Mesa Redonda - Os atentados de Madrid
Lisboa, 18 de Abril de 2004
Fotografias da Mesa Redonda
Moderadorr: João Sobral
Redacção da Acta: Nuno Mendes
 
Os ataques terroristas do passado dia 11 de Março em Madrid motivaram este encontro extraordinário, tendo sido debatidas a forma como a Europa terá sido afectada (com especial atenção para a Espanha e para o seu processo eleitoral), a caracterização e razões basilares da existência desta forma de terrorismo, e ainda as respostas que tais ataques poderão e deverão suscitar, sendo avançadas algumas propostas para a erradicação desta forma de luta.

A Perspectiva Europeia dos Ataques
Com os atentados de Madrid deu-se a desmistificação de que os ataques visavam somente o “império”, os Estados Unidos. Até agora, o mito de uma Europa intocável era alimentado por uma politica externa fundada no diálogo. Foi precisamente o fim deste mito de intocabilidade que veio a relembrar a importância de uma necessidade já antiga, a necessidade de uma mais próxima coordenação dos serviços de segurança interna, que muitos julgaram serem desnecessários.
Existem duas imagens dominantes do enquadramento opinativo europeu no que se refere aos atentados terroristas: o apoio dado por diversos governos europeus a uma intervenção liderada pelos Estados Unidos e o embuste já confirmado das alegadas provas quanto à existência de armas de destruição maciça em território Iraquiano.
Relativamente a este último ponto, o sentimento de engano afecta não só os Estados Unidos mas sobretudo os governos europeus, uma vez que aos olhos dos europeus, os seus governos viraram costas a uma postura de não-alinhamento e ignoraram apelos quanto à falta de credibilidade dos argumentos norte-americanos e britânicos. Estas razões levam muitos a acreditar que só uma mudança de governo poderá prevenir a existência de ataques.

As Consequências Políticas do 11 de Março

O facto do ataque terrorista em Madrid ter ocorrido escassos três dias antes das eleições legislativas não terá sido inocente. Ainda assim, poderá a viragem à esquerda ser vista como a primeira batalha perdida na Guerra ao Terror? A inesperada derrota do PP poderá ser atribuída ao seu apoio à intervenção militar no Iraque? Ou, por outro lado, poderá dever-se à alegada manipulação dos média, numa frustrada tentativa de atribuir o atentado à ETA? Estará agora a Espanha mais protegida contra ataques terroristas de fundamentalistas islâmicos?

Se a intenção dos responsáveis pelo ataque era a obtenção de uma mudança na direcção da política externa espanhola, então fará todo o sentido afirmar que os seus objectivos foram atingidos. A opinião pública espanhola encontra-se hoje mobilizada em torno da expectativa de um regresso dos soldados estacionados no Iraque.

O governo socialista de Zapatero dificilmente achará sustentável uma oposição da opinião pública, sobretudo se tivermos em linha de conta a declaração das suas intenções ainda antes dos atentados e do processo eleitoral. Assim, este virar à esquerda pode ser tomado como uma derrota dos governos que se colocaram ao lado da intervenção no Iraque, ao mesmo tempo que é uma batalha ganha pelo grupo responsável pelos ataques terroristas.

Já quanto às razões para a derrota do PP, independentemente de ter ou não existido manipulação dos média, certo é que foi graças a um efeito de bola de neve e, sobretudo, graças à pressão imediata dos atentados, que a vitória do PSOE chegou pelas mãos dos potenciais abstencionistas e não tanto pela transferência de eleitores. Logo, mais correcto que apontar as razões da derrota do PP a uma ou a outra causa, será mais acertado apontar como responsável todo um conjunto singular de eventos que, por serem socialmente discutidos, alimentados e desmultiplicados, fizeram despoletar questões também elas gatilhos para o animar de massas até aí desinteressadas e afastadas do processo eleitoral.

Sejam quais forem as razões que levaram a este inesperado resultado, certo é que a generalidade dos espanhóis sente-se hoje mais segura, pelo que parece ter reconhecido a existência de um fio condutor entre o governo, a participação na Guerra ao Terror, a exposição de Espanha a ataques terroristas de fundamentalistas islâmicos e os ataques do dia 11 de Março. No entanto, é igualmente certo que existem diferenças evidentes entre o sentimento de segurança e a segurança de facto.

As pessoas, em geral, não compreendem a natureza deste fenómeno e a sua complexidade, e por isso chegam a conclusões e correlações baseadas em premissas simplistas. Ao fazê-lo, poderão confiar o poder a projectos políticos contrários aos reais interesses nacionais. Podem votar sistematicamente naqueles que entendam que a melhor prevenção é um afastamento dos Estados Unidos, sem no entanto entender que deste modo poderão estar a potenciar uma maior exposição à ameaça.

Não é exequível esperar que a salvação da velha Europa venha novamente do exterior, caso voltemos a cometer os mesmos erros de busca de compreensão e relativa indiferença face ao totalitarismo ao invés de combatê-lo activamente. Coloca-se pois o desafio às democracias ocidentais de serem firmes e dos partidos políticos não usarem o terrorismo como campo de luta, mas sim de consenso.

Os Propósitos Últimos dos Atentados

A Espanha continua tão exposta a novos atentados quanto o está qualquer outro país do mundo. A associação da França à “lista negra” de potenciais alvos a ataques terroristas, ainda que esta não tenha apoiado a intervenção militar no Iraque constitui prova desta asserção. Do mesmo modo, os ataques na Tunísia e em Marrocos, mesmo que a interesses estranhos aos muçulmanos, demonstram que os ataques não seguem um padrão objectivo. Em última instância, admitindo a existência de um plano para as acções terroristas, o objectivo final bem pode ser a islamização de todo o mundo à luz dos ensinamentos wahabitas, doutrina do Islão seguida pela generalidade dos terroristas.

