2ª Tertúlia - O Despertar da China
Lisboa, 25 de Maio de 2001
Fotografias da Tertúlia
Moderação: João Sobral
Redacção da Acta: Nuno Batista Jorge
 

No dia 25 de Maio de 2001 o Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais realizou a sua segunda tertúlia, em Lisboa, sobre a China, numa altura em que em muita comunicação social surgiam ainda histórias do caso do avião espião retido pelas autoridades chinesas e em que o processo diplomático entre os dois Estados foi todo menos cordial e pacífico.

Atendendo a este caso e a um conjunto diversificado de questões que envolvem hoje a República Popular da China, procedeu-se ao cumprimento de uma agenda centrada nos seguintes pontos de análise :
(1) A posição da República Popular da China no sistema internacional
(2) A questão de Taiwan
(3) Economia chinesa
(4) Projecção nacional e direitos humanos


"A China é uma potência que do ponto de vista geoestratégico está à longo tempo enclausurada. Está à procura de espaço para respirar e para esticar os músculos."

A nova hegemonia chinesa no continente asiático surge inquestionavelmente a partir da desagregação da União Soviética e da formulação do novo modelo chinês : um país com dois sistemas económicos distintos.
A elaboração do modelo "um país, dois sistemas" possibilitou uma nova relegitimação do "velho" poder político comunista, ao mesmo tempo que surgiu uma adaptação económica considerada por alguns radical e a implementação de uma política de reconquista ou de reintegração : primeiro com Macau, depois com Hong Kong, faltando apenas a integração de Taiwan.

A integração de Macau e de Hong Kong na República Popular da China (RPC) surge com uma naturalidade surrealista, ou seja, ao mesmo tempo que parece normal pela comunidade internacional a reintegração de territórios chineses administrados, ou governados, por ex-potências coloniais europeias durante os últimos séculos, nomeadamente Portugal e a Grã-Bretanha, assiste-se também ao facto de um mesmo Estado ter territórios radicalmente distintos do ponto de vista económico e social.
Actualmente, Hong Kong é uma região chinesa que continua a ser contabilizada individualmente pelo Relatório de Desenvolvimento Humano e que regista o 26º lugar no IDH. A RPC situa-se em 46º lugar. O bem estar da população chinesa que vive em Hong Kong é bastante superior aos chineses que vivem em Pequim e nas regiões interiores da RPC, com todas as consequências que estes desequilíbrios económicos e sociais implicam num Estado.

A RPC depois de ter integrado com pacífico sucesso estes dois últimos territórios tornou-se uma maior potência económico e comercial - basta relembrar as centenas de multinacionais que têm a sua sede em Hong Kong e os negócios que são feitos na península de Macau.
A administração Clinton observava este crescimento do protagonismo e da hegemonia chinesa de uma forma tolerante procurando sempre manter uma porta aberta para a cooperação e diálogo.
A anterior administração americana via a RPC como um parceiro.
Actualmente, a nova administração W. Bush alterou a perspectiva em relação à RPC e começou desde o início a vê-la como uma potência concorrencial.
O incidente causado pela queda e captura do avião americano pelas autoridades chinesas transformou-se em mais um dos vários desastres que a nova administração americana tem tido no continente asiático. Basta recordar um incidente entre o Japão e os EUA devido a um submarino americano que vigiava as costas japonesas e chocou com um navio japonês e, por outro lado, ao reacender de tensões entre as duas Coreias quando se pensaria que neste ano se implementariam novas fases de cooperação e entendimento.

As posições que os EUA, com esta nova administração, tiveram nestes três casos poderão ser vistas como uma forma desta potência hegemónica continuar a querer demonstrar os seus objectivos de liderança e influência política em todos os continentes e, sobretudo, na Ásia.
Alguns exemplos desta reafirmação da liderança americana na Ásia são perceptíveis na condução do processo do avião e no não pedido de desculpas por parte de W. Bush.
Os EUA apercebem-se do crescimento da RPC nos últimos anos e como tal pretendem demonstrar a suas capacidades de influência no sistema internacional, e a sua própria liderança.

Outro exemplo idêntico é a posição política dos EUA em relação à questão de Taiwan.
Semanas antes desta tertúlia a nova administração americana reafirmou a aliança estratégica que existe com Taiwan e a disponibilidade para defender este território caso hajam tentações chineses de ocupar esta ilha e proceder à sua reintegração na RPC.

