colaboracionismo com os nazis. Este terá sido um dos pontos altos daquele mandato.

O Futuro

Por enquanto e durante alguns anos é provável que se mantenha uma certa conflitualidade.
Só quando Israel não tiver aquele receio acerca da sua própria segurança, aí é que vamos ter grandes avanços no sentido de Israel ceder em certos territórios em que não entenda que isso signifique uma ameaça à sua própria sobrevivência.
Mas não será num futuro tão próximo que se conhecerá a estabilidade naquela zona mas tanto um povo como o outro têm de perceber que vão ter de viver juntos e que têm fronteiras comuns.
A médio/longo prazo algo terá de ser conseguido em relação a Jerusalém. Se falarmos da viabilidade de um Estado palestiniano, perceberemos que a Palestina não tem apoios internacionais e qualquer declaração unilateral de independência não será reconhecida. Em termos de viabilidade económica também não há muita saída se não houver vontade e consentimento da parte de Israel, que é quem tem o domínio político e a supremacia militar. A Palestina não tem as infra-estruturas necessárias e a ser independente será sem dúvida um Estado enfraquecido.
Outras correntes dizem que o avanço para uma solução pacífica só poderá passar por uma cedência dos palestinianos a mais algumas exigências de Israel, provavelmente ao nível dos territórios.
O futuro vai passar também muito pelas lideranças políticas que Israel venha a ter nos próximos anos e por Israel encontrar líderes com pragmatismo e uma actuação pautada pelo realismo e com vontade de resolver pacificamente os problemas. Até agora os governos têm procurado defender o interesse nacional mas têm-no feito sem pensar nas gerações vindouras.
Quando a Palestina se constituir como Estado, e deverá haver um momento em que isso vai acontecer, deverá haver um momento também em que as duas partes vão decidir fazer a paz o que deverá acontecer sob a pressão e/ou mediação internacional. A mediação poderá ser a solução acertada porque é ela que permite discutir uma necessária solução conjunta para a região

 

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