Apesar de tal parecer à partida uma visão demasiado radical e simplista para as possíveis pretensões por detrás dos actos, convém não esquecer que há meros cinquenta anos eram estes os propósitos últimos do nacional-socialismo alemão. A transformação do mundo à imagem das teses defendidas pelo chanceler alemão de então, Adolf Hitler. O assumir desta postura moderna de tangibilidade infinita de actos e objectivos, desemboca invariavelmente na completa inviabilidade de qualquer iniciativa promotora do diálogo entre as partes. Ao desconhecimento de interlocutores e propósitos junta-se assim o facto de, por este ser um projecto totalitário, deverem ser tomados por inegociáveis os aparentes objectivos últimos dos terroristas.

A Raiz do Terrorismo

Antes de mais, há que ter em mente que para grande parte dos habitantes de países islâmicos, a presença ocidental continua a representar a principal razão para o atraso económico e social em que se encontra a maioria destas nações. Por haver uma quase total ausência de autocrítica, falta de implementação da lógica de trial and error, e por o espaço de liberdade das pessoas se restringir ao permitido pela religião (sendo de recordar que na maioria dos países muçulmanos a separação entre Estado e Igreja é inconcebível) e pelas elites corruptas, as culpas pelo atraso nos países do cinturão muçulmano é quase sempre atribuída a forças exteriores, designadamente ao Ocidente.

Mas nem só meios pobres e inteiramente dominados por radicais islâmicos devem ser tidos como fontes de fundamentalistas dispostos a matar e a morrer pela sua causa. Grande parte dos implicados directos nos atentados de 11 de Setembro eram indivíduos com formação superior, ou ainda que foram diversos os cidadãos ocidentais capturados no Afeganistão e, supostamente, implicados com a Al-Qaeda.

A existência de um padrão no recrutamento de simpatizantes para a causa terrorista não deverá assim encontrar-se nos estratos sociais e culturais mais baixos, do mesmo modo que não se encontra limitado pela geografia das fronteiras de países islâmicos. A existir tal padrão, ele mais facilmente será encontrado em focos de crise de valores, um fenómeno que não afectará do mesmo modo nações ricas ocidentais e nações pobres islâmicas, mas que muito certamente se encontra presente em cada uma delas e que estimula a busca de respostas mais radicais para muitas das questões mitigadas. Deste modo, a raiz do terrorismo é, necessariamente, numa questão muito mais presente e próxima da velha e pacifica Europa.

Buscando Soluções

Tornam-se assim mais claras as razões que levam segundas e até terceiras gerações de famílias imigrantes em países ocidentais a identificarem-se mais com os valores filiais que com uma qualquer fidelização ao país que os viu nascer e do qual são cidadãos de pleno direito. A partir daqui, a luta ao terrorismo, nos moldes em que este hoje se apresenta, é algo que deverá começar a ser feito internamente, promovendo a integração e combatendo a marginalização de diversos grupos.

Já além fronteiras, a crise de valores podem identificar-se com as origens dos valores extremistas islâmicos, a partir da coexistência de pobreza, ignorância e de uma quase total ausência de estruturas de dinamização da sociedade civil. Quando cabe à mesquita o papel central, e muitas vezes único, de servir a comunidade através de instituições sociais e da formação escolar dos seus membros, estranho seria que os beneficiários deste esforço, certamente benemérito, não se sentissem guiados doutrinalmente pelo projecto social que o Islão propõem. Assim, impõe-se a preparação de uma “reforma” do Islão, de forma a que este consiga abarcar o desenvolvimento ao mesmo tempo que se descentraliza o poder da mesquita.

As acções a tomar passam antes de mais por um esclarecimento multidimensional das populações, quanto à participação das nações ocidentais na ajuda ao desenvolvimento dos países islâmicos, como forma de contrariar a mítica imagem de cruzados prontos a por fim ao Islão. Os meios para atingir tais propósitos, deverão incidir nas fontes de tal esclarecimento e na base das necessidades básicas das populações, de modo a descentralizar a dependência da mesquita e, logo, da fonte de doutrinação. Na prática, ao mesmo tempo que se desenvolveriam as condições básicas de sustentação à vida, o apoio poderia igualmente passar pela constituição de uma massa critica no seio da sociedade civil, através da criação e desenvolvimento de meios de comunicação social, de escolas sob a alçada do estado e de associações civis de diversa ordem.

Na essência este novo tipo de terrorismo deriva de uma tensão interna dentro do Islão, em particular dentro da Arábia Saudita, entre integristas – que pretendem conservar fielmente as tradições dos seus países, e, não raras vezes, conservar também os seus privilégios – e reformadores – que são mais moderados e pretendem uma abertura das sociedades islâmicas e uma aproximação ao modelo liberal do Ocidente. Nesta luta entre integristas e moderados o Ocidente é mal considerado, por um lado por motivos de incompatibilidade religiosa, uma vez que é visto como infiel aos ditames que defendem, mas também porque se mostra como aliado da corrente que pretende reformar os regimes islâmicos fechados, actualmente no poder.

A resposta multidimensional que do Ocidente é esperada, não se deve concentrar no hard-power, mas deve traduzir-se em medidas internas de prevenção dentro das nossas sociedades, e num apoio consistente à corrente moderada dentro do Islão que tem propósitos reformadores.

 

Início