A reintegração de Taiwan na RPC é apontada muitas vezes como uma inevitabilidade da história. A ilha está afastada da China desde 1948 o que em termos temporais é bastante pouco para ter cortado com os ancestrais laços sociais e culturais com os chineses do continente.
A noção do tempo para os chineses não tem qualquer orientação ocidental - o tempo na China passa devagar e os desenvolvimentos da política fazem-se com ponderação e prudência - as decisões não são tomadas com imediatismo e o factor mediático não existe na organização política e social chinesa.
A RPC tem uma estratégia política de agregação ou de reintegração de todos os territórios chineses à apenas algumas décadas e continuará a tê-la até agregar Taiwan, nem que este passo demore séculos a concretizar-se.
A idealização e agora a aplicação prática do modelo "um país, dois sistemas" é feita em adaptação com esta estratégia de reintegração. Este modelo serviu perfeitamente para encaixar Macau e Hong Kong e tendencialmente encaixará Taiwan, não se perdendo o desenvolvimento económico e tecnológico destes territórios.

Em relação à economia chinesa, assistiu-se nas últimas décadas a um forte crescimento económico em todo o litoral do território da RPC. Actualmente, algumas das regiões mais industrializadas da RPC estão envolvidas em projectos de construção civil dos mais inovadores e desenvolvidos do mundo.
Todavia, este crescimento económico foi desequilibrado e não abrange todas as regiões da China - muitos territórios permanecem subdesenvolvidos, com enormes carências que os tornam semelhantes às mais desérticas regiões de África ou às regiões pobres da Índia ou da Rússia.
O aumento destes desequilíbrios económicos e sociais fez com que se começassem a surgir tensões desintegradoras. Há quem apresente a desintegração chinesa como uma probabilidade viável nos próximos séculos.
Ao mesmo tempo, existem no continente asiático tendências para a integração regional, nomeadamente a AZEAN, a que a RPC não poderá ficar indiferente. A economia é cada vez mais global e as zonas mais industrializadas da RPC querem aderir depressa a este processo de globalização.
Contudo, os líderes políticos chineses sabem que se aderem ao processo da globalização muitas coisas tornar-se-ão incontroláveis e mesmo as regiões mais atrasadas da China vão sobre o impacto da abertura ao mundo.
Até então, o processo da globalização e os diversos elementos complementares que este fenómeno envolve, como por exemplo o desenvolvimento da internet, têm sido controlados e reprimidos pelo governo chinês. Na China as coisas processam-se ainda como o governo deseja - é uma situação que poderá manter-se ainda durante muitas décadas e que pode fazer com haja uma vasta região do mundo não seja engolida pelos ventos da globalização. Se tal acontecer poderá voltar a falar-se mesmo na existência de dois blocos antagónicos. Tudo a este respeito é ainda imprevisível, nada é linear.
Alguns estudos têm referido que num prazo de vinte anos a RPC ultrapassará o patamar de desenvolvimento económico americano - os EUA têm atendido a estes estudos e estão a utilizar o novo NMD para vergar a RPC a utilizar mais o seu orçamento em segurança e defesa e não tanto na expansão da economia.


" A noção de tempo para a China é totalmente diferente da americana. Quando se pergunta a um americano para citar um acontecimento histórico ele refere um dia específico ; quando um chinês descreve a sua história coloca-a numa dinastia. E das 14 dinastias imperiais, pelo menos 8 duraram mais do que toda a história dos EUA."

Henry Kissinger


Finalmente, em relação aos aspectos sociais e nacionais da RPC e do povo chinês consideram-se duas características relevantes : a cultura fechada que os habitantes chineses têm entre si e na relação com o mundo e, em segundo lugar, novas expressões do "novo" nacionalismo chinês.
O povo chinês mantém-se, na generalidade, fiel aos profundos valores e tradições chinesas que se transportam pela história à cerca de três milénios : a superficialidade da cultura americana não têm ainda uma adesão maciça pelos asiáticos, e concretamente pelos chineses, apesar de se viver num mundo globalizante e dos chineses serem o povo com maior diáspora em todo o mundo.
Algumas destas características estão integradas naquilo que hoje se refere a uma nova vaga, bastante activa, de exaltação da cultura mandarim e do nacionalismo chinês : são visíveis alguns sinais desta exaltação no desporto, na participação em eventos internacionais, na literatura e em diversificadas formas de manifestação artística e cultural.

Nuno Batista Jorge
Licenciado em Relações Internacionais
 

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